Semana de Arte Moderna (7): Miúdos, por dentro da garoa, de Edival Lourenço

“Vocês voltam de Paris com ideias frívolas para aplicá-las aqui como se fossem a quintessência da brasilidade. Isso é o aprofundamento da colonização”

O Jornal Opção vai publicar, com a curadoria do presidente da UBE-Goiás, Ademir Luiz, 22 contos de 22 autores evocando de diferentes formas a Semana de Arte Moderna de 1922 — que completa 100 anos em fevereiro, ou seja, nunca acabou — como inspiração. As mais diferentes possibilidades estilísticas foram exploradas. Contos modernos, contos tradicionais, contos pós-modernos. De homenagens assumidas a severas reflexões críticas; narrativas evocativas, narrativas memorialísticas, narrativas ensaísticas, narrativas desconstrutivas. Algumas com humor, outras com amor, mas também com vaias, aplausos e mesmo com o som do coaxar de sapos antropófagos.

Miúdos, por dentro da garoa

Edival Lourenço

O grupo organizador da Semana de Arte Moderna de 1922, que não era tão grande quanto efervescente, seguia animado, preparando tudo nos mínimos detalhes, para que a apresentação no Theatro Municipal não fosse apenas um acontecimento, mas um escândalo. Um soco na cara da sociedade paulista tradicional e conservadora. Pretendia rasgar o bucho dos burgueses, na praça, chutar os sapos parnasianos para a profundeza dos charcos, queimar os cadernos poéticos do lirismo funcionário público, então, vigente. Um terremoto que retirasse a poeira, a pátina que embotava as ideias pelo país.

O grupo sentia-se preparado, com trânsito e sintonia com as vanguardas europeias, especialmente com os ideários que giravam pelas cabeças arejadas dos frequentadores dos salões, cafés e bordéis de Paris.

Monteiro Lobato e Anita Malfatti: a arte moderna da pintora provocou mal-estar no escritor | Fotos: Reprodução

No entanto, havia uma pulga na virilha dos ativistas: o intelectual brasileiro mais influente, Monteiro Lobato, não estava convencido da legitimidade do movimento, nem da eficácia de seus resultados. Já fora convidado, mas não mostrava animação, sequer havia confirmado presença a algum momento da Semana. Muito menos se alinhado às ideias do grupo.

Segundo a avaliação da maioria, o apoio de Lobato daria legitimidade e visão positiva, ocuparia espaços nos meios de comunicação, com desdobramentos repercutindo em todo o país e até no exterior. Sua indiferença poderia reduzir a importância do movimento. Sua oposição representaria um começo malfadado, um fracasso difícil de reverter-se. A minoria, no entanto, achava que a participação, ou não, de Lobato não tinha essa importância toda. Sua imagem de intelectual estava mais ligada ao parnasiano mofo e à velharia a ser demolida. Para um terceiro grupo, bem reduzido, mas radical, sua participação seria um estorvo. Vista com desconfiança, uma forma dos burgueses açambarcarem os movimentos de vanguarda, moldando-os aos antigos cânones, de modo que tudo não passasse de falsas mudanças, para deixar tudo como antes. Mas como a maioria achava que ele deveria ser figura de proa do movimento, como se dizia, decidiram procurar uma forma de fazê-lo participar ativamente.

O homem amarelo, de Anita Malfatti | Foto: Reprodução

Após discussões quase intermináveis, idas e vindas, marchas e contramarchas, foram escolhidos os nomes para formar um grupo e ir ao encontro de Monteiro Lobato: Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Guilherme de Almeida e Manuel Bandeira. Por azar ou sorte, Bandeira sofreu uma crise de tuberculose e ficou sem condições de acompanhá-los. O escolhido para substituí-lo foi Ronald de Carvalho, com a incumbência, dentro da programação, de declamar os poemas de Bandeira, “Os Sapos”, seguido de “Poética”, como parte dos argumentos.

As estratégias e os argumentos foram ensaiados com antecedência, para que a ação, junto ao prócer, não sofresse qualquer revés. A agenda foi pedida a Lobato, que topou receber o grupo na pequena sala de reuniões de sua editora.

Naquela manhã, a secretária acolheu o grupo, providenciou assento, água e cafezinho para todos. Na parede, atrás da poltrona de Lobato, com espaldar a média altura, ao estilo clássico, constava uma tabuleta com a seguinte frase: “Tudo tem origem nos sonhos. Primeiro sonhamos, depois fazemos”. A frase não tinha autoria, mas, como estava ali, ninguém duvidava de que era da lavra do próprio titular da poltrona e se tornou de pronto um elemento de identificação de todos.

Egresso do escritório ao lado, Lobato entrou com seu indefectível terno cinza, colete e gravata, esbanjando confiança, acompanhando de um cãozinho shih-tzu, que abanou o rabo num bom dia coletivo. Homem nascido no berço da aristocracia rural, herdeiro de grandes fazendas e de educação refinada, fez questão de pegar na mão de cada pessoa, nominando-a. Não era certo que conhecesse todos os visitantes, mas a secretária lhe passou antes as fichas e ele pôde proceder sua etiqueta de homem refinado. Só a secretária, pela longa convivência, percebeu que a presença de Anita Malfatti, no grupo, causou discreto mal-estar ao anfitrião. Talvez tenha soado como um acinte, pois não fazia muito tempo que Lobato havia publicado um artigo no jornal “O Estado de S. Paulo”, sob o título detrator “Paranoia ou mistificação?”, em que ridicularizava o suposto fato, atribuído à artista, de ter recebido o dom da pintura, por revelação, durante uma tentativa de suicídio. Contudo, entre os demais presentes, não foi percebida tal contrariedade, e todos ficaram à vontade para a exposição de seus argumentos e pontos de vista.

— Há cem anos, Dr. Lobato, o Brasil deu o grito da independência. Entendemos ser preciso, além da independência política, econômica e social, que fosse dado também o grito de independência estética e artística. A Semana de Arte Moderna, que propomos, pretende ser o divisor de águas de nossa história cultural, – alegou Mário de Andrade. Lobato fez um aceno de cabeça, como se concordasse. Oswald de Andrade animou-se e aduziu o seu script:

— Os vapores do centenário sopram a favor de nosso movimento, que postula uma arte de cunho nacional. Chega de papagaiar as artes e a estética de nossos colonizadores.

O anfitrião, se não aprovou cabalmente, pelo menos, não manifestou contrariedade.

— Até porque outros acontecimentos contribuem para essa efervescência, como o fim da Grande Guerra, – argumentou Anita Malfatti. Lobato não fez nenhum gesto, sequer olhou para ela.

— Outros acontecimentos, que contribuem para a oportunidade desse evento, são o início da industrialização do Brasil, a decadência da monocultura do café, o incremento da urbanização, – aduziu Di Cavalcanti. Lobato fez um gesto para a fala do próximo.

— A entrada maciça da mão de obra estrangeira não escrava, o surgimento de uma classe média mais consistente, grande afluxo de pessoas com acesso a informação, ao livro (inclusive os de sua editora), a jornais, a revistas e ao rádio.  O momento é propício para uma grande virada. Uma virada em favor da cultura nacional, com nossas raízes, com nossos falares, com nossas cores miscigenadas, com nosso cheiro. Cheiro de gente da terra, – disse enfático Guilherme de Almeida.

Mário de Andrade e Oswald de Andrade: próceres da Semana de Arte Moderna; mais tarde, brigaram de maneira incontornável | Fotos: Reproduções

— Meninos, estou impressionado! Vocês ensaiaram o jogral, sem descuidar de nenhum detalhe — exclamou o anfitrião, com cara boa. Desanuviando qualquer tensão que ainda pudesse existir. — Desculpe, disse Lobato, vejo que ainda falta a manifestação de Ronald de Carvalho.

Ronald animou-se. Com certo orgulho, retirou do bolso do blusão umas folhas manuscritas, um pouco amassadas. Alegou que falava em nome de Manuel Bandeira, que não pôde comparecer por questão de saúde, e, portanto, pedia licença para recitar dois poemas, compostos dentro do espírito modernista. Declamou, primeiro, “Os sapos”, em que critica acidamente o formalismo parnasiano, a escola literária em que Lobato se achava confortavelmente inserido. Não por acaso, seu nome completo, José Bento Renato Monteiro Lobato, compõe um verso alexandrino, com métrica e ritmo perfeitos. Inclusive, com uma luxuosa rima interna. Uma joia do parnaso. A crítica continua com o poema “Poética”, fechando com a manifestação basilar do modernismo:

—– “Não quero saber mais do lirismo que não é libertação!”

Lobato, que já estava carrancudo, leva as mãos aos ouvidos, como se repelisse alguma gastura:

— “Não quero saber mais do lirismo que não é libertação!”?  Não seria “que não seja libertação”? Parece que o amigo Bandeira está realmente mal de saúde. Até se esqueceu da conjugação correta de um verbo vernacular.

Ronaldo de Carvalho: poeta | Foto: Reprodução

Lobato era um intelectual múltiplo, nacionalista, artista criativo. No entanto, advindo de uma extração social, cujos valores, embora contestasse, jamais conseguiu superá-los efetivamente. Depois do “jogral”, sem dar tempo para que Mário de Andrade formulasse o convite e negociasse as bases de sua participação no evento, o anfitrião destilou sua bílis:

— Até parece que nossas ideias têm pontos de contato, porque eu também batalho por uma cultura nacional. Não só a cultura, mas uma nacionalidade por completo, que possa ser e se orgulhar da brasilidade. Mas o que vocês trazem é uma irresponsabilidade sem tamanho. Vocês, meninos mimados, passam suas temporadas em Paris, bebem aquelas ideias tresloucadas que eles chamam de Vanguardas, e chegam aqui querendo mudar a cultura do País, com esse punhado de maluquice importada. Isso é uma arrogância, um populismo demagógico e rasteiro. É como jogar merda num quadro de Pedro Américo e chamar a sujeira de Arte Moderna, a arte que a população compreende e de que precisa. Por que não ocupam as cabecinhas brilhantes de vocês para descobrir uma fórmula de levar educação ao povo, para que possa fruir do conhecimento e da cultura? Não. Vocês preferem estragar a cultura e entregar o lixo para o povo, sob alegação de que se trata da mais refinada e perfeita arte. Vocês voltam de Paris com ideias frívolas para aplicá-las aqui como se fossem a quintessência da brasilidade. Isso é o aprofundamento da colonização. Não. Não vou participar dessa palhaçada.

Fez uma pausa, para tomar um gole d’água. Era possível ouvir uma mosca voando, se na sala houvesse moscas. Com aparência de ainda mais irado, olhou nos olhos de Anita e continuou:

— Já não me assusta mais nada. Nem se, a qualquer hora, um desses artistas, ditos de vanguarda, pegar os penicos de sua alcova, pendurar nos cavaletes de uma galeria e disser que agora essa é a arte que se contempla. Pelo amor de Deus! Nunca vi tanto mau gosto querendo se passar por arte. Nunca vi tanto aleijão reivindicando a estética do belo.

O silêncio voltou a reinar. Todos se enredavam na teia do constrangimento. Talvez nem Lobato soubesse como sair da situação.

Sem ter onde pôr os olhos, a vista de Mário de Andrade esbarrou na tabuleta atrás do anfitrião: “Tudo tem origem nos sonhos. Primeiro sonhamos, depois fazemos”.  Instintivamente, teceu um comentário:

— Shakespeare tem uma frase que, acho, ele plagiou do senhor: “A vida é feita da mesma substância de que são feitos os sonhos. E entre um sonho e outro transcorre nossa breve existência”. Era a deixa que Lobato precisava.

— Espera aí, menino! Você está insinuando que plagiei a frase de Shakespeare? Vocês me fazem perder tempo e ainda me insultam?

Enquanto falava, dirigia-se à porta, para abri-la, indicando com a mão direita o rumo da rua. Num canto da sala, o cãozinho shih-tzu, impassível, em pose de leão da esfinge da pirâmide do Egito.

E lá se foram os jovens modernistas, em silêncio, cabisbaixos, miúdos, por dentro da garoa da Pauliceia, sem a participação ou mesmo a simpatia do mais importante intelectual brasileiro de seu tempo.

2 respostas para “Semana de Arte Moderna (7): Miúdos, por dentro da garoa, de Edival Lourenço”

  1. Avatar Enio Magalhaes Freire disse:

    Conto excelente do mestre Edival Lourenço, do mesmo porte dos contos e livros que ja escreveu.

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