Semana de Arte Moderna (11): O pedido de escusas de Cora Coralina, de Iraides Barbosa

Que o acontecimento atinja o seu objetivo com a renovação do ambiente artístico-cultural e consolide a informalidade, o improviso e a liberdade de produção

O Jornal Opção vai publicar, com a curadoria do presidente da UBE-Goiás, Ademir Luiz, 22 contos de 22 autores evocando de diferentes formas a Semana de Arte Moderna de 1922 — que completa 100 anos em fevereiro, ou seja, nunca acabou — como inspiração. As mais diferentes possibilidades estilísticas foram exploradas. Contos modernos, contos tradicionais, contos pós-modernos. De homenagens assumidas a severas reflexões críticas; narrativas evocativas, narrativas memorialísticas, narrativas ensaísticas, narrativas desconstrutivas. Algumas com humor, outras com amor, mas também com vaias, aplausos e mesmo com o som do coaxar de sapos antropófagos.

O pedido de escusas de Cora Coralina

Iraides Barbosa

Confirmo o recebimento do convite para o Festival da Semana de Arte Moderna, ilustrado por Di Cavalcanti. O meu coração bateu forte num peito sonhador. Vi-me no saguão do Theatro Municipal paulista, declamando versos singelos, retratando os becos e a vida de gente simples. Contudo, encontrei impedimentos intransponíveis. Peço escusas. Vejo-me reclusa numa lesão que assola o ventre que chora o seu fruto. Tenho em mim um grito que percebo ecoar, bulindo em mim, paralisando a minha caligrafia. Vejo-me rebuçada do temor da despedida do que descende de mim.

Tenho comigo alguns versos que repito diuturnamente e que me alegraria declamar em tão importante evento: Dai, Senhor, que minha humildade seja como a chuva desejada caindo mansa, longa noite escura numa terra sedenta e num telhado velho. Que eu possa agradecer a Vós, minha cama estreita, minhas coisinhas pobres, minha casa de chão, pedras e tábuas remontadas. E ter sempre um feixe de lenha debaixo do meu fogão de taipa, e acender, eu mesma, o fogo alegre da minha casa na manhã de um novo dia que começa. São composições simples. Decifro as palavras no tacho fervente no fogão de taipa, nas pedras e nas tarefas do dia, que teimo em revestir de poesia. Esforço-me por revelar o belo e o singelo do cotidiano arrastado, que se apresenta, na maioria das vezes, camuflado, mas que grita por todos os poros reclamando pela revelação.

Escrevo à noite, após acudir as tarefas, especialmente com as crianças. Desprovida de muitos recursos, a minha obra é tímida, praticamente uma conversa de comadre. Três anos na escola não me permitiram um estudo pormenorizado, razão pela qual não me apego à estética da arte acadêmica, ao contrário, me inclino ao vocabulário formado por meus passos em ladeiras que percorro com desejo de apreender os ensinamentos da vida. Ajuntei todas as pedras que vieram sobre mim. Levantei uma escada muito alta e no alto subi. Teci um tapete floreado e no sonho me perdi. Uma estrada, um leito, uma casa, um companheiro. Tudo de pedra. Tenho em mim O cântico da terra.

Tenho exercitado o doce sabor da leveza, com o compromisso apenas de permitir fluir o que se apresenta aos meus olhos atentos. A minha contribuição seria infantil, própria de quem apenas observa ao redor com olhos de muito ver, as mãos encardidas, sujas de melado, estendidas e acenando para dias melhores. Admito que não seria muito.

Theatro Municipal de São Paulo | Foto: Reprodução

Por certo, os autores que admiro como o irreverente Oswald de Andrade, Guilherme de Almeida que sugere revelar o Brasil pela poesia e Graça Aranha, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, que, coincidentemente, comemora neste ano as suas bodas de prata, representarão com maestria a ânsia de todos que debruçam em suas escrivaninhas. Encantar-me-ia conhecer ainda Plínio Salgado, Menotti Del Picchia e Guilherme de Almeida. Cada um com o seu talento admirável.

Não estarei presente nesse evento nascedouro da liberdade para a criação e toda a forma de expressão artística, que não pode ser aprisionada. Tenho admiração e tendência para a escrita livre de métrica, desnuda de formalismo. O singelo e harmônico me apetece.

Graça Aranha fala na Semana de Arte Moderna de 1922 | Foto: Reprodução

Que o acontecimento atinja o seu objetivo com a renovação do ambiente artístico-cultural e consolide a informalidade, o improviso e a liberdade de produção. Temos, no atual cenário, obras genuínas e autenticamente brasileiras, a exemplo do estilo inovador e marcante do jovem Mário de Andrade que, em seu primeiro livro, reflete a sociedade contemporânea e revela uma inquietação própria de todos nós. Passei a conhecer a sua obra com a minha vinda para o estado de São Paulo. Li com admiração o poema “Há uma gota de sangue em cada poema”. Assim como há resquício de barro, nas estradas asfaltadas e ruínas, pelo impacto das guerras e catástrofes, há em cada poema uma lágrima; Assim como ecoam aplausos e vaias, da grande semana! Onde sobra pedaços mastigados na antropofagia, Mário não desperdiçaria uma ideia sem que esfacelasse fontes, rituais e oferendas. Há uma gota de suor em cada letra; e em cada verso um gozo de dor, por que sempre a dor do poeta? Simples… É exatamente aí que sucumbi as mágoas de exprimir pelo dom; E despedir a força vital paulatinamente… Mas há de deixar cada poeta, em cada página seca, a ata boêmia, ideia difusa e sua vida latente!

Di Cavalcanti: pintor | Foto: Reprodução

De onde eu vim, o meu querido estado de Goiás, convivi com Hugo de Carvalho Ramos, nascido também em Vila Boa, assim como eu, que nos deixou precocemente em 1921, deixando um importante legado:  o livro “Tropas e Boiadas”. Em sua obra, ele retratou histórias do regionalismo brasileiro que apresentam em detalhes o cotidiano, tal como ocorreu na sociedade goiana, valorizando igualmente a autenticidade.

Mário de Andrade e Oswald de Andrade: figuras centrais da Semana de Arte Moderna | Fotos: Reproduções

Com o aflorar de um estilo mais solto, não nos deixemos bloquear com as imposições do Parnasianismo que tanto nos ensinou, mas que reclama por renovação e liberdade. Em terras novas, repletas de criatividade e talentos natos, a literatura e a arte em geral, não podem se deixar castrar. Não desperdicemos uma ideia, conforme nos ensina Mário de Andrade. “Semeador da Parábola. Lancei a boa semente…”. Assim, vejo o festival, uma boa ideia que trará bons frutos. Comemoremos o centenário da Independência, sabendo que a Semana de Arte Moderna também será comemorada no futuro.

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