Semana de Arte Moderna (5): A mulher de Pagodim na Semana de 22, de Maria Helena Chein

O começo do voo livre nas Artes e na Literatura, sem que se perdessem o alicerce construído antes e o legado das grandes obras                                

O Jornal Opção vai publicar, com a curadoria do presidente da UBE-Goiás, Ademir Luiz, 22 contos de 22 autores evocando de diferentes formas a Semana de Arte Moderna de 1922 — que completa 100 anos em fevereiro, ou seja, nunca acabou — como inspiração. As mais diferentes possibilidades estilísticas foram exploradas. Contos modernos, contos tradicionais, contos pós-modernos. De homenagens assumidas a severas reflexões críticas; narrativas evocativas, narrativas memorialísticas, narrativas ensaísticas, narrativas desconstrutivas. Algumas com humor, outras com amor, mas também com vaias, aplausos e mesmo com o som do coaxar de sapos antropófagos.

A mulher de Pagodim na Semana de 22   

Maria Helena Chein

Costumava saber de tudo, a mulher de Pagodim. Ah, a mulher de Valteres Ilídio Pagodim! Enfeitava qualquer lugar, sala de concertos, igrejas, velórios, cafeterias, aniversários, com seu deslumbramento pela vida. Era perfeita, ou quase. O que a enfeava era a unha roxa do dedão do pé esquerdo, machucado quando quis levantar, do chão, o andor de Nossa Senhora das Dores, para seguir a procissão. Deu um gritinho, e a fileira de homens correu para ajudá-la, alguns com lenços alvos, cheiro de alfazema ou flores do campo, outros com o vidrinho de água benta guardado no bolso do paletó. O mulherio dava de beiços, ronronando, olhavam umas para as outras, naquela vontade de estrangular a mulher desaforada de bonita.

Teatro Municipal de São Paulo | Foto: Reprodução

Maria Estela Ramos de Siqueira Pagodim, Telinha para aqueles bem próximos, os de sempre, era flor que se abria todos os dias, na janela bege do sobrado Art Déco, de fachada desenhada com linhas simétricas, bem destacadas, em uma rua silenciosa de São Paulo. Telinha dava notícia de tudo. Lia os jornais, conversava com as moças das lojas, ávidas para vender as sedas, rendas e cetim que chegavam da Europa. E ouvia atenta o Padre Nicolau, quando vinha para jantar, cheio das novidades que pingavam entre os cálices de vinho português ou de licor, que saboreava de olhos fechados, estalando a língua e arremessando suspiros ar afora. Pagodim, sempre solícito, enchia os cálices e taças, antes de se esvaziarem, para gosto e alegria do amigo. Telinha falava dos livros que lia, de poesia ou prosa, que seu romance preferido era “O Crime do Padre Amaro” e, com muito enlevo, seguia seu autor, Eça de Queiroz.

Então, ela soube. Ao experimentar o terceiro sapato, naquela loja cheia de tudo, ouviu de um freguês, hesitante entre a gravata de risquinhos e a lisa, que a capital ia sediar um acontecimento inusitado, acompanhe pelos jornais, a coisa vai ferver, disse-lhe. O homem empoado era um dos amigos de Mário de Andrade, de quem ela leu o livro Há uma gota de sangue em cada poema, do qual guardou para sempre o verso “Ser feliz é ser grande. Imenso de alma,/ ainda que o coração se lhe dobre…”

Anita Malfatti, Mário de Andrade e Villa-Lobos | Foto: Reprodução

Pagodim sentava-se para o café da tarde, contente consigo mesmo, pois havia fechado um excelente negócio, quando ela entrou, tal sol que arde a pele, alegria dividida e aquele sorriso debulhado no fogo de que era feita. Um anjo, um demônio?!  Desejou ir à Europa, capricho da época, foi. Quis um professor de piano, conseguiu.  Estudou francês, ouviu suas músicas na vitrola novinha, contratou novos empregados e pulou de contente com a chegada do Ford. Possuía tudo? Sim. Feliz? Sempre. Amava o marido? Muito. Mas por que ela era assim? Perguntavam todos. Porque ela era Maria Estela Ramos de Siqueira Pagodim. Então, com seus modos de moça refinada, pertencente à alta burguesia, aproximou-se do amado, passou os dedos em seu rosto e falou da novidade marcada para breve, a Semana de Arte Moderna de 1922. Eles iriam, claro, como não?  Não posso, vá você. Ao menos um dia, amor. Não posso, vá você, amor. Vou mesmo, convidarei uns amigos.

O único que se dispôs a ir foi Deodato. Com um nome assim, o marido nem sentia ciúmes. Essa mulher não tinha o que fazer? Perguntavam entre cochichos e muxoxos. Tinha, sim. Ela não parava. Acompanhou a programação do evento pelos jornais, rádio e nas conversas com Padre Nicolau, sempre bem-informado, principalmente, com as notícias vindas de Portugal. A empolgação crescia num emaranhado de ideias e suposições. Diversos países da Europa agitavam-se frente às novas perspectivas da arte e seus segredos. Nossos escritores e artistas iam romper com o conservadorismo vigente, construir uma identidade brasileira, diferente do que se fazia.

Roupas novas saíram das caixas e vestiram aquele corpo de vinte e oito anos, reluzente de vida e de coragem, corpo de alma sem mistério, guardiã, porém, de desejos que só o marido, pouco a pouco, conhecia. E os cabelos bem cuidados, a pele de cetim, a boca chamativa. Ao amado, todas as ofertas do amor e suas festas. Em meio aos inúmeros motivos que a noite prometia, Telinha e o amigo Deodato foram ao primeiro dia da Semana de 22, dia 13 de fevereiro, segunda-feira. Na realidade, seriam apenas três noites. O Teatro Municipal estava cheio. Um ar de expectativa nos rostos de todos os presentes. Ela aplaudiu o escritor Graça Aranha e sua fala sobre A Emoção Estética da Arte Moderna e os “horrores” que começavam ali e àquela hora, com exposição de artes plásticas, a poesia liberta e a música extravagante. À saída do Teatro, ouviam-se comentários, opiniões impactantes a respeito do momento desafiante e novo. Ninguém entendia nada. Nem Telinha, que repetia para Deodato “que loucura”, enquanto sorria, sem compromisso. No entanto, estava instaurado o movimento que mudaria o contexto cultural brasileiro.

Deodato devolveu, ao amigo Pagodim, a mulher linda e sem nenhum estrago. E Telinha, logo, contou ao marido, as perturbadoras novidades do evento. Ela teria que arrumar companhia para a segunda noite. Deodato ia viajar. Duvidou da viagem, não por ter que a acompanhar, mas pelo programa que em nada lhe dizia respeito. Era pouco afeito aos gostos requintados pela cultura.

Telinha encontrou Dona Emerenciana, um tanto conversadeira, que gostava de exibir as joias em festas ou atos públicos, e sua protetora, desde que a conheceu. As duas mulheres prepararam-se com esmero. Na quarta-feira, entraram gloriosas no saguão do Teatro Municipal de São Paulo, que não estava tão cheio, a mais moça absorvendo todos os olhares e inveja sem fim. Após a apresentação musical e palestra do escritor Menotti del Picchia, a celeuma estabelecida foi por conta do poema Os Sapos, de Manuel Bandeira, leitura de Ronald de Carvalho, pois o autor padecia com a tuberculose. Indignação da plateia, que considerou um insulto à poesia parnasiana.

Na terceira noite, pensa se Telinha desejou ir ou não? Imagine se iria perder a última noite. Quem seria sua companhia, pois Dona Emerenciana amanheceu com uma forte gripe? O próprio marido, o ocupadíssimo Pagodim, atento à sua indústria cafeeira, mas curioso para ver de perto a tão discutida Semana, afinal, os jornais não se cansavam de publicar artigos e opiniões sobre as desordens armadas pelos intelectuais e artistas de São Paulo e do Rio de Janeiro. O casal chegou, cumprimentou um ou outro conhecido, ele bem à vontade com sua mulher, acostumado a vê-la admirada por sua incomum beleza, e confiante em si mesmo, pois além de rico, era um belo homem. O teatro estava mais vazio. Quando o músico Villa-Lobos subiu ao palco, de casaca, com um chinelo em um dos pés, o público vaiou, pensando que ele queria chocar a assistência. Nada mais era que um calo a incomodá-lo. À saída do teatro, Padre Nicolau aproximou-se dos amigos e aceitou o convite para jantar, no outro dia.

Mais um dos inúmeros cálices de vinho, tomou o padre, e ainda degustou a Cachaça 22, uma das referências de resgate de nossa brasilidade, escolhida a bebida oficial da Semana da Arte Moderna. Convidado também, o professor Álvaro, estudioso de Literatura, sentia dificuldade de tirar os olhos da fulgurante mulher, bem à sua frente, mas conseguiu, Deus seja louvado! Forte e seguro como nunca, disse que ia resumir na frase do pintor Di Cavalcanti, o que os escritores e artistas pretendiam: Seria uma semana de escândalos literários e artísticos, de meter os estribos na barriga da burguesiazinha paulista. Continuou falando que havia a burguesia do café, da indústria, os filhos estudando na Europa, aliás, foi lá que alguns de nossos escritores buscaram o motivo para tal acontecimento, queriam romper definitivamente com os padrões estéticos da época, ir contra a formalidade, a arte pela arte. Tencionavam valorizar a cultura e a identidade brasileira. Era um grupo pequeno, mas ousado, irreverente, corajoso. Álvaro parou de falar, e o silêncio foi quebrado com a voz de Pagodim: Um brinde ao novo, ao que há de ser, sob as bênçãos de Nosso Senhor Jesus Cristo! Vinho, risos e palavras recolhiam aquela noite de verão. Maria Estela pediu licença para retirar-se e, de repente, o mundo do professor ficou minguado, triste e abafado. Nele, já não cabiam Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Guilherme de Almeida, Plínio Salgado e tantos outros que revolucionaram nosso universo cultural. Eles foram o começo de tudo. O começo do voo livre nas Artes e na Literatura, sem que se perdessem o alicerce construído antes e o legado das grandes obras. Perto da meia-noite, a última luz do aposento quieto apagou-se quase devagar.

Se Maria Estela Pagodim morasse ainda naquele sobrado Art Déco, estaria lendo um dos excelentes livros de autores goianos, prosa ou poesia, enviados por mim, que a conheci tão bem. Como não?

2 respostas para “Semana de Arte Moderna (5): A mulher de Pagodim na Semana de 22, de Maria Helena Chein”

  1. Avatar Talissa disse:

    👏👏👏👏👏👏

  2. Avatar Luiz de Aquino Alves Neto disse:

    No título, a palavra “Pagodim”, que a autora dá por nome próprio, está grafada com minúscula.

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