Semana de Arte Moderna (17): Sobre sapos, de Solemar Oliveira

Chico deu bandeira e Ronald de Carvalho teve de ler o poema “Os Sapos”, de Manuel. Tudo culpa dos parnasianos

O Jornal Opção vai publicar, com a curadoria do presidente da UBE-Goiás, Ademir Luiz, 22 contos de 22 autores evocando de diferentes formas a Semana de Arte Moderna de 1922 — que completa 100 anos em fevereiro, ou seja, nunca acabou — como inspiração. As mais diferentes possibilidades estilísticas foram exploradas. Contos modernos, contos tradicionais, contos pós-modernos. De homenagens assumidas a severas reflexões críticas; narrativas evocativas, narrativas memorialísticas, narrativas ensaísticas, narrativas desconstrutivas. Algumas com humor, outras com amor, mas também com vaias, aplausos e mesmo com o som do coaxar de sapos antropófagos.

Sobre sapos

Solemar Oliveira

Os olhos hipócritas dos viajantes andavam longe dos livros – agora polichinelos sentados nas cadeiras vazias. — Oswald de Andrade, “Memórias Sentimentais de João Miramar”

Francisco estava atento aos sons. De dentro do escritório, apenas silêncio. Deu duas voltas no corredor e decidiu chamar. Manuel estava confortável à escrivaninha de seu escritório. Muito atento à caneta na mão firme. A cabeça levemente inclinada em reverencia sincera, espontânea. Não pensava nos excessos com a devoção à escrita e deixava-se imprimir o cuidado de longos anos em seu ato sensível e involuntário. Executava uma tarefa leve e mecânica que consistia, periodicamente, em conter um surto de tosse que se anunciava. Aquele moribundo, ali sentado era, de muitas maneiras, admirável. A postura austera. A convicção no olhar. O sorriso um pouco desconcertante, culpa da anatomia. A trova imposta pelo timbre grave da voz. E a poesia que recheava o recinto, ditada pela mesma voz contundente, atemporal.

O seu secretário inquieto. Homem de poucas palavras e cuidado ampliado pela história de lealdade e tempo, Francisco, observava o que conhecia há anos. O escritor cauteloso mergulhado no mundo tridimensional visível e, absolutamente, infinito no seu íntimo solitário. Manuel mastigava o papel com a caneta muito lenta. Murmurava palavras sem sentido e liberava miúdos de tosse para um lado e para outro, defendendo a mesa e a folha branca. Ali criava uma obra para a posteridade ou um insulto aos incautos. Quem sabe?

Francisco apreciava, no breu do corredor, pela fresta generosa e a parca luz da luminária. Ali, na semiescuridão, brotavam as ideias e nasciam os versos. De fora, ouvia os risos entrecortados por surtos de tosse seca e horripilante. Depois, a concentração novamente. E o papel se enchia. Como incomodá-lo? Mas era caridoso e simpático. Também gostava de ouvir e falar.

Era 1917, o ano do avento da ideia. Surgiram muitas, mas nenhuma tão boa quanto aquela que fez surgir o poema que faria história. Francisco anunciou sua entrada com três soquinhos na porta. Manuel alçou a sobrancelha, olhou de soslaio. Viu o homem entrando.

– Pode falar, Chico. Diga o que quer.

Manuel manteve-se firme. Uma estátua inflando-se em períodos. Repousava controlado sobre o móvel. Ocupava o cotovelo com uma página do caderno que teimava em virar-se cobrindo a escrita da folha esquerda. Levantava o braço, sequencialmente, produzindo um clique incomodo, mas que, tudo indica, embalava sua concentração.

– Desembucha, homem.

– Senhor Manuel, estão à porta. Seis homens bem-vestidos. Trajes completos. Ternos bem cortados e gravata com arabescos. Os cabelos muito bem penteados e não há traços de barba. Impecáveis, os velhos. Se autodenominam parnasianos. Ah, quase esqueci, usam óculos pretos e quadrados, iguais. Relógios alemães, nos pulsos esquerdos. Falam pausadamente e, com isso, causam demasiado enfado.

– Foi você que os trouxe aqui, não foi, Chico?

– Foi. Não foi. Foi. – Gaguejava um pouco e apregoava, em ondas sutis, um desespero, que não se concretizou.

– São uns sapos. Livre-se deles. Não estou pra ninguém.

Francisco deu desculpas aos homens. Os seis se olharam com desgosto. Logo mudaram as caras tristonhas para carrancas ameaçadoras e, em seguida, ficaram enigmáticos. Foram-se irritados. Olharam para Francisco e disseram em uníssono:

– Vais pagar, rapaz. Vais pagar. Tu és jovem, não entendes. Submisso. Vais pagar. Verás.

Quando voltou, Manuel sorria.

– Sem cacoetes, Chico. Sem cacoetes. – E gargalhou.

Alguns meses passaram e Manuel se lembrou da visita dos seis homens estranhos. Aqueles sapos, disse. Chico riu da indignação e quis saber o motivo da lembrança.

– Querem tudo ao seu modo. Apenas isso. Você quase me fez aceitá-los em minha casa. Sabe que não gostei?

– Sei!

– Não sabe! Sabe!

– Sinceramente patrão. Não sei! Sei!

– Não se preocupe, Chico. Que loucura. – E riu. – Não tem importância. Deixemos.

Manuel, enfiado em ações e estudos, confiava à Francisco seus negócios enquanto dedicava-se aos escritos. Confabulava com o secretário, apenas para observar o tipo curioso e sua fala entrecortada e cômica. Não ria, mas sugava aquela magia sem pudores e abstraia-se em imaginativas situações pitorescas. Queria que fossem para a folha branca. Queria aquele ritmo e aquela tensão. Manteve-se nesse exercício por algum tempo.

Quatro anos se passaram. As tosses ficaram mais intensas e a disposição abandonou Manuel por um tempo. Escrevia um pouco menos, mas tinha um volume de coisas relevantes e considerável orgulho de tê-las escrito.

Ronald de Carvalho: poeta que morreu aos 41 anos| Foto: Reprodução

Conferenciando com Francisco, Manuel passou-lhe incumbências, contou sobre necessidades relevantes para manutenção da casa e pediu ao homem para resolver suas pendências bancárias mais urgentes. Depois de muito falar e pouco ouvir, disse para Francisco que precisava de um favor. Recebera um convite, como convidado ilustre, para declamar um poema seu, em uma Semana de Arte Moderna, cuja data se avizinhava. Não iria, estava certo disso. A tosse não permitia, o sentimento o freava e o desejo de estar com outros, colegas importantes, minguara nos últimas dias como as chuvas de janeiro, que há pouco se encerraram.

– Você vai ler o poema para mim, Chico. É um pedido. Devo isso a você.

O homem não entendeu toda a fala, mas brilhou no olhar e os lábios tremeram um pouquinho. Encheu-se de orgulho e vontade. Não pensou muito para dizer o que pensava.

– Vou! Não vou! Vou! Não vou. Voouu!!! Definitivamente, vou! – Elevado o cacoete às alturas, a graça se estabeleceu na intimidade e riram os dois.

Chegado o dia do grande evento, Francisco chegou cedo à Cidade de São Paulo. Foi para o Teatro sem pressa, mas o trânsito era lento e os percalços no translado sobrepuseram-se, à exaustão. Não bastasse os inúmeros entraves, à entrada do Teatro encontrou, novamente, os seis homens de 1917, os parnasianos, que o cercaram sem pudores. Ternos finos e cabelos engomados. O penteado, tão rigorosamente definido, e o gel depositado, em quantidade, para atender à necessidade do rigor geométrico, com uma divisa central e sem defeitos, dividiam, para sempre, duas partes de pelo proporcionalmente análogas. Os rostos quadrados, simétricos, excessivamente expressivos. Tipos enjoados, com gravadas de riscas transversais idênticas e igualmente posicionadas. Queriam detê-lo de qualquer modo. Anunciavam um discurso. A natureza simpática de Francisco impedia um ato impulsivo, então concordou em cumprimentá-los um a um e ouvir o que teimavam em dizer. Mas não embalaram coisa extensa. Simplificaram, por desdém, a ação. Mas se falassem o que desejavam falar, por impostura de sua soberba, até as ondas de suas seis fontes criadoras do verbo, teriam a mesma frequência de vibração.

– És escritor, rapaz? – Disse um.

– Aonde vai? Para que a pressa? O que tens aí, rapaz? – Outro disse, em tom intimidador.

– Vou ler o poema do Senhor Manuel. Ele me incumbiu desta tarefa.

– Não tenha pressa. Tome um trago conosco. Deixe-nos comemorar com você.

– Não posso.

– Venha. Só uma dose. É especial. Sentimos ter passado uma impressão ruim. Queremos exaltá-lo.

Francisco foi enredado pela prosa envolvente. Deixou-se convencer. Bebeu uma, duas, três e a hora foi-se como a bebida garganta abaixo. Quando entrou, no palco se encontrava o leitor substituto de “Os sapos”, desculpando-se pela ausência do declamador oficial, Francisco Alves, que até o momento não anunciara sua chegada e nem encaminhara aviso sobre um possível atraso. Francisco desconhecia as formalidades, apenas foi. Ao ser confrontado pelo olhar simples do homem que veio declamar o poema anunciado, olhando do corretor, desolado e triste, Ronald, convicto, iniciou: Enfunando os papos… Não demorou e vieram os uivos, os gritos, os rangidos, os sibilos toscos de raiva e os inspirados protestos da plateia. Francisco deu vários passos para trás. Não entendia o que estava acontecendo. À sua direita e à sua esquerda, homens e mulheres vaiavam de pé o declamador imóvel. Às suas costas, os seis parnasianos assombrados. Olhavam Francisco com visível espanto e respeito imposto.

Alguém já disse: o coração humano é terreno hostil, terra que ninguém anda. Essa via desorganizada, engendrou-se no passado e no sentimento de autopreservação. Humilhados, os seis orientaram sua lança vingativa para o homem, e deixaram a ideia ao lado. Outra voz, perdida no tempo, já anunciou que não há como organizar o caos. A medida do sucesso é um plano do acaso. Os seis homens finos intentaram contra Francisco, e apenas contra ele. Eis a comicidade de toda a cena.

Penso que Francisco ouviu um eco na cabeça, grave e carregado de certeza, um ruído decidido, emanado de sua timidez, do fundo de seu constrangimento, para lavar a sua alma ingênua, como se o senhor Manuel dissesse algo, entre risadas estridentes e sinceras, demasiado satisfeito, após a sua tosse companheira, irritando as palavras, que não carecem, sempre, de rigorosa simetria.

Uma resposta para “Semana de Arte Moderna (17): Sobre sapos, de Solemar Oliveira”

  1. Avatar Talissa disse:

    👏👏👏👏👏👏
    Francisco é um personagem muito bom….

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