Semana de Arte Moderna (13): O adepto do Corinthians, de Luiz Gustavo Medeiros

Mário e Oswald querem mostrar que os parnasianos haviam parado no tempo. Paulinho fala do time do Corinthians

O Jornal Opção vai publicar, com a curadoria do presidente da UBE-Goiás, Ademir Luiz, 22 contos de 22 autores evocando de diferentes formas a Semana de Arte Moderna de 1922 — que completa 100 anos em fevereiro, ou seja, nunca acabou — como inspiração. As mais diferentes possibilidades estilísticas foram exploradas. Contos modernos, contos tradicionais, contos pós-modernos. De homenagens assumidas a severas reflexões críticas; narrativas evocativas, narrativas memorialísticas, narrativas ensaísticas, narrativas desconstrutivas. Algumas com humor, outras com amor, mas também com vaias, aplausos e mesmo com o som do coaxar de sapos antropófagos.

O adepto do Corinthians

Luiz Gustavo Medeiros

Mário de Andrade e Oswald de Andrade

O Paulinho só falava do Corinthians. Chegou no Municipal enrubescido, a testa escorrendo suor, cabelo desgrenhado e aquele paletó todo amarfanhado, lapela desalinhada, sem lenço no bolso. Mário segurou-se para não cometer nenhum desatino, furioso que estava. A primeira coisa que Paulinho disse ao chegar foi que tinha acabado de sair do treino e que o Gambarotta era a coqueluche do momento, “esse ano a gente encerra o jejum”, secando a testa com a manga – com a manga! O sujeito prestes a dar uma conferência imprescindível sobre arte e estética, todos contando com ele e a primeira frase que diz é: “com o Gambarotta não vai ter pra ninguém”. Dá pra entender o Mário e também o Oswald, que não quis nem ficar para ouvir, nada tirava seu foco, queria porque queria mostrar aos parnasianos que eles tinham parado no tempo.

Menotti del Picchia, poeta modernista | Foto: Reprodução

O Norberto, do Correio de São Paulo, disse-me que a cobertura da imprensa seria diferente esse ano. “Vai ser o campeonato paulista mais importante de todos, com o garboso nome de Taça do Centenário da Independência”, e disse com os olhos cintilantes, confiando na linha defensiva do Palestra contra os avanços do alardeado Gambarotta. Apesar de tudo, havia graça naquele furor do Paulinho, na mão inquieta que, de quando em vez, ameaçava afrouxar o nó da gravata – imagina só o ilustre jornalista e poeta Paulo Menotti del Picchia no palco do Municipal de lapela torta, gravata frouxa e mangas úmidas de suor discorrendo sobre os preceitos da arte para uma plateia de parnasianos sequiosos por atirar-lhe vaias, cuspes, tomates, ovos. Pior ainda se encontrasse um jeito de enfiar o Corinthians e o Gambarotta no meio do palavrório.

Para o sossego de Mário vieram as adoráveis Anita e Tarsila, tão maneirosas com aqueles chapeletes, socorrer o conferencista desleixado feito um louco varrido com repuxos no paletó, tapas nos ombros e um pouco de óleo para prender as pontas soltas do cabelo do poeta. As bijouzinhas, preocupadas com seus próprios afazeres, aprumaram Paulinho aos bufos, impacientes, à beira de um acesso de pugna. Mas conseguiram deixá-lo com a casaca bem toalhada e fazer com que o conferencista parecesse menos com Paulinho, o adepto do Corinthians, e mais com Hélios, o jornalista do Correio Paulistano, ou Menotti del Picchia, o poeta de Juca Mulato.

Gambarotta foi jogador do Corinthians | Foto: Reprodução

As vaias vieram, como sabemos, mas foi motivo de orgulho. Oswald sorriu largo ao ver o semblante dos parnasianos depois que o Paulinho, sob a tutela de Hélios, sugeriu que um Zé-Pereira canalha desse uma vaia definitiva nos deuses do Parnaso. Mário revisou o texto, minutos antes, junto com Paulinho e – foi engraçado pra chuchu – praticamente discursava junto, frase por frase, entre tragadas num cigarro cujas cinzas desabavam sobre seu paletó sem que percebesse. O problema é que Paulinho deixou Menotti e Hélios de lado para ser Paulinho, o adepto do Corinthians, e, para desespero de Mário, afrouxou a gravata e começou a improvisar. Oswald não parava de rir um riso raivoso, um riso de resposta. Quando Paulinho falou das empadinhas poéticas e do guisado com acepipes verbais parnasianos, Oswald perdeu o ar de tanto rir, pôs a mão no abdome e até desfez o penteado. Acho que foi por isso que não reagiu quando Paulinho disse que o “Corinthians é um fenômeno sociológico a ser estudado em profundidade”. Talvez não tenha nem escutado. Já Mario não entendeu patavina do que estava acontecendo, enfureceu-se, jogou o cigarro no chão e, entre arres e muxoxos, girou o pé com raiva, como se a guimba fosse o Paulinho.

Por sorte, foram tantas vaias que a frase nem repercutiu nos jornais. O Norberto mesmo, só foi saber no ano seguinte, já que o Paulinho insistia em lembrar, depois que o Corinthians conquistou aquele Campeonato Paulista, “Gambarotta fez 19 gols, não falei que não tinha pra ninguém?, lembra que até citei o Corinthians na conferência?”, lá no Ponto Chic, todos os modernistas perfilados à mesa e Mário sem entender como é que o ilustre poeta Menotti del Picchia importava-se tanto com o Corinthians e com o Gambarotta quando a Semana de Arte Moderna tinha sido um fiasco.

2 respostas para “Semana de Arte Moderna (13): O adepto do Corinthians, de Luiz Gustavo Medeiros”

  1. Avatar Enio Magalhaes Freire disse:

    👏🌿🌿👏 Parabens!

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