Semana de Arte Moderna (8): A cidade antropofágica, de Pablo Mathias

“Goyazes levantem-se! Avante seus arpões e flechas. Ergam seus martelos e ferramentas. Urbanos! Mastigados pelos dentes de tijolo e concreto, digeridos pelo ácido solo — Cerrado”

O Jornal Opção vai publicar, com a curadoria do presidente da UBE-Goiás, Ademir Luiz, 22 contos de 22 autores evocando de diferentes formas a Semana de Arte Moderna de 1922 — que completa 100 anos em fevereiro, ou seja, nunca acabou — como inspiração. As mais diferentes possibilidades estilísticas foram exploradas. Contos modernos, contos tradicionais, contos pós-modernos. De homenagens assumidas a severas reflexões críticas; narrativas evocativas, narrativas memorialísticas, narrativas ensaísticas, narrativas desconstrutivas. Algumas com humor, outras com amor, mas também com vaias, aplausos e mesmo com o som do coaxar de sapos antropófagos.

A cidade antropofágica

Pablo Mathias

“Será necessária uma cidade voraz, que absorva toda a força e magnetismo do paralelo 16 e meridiano 49. A cidade deverá ser a motriz tecnológica, o coração pulsante nacional. Suas aortas, artérias, veias e femorais serão desenhadas e sustentarão o fluxo dos corpos que serão devoradas pelos dias e noites agrestes para depois regurgitá-los em felicidade. A cidade antropofágica.” Oswald acordou assustado e suando. Estava sozinho no apartamento da Líbero Badaró. Levantou-se, acendeu um cigarro e, pela janela que lhe escancarou a madrugada paulistana, soprou sua inquietação com o sonho. A imagem da figura bíblica, lhe apontando o dedo e dedicando aquelas frases impositivas, ainda eram cristalinas em sua visão. O timbre da voz, nítido em seus ouvidos, contrastava com a avenida silenciosa abaixo de seu apartamento. Era preciso criar uma cidade que seria a fusão de tudo o que eles vivenciaram na semana de 22. Era preciso atingir aquelas coordenadas.

Oswald de Andrade: uma das estrelas da Semana de Arte Moderna de 1922 | Fotos: Reproduções

Oswaldo cruzou o Rio Meia Ponte no começo da tarde. O carro puxado por curraleiros seguia lento pela estreita trilha que cortava o cerrado. Os animais estavam atados às carroças desde o nascer do sol e, às margens do córrego Botafogo, foram liberados para descanso. Oswald se encontraria com um emissário do governador no dia seguinte. Viriam de Vila Boa de Goiás. Apesar do cansaço e da poeira, Oswald rabiscou algumas frases, do que ele gostaria que fosse seu manifesto arquitetônico urbanístico, em sua caderneta. Com o cair da noite, acenderam uma fogueira próximo a um buritizal. A brisa fresca que soprava da vereda, o aroma do brejo e o geógrafo que os acompanhavam repetindo, sempre que questionado, que estavam nas coordenadas indicadas, fizeram com que o sono de todos fosse acolhedor.

Quando acordou, Oswald estava sozinho, havia um barulho urbano difícil de identificar. Suas vistas, ainda turvas, o deixaram em pânico. Havia um volume de gente, de concreto e de agitação que ele supôs ainda estar dormindo. Caminhou perdido por uma trilha calçada e avaliava cada passo. O som metálico e chiados onipresentes o assustavam. Começou a suar frio sob seu terno claro e amassado do dia anterior. Cruzou por diversos passantes. Com dificuldade de se localizar, atingiu um prédio e achou que ali poderia procurar ajuda. Buscou uma entrada e foi recepcionado por um imenso cavalo de metal. Um cartaz no corredor dizia: 100 anos da Semana de Arte Moderna. Gostou da temática ser futurista. Mal tinham acabado de apresentar e já estavam projetando a semana cem anos para frente. Viu um quadro, uma mulher em uma sacada, vestida de branco. Reconheceu os traços. Na identificação lateral leu: Anita Malfatti, Mulher do Pará – 1927.  “Onde estou?”, perguntou a um jovem rapaz. “Museu de Arte de Goiânia”, respondeu-lhe sem muito interesse. Oswald saiu do prédio novamente tentando buscar ar. O que estava acontecendo? Não parecia sonho. “Onde estou? Que lugar é esse?”, perguntou aflito ao segurança na porta do museu. Foram tantos questionamentos que o homem o tomou por doido e quando ele se preparava para conter o visitante atordoado, uma turma de estudantes que, escutando ele falar que tinha um encontro com o governador, se ofereceu para acompanhá-lo até a Praça Cívica. No caminho, a imensidão e velocidade da cidade o deixaram mais transtornado. Era impossível aquela humanidade em 1925.

Tarsila do Amaral, pintora, e Oswald de Andrade, escritor, na varanda da Fazenda Santa Tereza do Alto, em 1927 | Foto: Reprodução

Diante do Palácio das Esmeraldas, admirou o prédio e a arquitetura. Era isso que ele tinha visto em seu sonho. O barulho e a desordem envolta daquele largo não estavam tão intensos quanto sonhara, mas era justamente aquilo que seus pensamentos haviam projetado e o guiado até aquele ponto geográfico. Disse a um grande homem de terno que teria um encontro com o governador. Precisava lhe dizer seu manifesto arquitetônico. A cidade antropofágica. Pedro Ludovico precisava escutar: “Goyazes levantem-se! Avante seus arpões e flechas. Ergam seus martelos e ferramentas. Urbanos! Mastigados pelos dentes de tijolo e concreto, digeridos pelo ácido solo – Cerrado. Guarás, seriemas, teiús, levantem-se! A cidade, traço imortal parisiense, será decolonial. O sertanejo vinagrá…”

Acordou com o dia amanhecendo em seu apartamento na Libero Badaró. O travesseiro e o lençol encharcados de suor. Acendeu um cigarro e teve a certeza que o coração do país seria a expressão de sua semana. Uma cidade modernamente brasileira, engolindo as culturas diversas e as regurgitando em urbanidade.

6 respostas para “Semana de Arte Moderna (8): A cidade antropofágica, de Pablo Mathias”

  1. Avatar Mari disse:

    Muito bom!!!!! Arrasou !!! 👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽😍

  2. Avatar E.Mathias disse:

    Sensacionsl, senti na alma a ideia pulsante da criação! Parabens ao nobre escritor .

  3. Avatar Gustavo Goulart disse:

    belo texto! mto espirituoso!

  4. Avatar Dai disse:

    Que texto inclusivo! D fato são muitos modernismos a serem incluídos nesse levante. Parabéns ao autor! :)

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