Seis poemas de Goethe traduzidos por Wagner Schadeck

Johan Wolfang von Goethe (1749-1832) é considerado o maior escritor alemão e um dos maiores da história da literatura. É autor, dentre outras obras, do poema dramático “Fausto”

Goethe in the Roman Campagna (1786) by Johann Heinrich Wilhelm Tischbein | Reprodução

Wagner Schadeck
Especial para o Jornal Opção

REZENSENT (1774)
Da hatt ich einen Kerl zu Gast,
Er war mir eben nicht zur Last;
Ich hatt just mein gewöhnlich Essen,
Hat sich der Kerl pumpsatt gefressen,
Zum Nachtisch, was ich gespeichert hatt.
Und kaum ist mir der Kerl so satt,
Tut ihn der Teufel zum Nachbar führen,
Über mein Essen zu räsonieren:
»Die Supp hätt können gewürzter sein,
Der Braten brauner, firner der Wein.«
Der Tausendsakerment!
Schlagt ihn tot, den Hund! Es ist ein Rezensent.

CRÍTICO
Chegou uma cara visita
Que a mim não era um parasita.
Empanturrou-se de comida,
Refestelou-se com a bebida,
Da sobremesa ao fim deu cabo.
Vizinho a mando do Diabo,
Ao terminar a minha ceia,
Raciocinou de boca cheia:
“Na sopa faltava cominho,
O assado cru, azedo o vinho.”
– Que coma a maldita migalha!
É um crítico. Morte ao canalha!

DAS VEILCHEN (1774)
Ein Veilchen auf der Wiese stand
Gebückt in sich und unbekannt;
Es war ein herzig’s Veilchen.
Da kam eine junge Schäferin,
Mit leichtem Schritt und munterm Sinn,
Daher, daher,
Die Wiese her, und sang.

“Ach!” denkt das Veilchen, “wär’ ich nur
Die schönste Blume der Natur,
Ach, nur ein kleines Weilchen,
Bis mich das Liebchen abgepflückt
Und an dem Busen matt gedrückt!
Ach nur, ach nur
Ein Viertelstündchen lang!”

Ach! aber ach! das Mädchen kam
Und nicht in acht das Veilchen nahm,
Ertrat das arme Veilchen.
Es sank und starb und freut’ sich noch:
“Und sterb’ ich denn, so sterb’ ich doch
Durch sie, durch sie,
Zu ihren Füßen doch.”

CRAVO
O cravo brotou no prado,
desconhecido e corado,
um cravo pequeno e brando.
Mas uma jovem pastora
passava ali naquela hora
sorrindo e cantarolando…

“Fosse eu o cravo mais lindo
do mundo!”, disse sorrindo,
“…só por um momento, ser
colhido pela mais bela,
e premido ao seio dela,
eu poderia morrer.”

Mas a pastora indecisa,
Ao não notar onde pisa,
Calcou o cravo amador.
E esmaecendo, ele sorria:
posso morrer com alegria
– morro aos pés do meu amor!

HEIDENRÖSLEIN (1771/1799)
Sah ein Knab’ ein Röslein stehn,
Röslein auf der Heiden,
War so jung und morgenschön,
Lief er schnell es nah zu sehn,
Sah’s mit vielen Freuden.
Röslein, Röslein, Röslein rot,
Röslein auf der Heiden.

Knabe sprach: “Ich breche dich,
Röslein auf der Heiden.”
Röslein sprach: “Ich steche dich,
Dass du ewig denkst an mich,
Und ich will’s nicht leiden.”
Röslein, Röslein, Röslein rot,
Röslein auf der Heiden.

Und der wilde Knabe brach
‘s Röslein auf der Heiden.
Röslein wehrte sich und stach,
Half ihm doch kein Weh und Ach,
Musst es eben leiden.
Röslein, Röslein, Röslein rot,
Röslein auf der Heiden.

A ROSA
Um menino viu ali a
Rosalina do sertão,
Bela e fresca como o dia.
E correndo com alegria,
ele quis tê-la na mão.
Rosa, Rosa, Rosa rubra,
Rosalina do sertão.
Disse ele: “Eu vou te cortar,
Rosalina do sertão.”
Disse ela: “E eu vou te espinhar,
Não quero te ver chorar,
Doída é a recordação.”
Rosa, Rosa, Rosa rubra,
Rosalina do sertão.

Mas o menino cortou
Rosalina do Sertão.
Rosalina o espinhou,
Não lhe adiantou “ai” nem “ou”,
Doída é a recordação.
Rosa, Rosa, Rosa rubra,
Rosalina do sertão.

GEFUNDEN (1813)
Ich ging im Walde
So für mich hin,
Und nichts zu suchen,
Das war mein Sinn.

Im Schatten sah ich
Ein Blümchen stehn,
Wie Sterne leuchtend,
Wie Äuglein schön.
Ich wollt es brechen,
Da sagt es fein:
Soll ich zum Welken
Gebrochen sein?

Ich grub’s mit allen
Den Würzlein aus.
Zum Garten trug ich’s
Am hübschen Haus.

Und pflanzt es wieder
Am stillen Ort;
Nun zweigt es immer
Und blüht so fort.

ACHADO
Fui à floresta,
Em si volvido.
Na distração
Tive sentido.

No escuro eu vi
Uma flor bela,
Como olhos ternos,
Como uma estrela.

Eu fui cortá-la;
Pôs-se a falar:
“Se eu for cortada,
Não vou murchar?”

Rente às raízes
Fundo cavei,
E ao meu jardim
A transplantei.

Em lugar calmo
Pus a flor linda;
Sempre há um renovo,
Floresce ainda.

ERLKÖNIG (1782)
Wer reitet so spät durch Nacht und Wind?
Es ist der Vater mit seinem Kind.
Er hat den Knaben wohl in dem Arm,
Er faßt ihn sicher, er hält ihn warm.
Mein Sohn, was birgst du so bang dein Gesicht?
Siehst Vater, du den Erlkönig nicht!
Den Erlenkönig mit Kron’ und Schweif?
Mein Sohn, es ist ein Nebelstreif.

Du liebes Kind, komm geh’ mit mir!
Gar schöne Spiele, spiel ich mit dir,
Manch bunte Blumen sind an dem Strand,
Meine Mutter hat manch gülden Gewand.

Mein Vater, mein Vater, und hörest du nicht,
Was Erlenkönig mir leise verspricht?
Sei ruhig, bleibe ruhig, mein Kind,
In dürren Blättern säuselt der Wind.

Willst feiner Knabe du mit mir geh’n?
Meine Töchter sollen dich warten schön,
Meine Töchter führen den nächtlichen Reihn
Und wiegen und tanzen und singen dich ein.

Mein Vater, mein Vater, und siehst du nicht dort
Erlkönigs Töchter am düsteren Ort?
Mein Sohn, mein Sohn, ich seh’es genau:
Es scheinen die alten Weiden so grau.

Ich lieb dich, mich reizt deine schöne Gestalt,
Und bist du nicht willig, so brauch ich Gewalt!
Mein Vater, mein Vater, jetzt faßt er mich an,
Erlkönig hat mir ein Leids getan.

Dem Vater grauset’s, er reitet geschwind,
Er hält in den Armen das ächzende Kind,
Erreicht den Hof mit Mühe und Not,
In seinen Armen das Kind war tot.

ÁLAMO-REI
Quem galopa em noturna tardança?
Eis o pai carregando a criança.
Preme-a aos braços com força de brida;
Firmemente, mantém-na aquecida.

– Por que, filho, esse rosto de espanto?
– Meu papai, de coroa e de manto,
Não vês o Álamo-Rei no caminho?
– É a mantilha de névoa, filhinho!
“Criancinha, comigo vem logo!
Muitos jogos contigo então jogo.
Há florinhas bonitas nos prados.
Minha mãe tem vestidos dourados.”

– Meu papai, meu papai, não ouvira
Tudo o que Álamo-Rei me suspira?
– Calma, filho, que em breve chegamos:
É o farfalho do vento nos ramos.

“Menininho, não viste quem trago?
Minhas filhas lhe vão dar afago;
Minhas filhas, com cantos e entono,
Vão dançar e embalar o teu sono. ”

– Meu papai, meu papai, viste bem
Que suas filhas vieram também?
– Mas, meu filho, isto são só chocalhos
Dos antigos salgueiros grisalhos.

“Eu adoro o teu rosto jovial.
Se não vires por bem, vens por mal! ”
– Meu papai, meu papai, vem chegando,
Está o Álamo-Rei me apertando…

Espantado, o pai galga adiante,
Abraçando o filhinho ofegante.
Mas em casa, com assaz desconforto,
Viu nos braços que o filho era morto.

NÄHE DES GELIEBTEN (1795)
Ich denke dein, wenn mir der Sonne Schimmer
Vom Meere strahlt;
Ich denke dein, wenn sich des Mondes Flimmer
In Quellen malt.

Ich sehe dich, wenn auf dem fernen Wege
Der Staub sich hebt;
In tiefer Nacht, wenn auf dem schmalen Stege
Der Wandrer bebt.

Ich höre dich, wenn dort mit dumpfem Rauschen
Die Welle steigt.
Im stillen Haine geh’ ich oft zu lauschen,
Wenn alles schweigt.

Ich bin bei dir; du seist auch noch so ferne,
Du bist mir nah!
Die Sonne sinkt, bald leuchten mir die Sterne.
O, wärst du da!

PERTO DO CORAÇÃO
Eu penso em ti, ao refulgir
o sol no mar;
Eu penso em ti, ao ver fluir
no rio o luar.

Na poenta senda do horizonte,
vejo teu trilho,
enquanto à noite, sob a ponte,
dorme o andarilho.

Ouço-te, quando a vaga vence o
penhasco rude;
quando na floresta o silêncio
é plenitude.

Eis-me contigo, e ora distante
tu não te evades.
Posto o sol, com o céu cintilante,
sinto saudades!

Retrato de Friederike Brion, por quem Goethe foi apaixonado | Reprodução

Em nota ao Opção Cultural, o tradutor Wagner Schadeck solicita ao leitor que, ante a tradução do poema “Crítico”, confira o poema “Sociedade” de Carlos Drummond de Andrade (de Alguma Poesia [1930]): “— A casa é um ninho de pulgas. / — Reparaste o bife queimado? /O piano ruim e a comida pouca.”

O tradutor ainda destaca que o termo “Cravo” (“Violeta”, no original alemão) é de gênero neutro.

“Heidenröslein” e “Das Veilchen”, musicados por diversos compositores, são poemas essenciais para o folclore alemão. Por isso, Schadeck confessou inspirar-se em nossa cantiga de roda “O cravo e a Rosa”, musicada por Villa-Lobos, e em nossa poesia popular. Segundo Pedro de Almeida Moura, a partir de 1770, o jovem Goethe passou a frequentar a aldeia de Sesenheim. Neste local, apaixonou-se por Friederike Brion, de quem nos resta apenas um retrato (veja imagem abaixo). Os dois viveram um breve romance idílico, interrompido pela moça. O poema “A Rosa” estaria relacionado ao fim do relacionamento.

Quanto ao poe­ma “Álamo-Rei”, Leony de Oliveira Ma­cha­do, em texto preparado para a edição das poesias de Goe­the, a sair pela editora An­ti­cítera, lembra que “uma das po­esias mais po­pu­lares de Go­ethe é aquela em que o poeta dá cur­so à lenda nór­­dica do “Erl­könig” (Er­len = a­mieiro e könig = rei), traduzido, co­­mu­mente, em por­tuguês, co­mo Rei dos El­fos ou Rei dos Sil­fos (os El­fos, da mitologia escandinava, são os gênios que simbolizam o ar, o fogo e a terra; os Silfos, das mi­tologias céltica e germânica, são, simplesmente, os gênios do ar). […] Erlkönig, na interpretação mais popular alemã, é uma figura fabulosa, espécie de rei das florestas pantanosas, confundindo-se, em seu aspecto físico, com a própria árvore – de poucas folhas, retorcidas, troncos e galhos nodosos – de que tira o nome. […] Erlkönig leva para o seu reino, para o seio da selva ou para a profundeza dos pântanos, os viajantes, incautos, os fracos, os medrosos e as crianças.”
Por fim, a opção de Schadeck de traduzir “Nähe des geliebten” por “Perto do Coração”, em vez de “Perto da Amada”– mais próximo ao universalismo goethiano – tem também a finalidade de homenagear Clarice Lispector.

Wagner Schadeck vive em Curitiba. É tradutor, ensaísta, editor e poeta. Colabora em diversos periódicos. Em 2015, organizou a reedição de “A peregrinação de Childe Harold”, de Lord Byron, pela Editora Anticítera.

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Adalberto De Queiroz

Altíssimo nível. Viva! Schadeck.

leila v.b. gouvea

Não conheço alemão, mas as traduções, fluidas e sonoras, parecem excelentes. Parabéns, Wagner Schadeck.

Flávia Cristina Vieira Lacerda

É sempre um enorme prazer e um grande aprendizado poder ler as suas traduções, Wagner Schadeck. Agradeço a essa facilidade de acesso a tão primorosos textos.

Lúcio Autran

Belíssimas traduções