Semana de Arte Moderna (2): De volta a 1922, de Valdivino Braz

Somos um elo nas correntes vanguardistas, no sentido da rebeldia, insatisfação questionadora, interferência criativa e transformação? Inovar para renovar e revolucionar

O Jornal Opção vai publicar, com a curadoria do presidente da UBE-Goias, Ademir Luiz, 22 contos de 22 autores evocando de diferentes formas a Semana de Arte Moderna de 1922 — que completa 100 anos em fevereiro, ou seja, nunca acabou — como inspiração. As mais diferentes possibilidades estilísticas foram exploradas. Contos modernos, contos tradicionais, contos pós-modernos. De homenagens assumidas a severas reflexões críticas; narrativas evocativas, narrativas memorialísticas, narrativas ensaísticas, narrativas desconstrutivas. Algumas com humor, outras com amor, mas também com vaias, aplausos e mesmo com o som do coaxar de sapos antropófagos.

De volta a 1922: rebeldia e renovação artística e cultural
Valdivino Braz

Estamos em fevereiro de 2022. Adentro agora o saguão do Teatro Municipal de São Paulo e sinto-me como se estivesse no passado… Mas, espere… Estou no passado! O passado é presente neste espaço e tempo da história. Um delírio meu? E como, se me encontro nele, presente no passado, se me sinto parte do presente? Ou apenas me recordo do passado? Me lembro agora de ter lido, ainda na infância, no para-choque de um caminhão, que recordar é reviver o passado. Por outro lado, se, como dizem, recordar o passado é sofrer duas vezes, meu caso, neste saguão, é reviver um passado glorioso, com as artes de um novo tempo.

Estou de volta. Estou? Sinto-me de volta, cem anos depois de 1922; de volta, como no filme “Somewhere in time” (“Em algum lugar do tempo”, ou do passado, conforme traduzido no Brasil), de Jeannot Szwarc, em que o jovem teatrólogo Richard Collier, na estreia de sua primeira peça, se depara com uma idosa e misteriosa senhora, de uns sessenta anos, que lhe coloca na mão um relógio antigo, de bolso, e lhe faz intrigante pedido: “Volte para mim”. Em seguida, ela se retira e desaparece. Oito anos depois, ele se encanta com a fotografia de uma bela mulher, Elise McKenna, destacada atriz do início do século. Fascinado, se apaixona pelo retrato. Investiga e descobre tratar-se da mulher que lhe deu o relógio, e que tinha morrido no mesmo dia em que lhe entregara o objeto. Obcecado, decide-se pela auto-hipnose para transpor o tempo e encontrá-la. E encontra. Então é como num tempo de vivências passadas, de almas gêmeas, ou coisa parecida. Eles estão em 1912 e se amam, transcorre o romance, até que Richard, inadvertidamente, encontra no bolso uma intrusa moeda de 1972, que o remete ao seu tempo, pondo tudo a perder. Quebra-se, abruptamente, o encanto de seu transe temporal. Richard retorna, sofre muito, acaba morrendo e, por suposto, no filme, reencontra-se com Elise na eternidade.

Mário de Andrade e Oswald de Andrade | Imagens: Reproduções

Aqui e agora no saguão do Teatro Municipal, sinto no ar a iminência de algo que está para acontecer; fermenta-se e articula-se nestes dias restantes de uma República Velha em decadência, vinda de um período histórico iniciado em 1889 com a Proclamação da República, em 15 de novembro, pelo marechal Deodoro da Fonseca. Cai a monarquia comandada por Dom Pedro II. Muita água passando debaixo das pontes, antes do advento de uma nova era no país. No período de 1889 para cá, o Brasil é governado pelas oligarquias de São Paulo, de agricultura cafeeira, e Minas Gerais, com a economia de gado leiteiro. Uma República Velha controlada pela chamada política do “café com leite”. Em âmbito mundial, já por conta da Revolução Industrial de 1840, com inovações tecnológicas, o cenário é de intensas transformações sociais, econômicas e políticas. Contexto histórico e social em que se inserem os anseios de modernização das artes.

De tempos ultrapassados, desde a Monarquia até essa República Velha — tal uma velha senhora caquética, puxando de uma perna —, buscando consolidar-se com o capitalismo crescente no país, vem a sociedade paulista influenciada pelos padrões europeus tradicionais, e a eles arraigada. A grande maioria da população é sem instrução e exclusa no debate cultural e artístico, este em benefício de poucos, a elite republicana. Arte e cultura não são coisas para a “massa”, amorfa, ignara e inconsciente, segundo a visão de alguns. Entrementes, algo se apronta, iminente, prestes a eclodir. Então acontece, neste mesmo saguão do Teatro: a Semana de Arte Moderna, nesta histórica noite de segunda-feira, 13 de fevereiro de 1922, marco inicial do modernismo brasileiro. O escritor Graça Aranha abre a solenidade, com a conferência sobre “A emoção estética da arte moderna”. Ao fim, efusivos aplausos. E aqui estou, neste grande momento. Oportunamente, o evento celebra também o centenário da independência do Brasil, proclamada pelo imperador Dom Pedro I, em 7 de setembro de 1822.

Encontram-se aqui presentes Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Menotti Del Pichia, Anita Malfatti e Heitor Villa-Lobos, entre outros que redirecionam os rumos da arte brasileira. E Tarsila do Amaral, um dos nomes importantes do modernismo? Onde está Tarsila, que não a vejo por aqui? Ah, sim, está em Paris! Outro ausente é o poeta Manuel Bandeira, que — de ouvir dizer, fiquei sabendo — adoeceu e se vê impedido de comparecer; sequer amanhã, segundo dia da Semana, para declamar seu poema “Os Sapos”, como consta da programação. Para hoje, apresentações musicais, de dança (arte corporal) e recital de poesias, além de mostra de pinturas e esculturas já expostas aqui no saguão. Apraz-me circular pelo recinto, e a tudo aprecio — isso parece um sonho! —, dou testemunho e, em reconhecimento, presto meu tributo às artes.

Com espírito de, pode-se dizer, rebeldia e radicalismo artísticos, causando estranhamento, escandalizando boa parte da população, nossa Semana de Arte configura um primeiro e grande movimento vanguardista das artes em solo brasileiro. Consabido que interfaces com as vanguardas europeias, em conjunto, influem e confluem para iniciativas como essa; entretanto, a ideia central da Semana, a par com a renovação artística, por uma nova estética, contempla também uma renovação social no Brasil.

Além dos supracitados artistas do movimento modernista, alinham-se Plínio Salgado, Paulo da Silva Prado, Ronaldo de Carvalho, Guilherme de Almeida, Sérgio Milliet, Tácito de Almeida, Guiomar Novaes e outros mais. Artistas insatisfeitos com os rumos que vêm sendo tomados pelas artes em nosso país. E uma tomada de posição, fincando seu marco oficial com esta Semana de Arte Moderna, ou simplesmente Semana de 22, como já é referida. Quer-se também no Brasil o rompimento com os paradigmas tradicionais, para tanto rejeitando as regras sobre como fazer arte e, em contraponto, estabelecendo os parâmetros de suas próprias regras. Ausência de academicismo, liberdade criadora, valorização da identidade e da cultura brasileira, dentro de uma realidade própria.

Mário de Andrade, Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade, Anita Malfatti e Manuel Bandeira |Fotos: Reproduções

Curioso notar que os integrantes do Movimento artístico, em sua maior parte, são de famílias burguesas, estudaram na Europa e trouxeram modelos artísticos como referência. Irônico e crítico, Oswald de Andrade satiriza os meios acadêmicos ou a própria burguesia, sua classe de origem. Entretanto, tratando-se de filhos de fazendeiros da elite econômica de São Paulo e Minas Gerais, o movimento modernista conta com forte apoio do governador de São Paulo, Washington Luís. Curioso com tudo ao meu redor, ainda aqui me encontro, circulando pelo saguão do teatro. Fantástico! Com efeito, uma noite memorável.

Deixo agora o saguão do Teatro Municipal; não tenho a moeda de quebra do encanto, e no entanto, Galileu Galilei, eu me movo; como se desperto de um sonho, retorno ao meu tempo real. De volta a 2022. Sinto que, de alguma forma, porquanto nos diga respeito, posso (?) dizer: Meninos, eu vi. Eu estava lá. E agora, numa outra viagem pelo tempo, recorro às fontes de subsequentes movimentos de transformação que ocorriam pelo mundo, a exemplo, ainda em 1848, do “Manifesto Comunista” de Karl Marx e Friedrich Engels, e de influentes manifestos artísticos europeus, tais como o Futurismo (1909) do poeta italiano Fillipo Marinetti, negando o passado e saudando a revolução tecnológica e industrial. Expressionismo, começo do século XX, na Alemanha; a realidade humana retratada de forma subjetiva, cujos primeiros sinais surgiram em fins do século XIX, com a pintura de Vincent van Gogh. Surrealismo (1917), um novo modo de encarar a arte (“o que está acima do realismo”), inicialmente com Guilherme Apollinaire, num movimento artístico e literário que só ganhou corpo na década de 1920, em Paris, com o manifesto de André Breton, de 1924; uma das vanguardas que viriam definir o modernismo, entre as duas Grandes Guerras Mundiais. Deste período, obras de Salvador Dali, Frida Kahlo, René Magritte e também Pablo Picasso, com sua tela sobre Guernica.

Dentro de um cabaré em Zurique (Suíça), em 1916, surgiu o Dadaísmo, idealizado por intelectuais germânicos e anarquistas: desconstruir a arte, contrariando a sociedade, a religião, a ciência e a filosofia. Segue-se o Manifesto Dadaísta ou Dada (1918), de Tristan Tzara, rompendo com os parâmetros estabelecidos ao longo da história da arte ocidental, e propondo criação de arte como uma criança em suas primeiras falas, daí o termo Dada, referência ao primeiro balbucio de um bebê. Deste movimento circulou a revista “Cabaré Voltaire”, numa alusão ao pseudônimo do filósofo iluminista francês Françoise-Marie Arouet. O século XX trouxe também o cubismo, com formas geométricas para retratar a natureza, cujos fundamentos artísticos surgiram em Paris com o espanhol Pablo Picasso e o francês Georges Braque. Por fim, num somatório, o Modernismo, no início do século XX.

No Brasil, o modernismo é marcado por obras de perene destaque, como as telas do pintor Di Cavalcante, com influência cubista e surrealista, nem por isso à margem de temas brasileiros tipicamente populares: carnaval, samba, mulatas, favelas, operários. A poesia de Mário de Andrade, depois (1928) o Macunaíma, herói sem caráter, obra-prima literária, rapsódia sobre a formação do Brasil. As esculturas de Victor Brecheret, autor do Monumento às Bandeiras, em São Paulo. A pintura de Anita Malfatti, predecessora do modernismo no Brasil e que, conquanto portadora de deficiência motora (atrofia muscular congênita, no braço e na mão direita), lega obras valiosas ao acervo do país, entre elas “O homem amarelo”, “O homem de sete cores”, “A estudante” e outros temas.

O Movimento Antropofágico, liderado por Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral, na primeira fase modernista, legenda-se com a finalidade de estruturar uma cultura de caráter nacional, temas com a cara do país, excluindo o eurocentrismo da arte. E assim, bem entendido, “engolir” as influências estrangeiras. Destaca-se como um dos marcos antropofágicos a clássica pintura do “Abaporu”, de Tarsila. Recorrente à proposta do Movimento Antropofágico, o nome da obra decorre do tupi-guarani, que significa “homem que come gente”, ou seja, canibal, antropófago. Trocando em miúdos, Abaporu resulta de uma junção dos termos aba (homem), pora (gente) e ú (comer). Comer gente, aliás, ganha uma outra acepção (erótica) na linguagem da modernidade. Que o diga o antropólogo Claude Lévi-Strauss, que revelou a relação entre “comer” e copular.

Publicações de valor histórico, decorrentes (e recorrentes) da Semana de 22, o “Manifesto da Poesia Pau-Brasil” (1924), de Oswald de Andrade, trazia noções estéticas que iriam nortear sua poesia e sua escrita, influenciando também a outros modernistas brasileiros. Sua proposta, no sentido de renovar a cultura local, não implicava rejeitar os conhecimentos europeus, mas apropriar-se deles para criar algo novo, vinculado à realidade, às características culturais e à identidade do povo brasileiro. Em outras palavras, sentimento nacionalista — sem ingenuidade e ufanismo, mas de forma crítica —, e retomada de consciência. Numa publicação conjunta de vários autores, circulou, entre 1928 e 1929, a “Revista de Antropofagia”, baseada no “Manifesto antropofágico” (1928), também de Oswald de Andrade. Outra publicação de destaque foi a revista “Klaxon” (1922-1923), divulgando os ideais modernistas. Oswald publicou os livros “Pau-Brasil” (1925), de poemas, e “Primeiro caderno de poesia do aluno Oswald de Andrade” (1927); estreou na prosa em 1992, com o romance “Os Condenados”, primeiro volume da Trilogia do Exílio, que incorpora as obras “Estrela do Absinto” e “Escada Vermelha”. Publicou ainda “A utopia antropofágica” (textos diversos), os romances “Memórias sentimentais de João Miramar” e “Serafim Ponte Grande”, e peças como “O rei da vela” (“vela” no sentido de agiotagem, a juros extorsivos) e “O homem e o cavalo”, paródia, carnavalização e sátira.

De resto, o que mais aqui dizer sobre a Semana de 22, que já não tenha sido dito por tantos outros, e senão que, de nossa parte, remontando e repetindo o que já disseram? Nem por isso, de nós outros, o dito por não-dito, porquanto manifesto reconhecimento da importância de tão marcante evento sociocultural. De mais a mais, de que nos ufanamos senão que somos um elo nas correntes vanguardistas, no bom sentido da rebeldia, insatisfação questionadora, interferência criativa e transformação? Inovar para renovar e revolucionar. O esplendor das artes, enfim.

Toda arte é uma forma de expressão e interferência — política, inclusive. Assim a arte (o dom) da palavra, oral, escrita, impressa, musical, ou de forma figurativa (dança, desenho, pintura, escultura, folclore, arquitetura, fotografia, cinema, teatro). Abaixo a incultura cristalizada! Abaixo a ignorância institucionalizada! Abaixo a arrogância do saber! Abaixo a exclusão das massas anônimas, culturalmente desfavorecidas! Abaixo o intento fascista de calar a imprensa! Abaixo a sórdida falsidade das notícias (fake news)! Abaixo a imbecilidade nas tais de redes sociais! Abaixo o discurso do ódio! Abaixo o pandemônio com a politização da pandemia! Abaixo os inimigos da ciência! E abaixo, setenta vezes sete, os nefastos valetes de espada no jogo sujo da política!”

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