À saudade da doceira Ana, da poetisa Cora, da vilaboense Coralina

“Não morre aquele que deixou na terra a melodia de seu cântico na música dos seus versos”

No dia 10 de abril, há exatos 30 anos, Cora, a mais ilustre goiana, se despedia da vida | Foto:  Iugo Koyama

No dia 10 de abril, há exatos 30 anos, Cora, a mais ilustre goiana, se despedia da vida | Foto: Iugo Koyama

Yago Rodrigues Alvim

Foi lá pelos 14 anos que quis ser Cora. Nascida sob o padroado de Santana, na antiga Vila Boa, ganhou logo o nome de Ana. Se nascia menina, nas terras daqueles tempos, era Ana. Era nos anos da década de 1910, quando pôs sob Cora a autoria de crônicas que escrevia para um semanário local. Na prosa biográfica de Dona Lena ou, formalmente, da professora Lena Castello Branco Ferreira de Freitas, o pseudônimo da poetisa, que abandonara os açúcares de tachos e folhas já num outono de 1985, quer dizer coração rubro submerso em águas de profundo mar.

Drummond escreveu no Jornal do Brasil, já em 1980, a crônica “Cora Coralina, de Goiás”. “Esse nome não inventei, existe mesmo, é uma mulher que vive em Goiás: Cora Coralina. (…) Gosto muito deste nome que me invoca, me bouleversa, me hipnotiza como no verso de Bandeira”, escreve o poeta mineiro. Nos títulos do nome, é ela mesma que se diz: “Mulher sertaneja, livre, turbulenta, cultivadamente rude. Inserida na gleba. Mulher terra. (…) Doceira fui e gosto de ter sido. Mulher operária”.

Sua labuta começou no ano de 1889 e era Ana Lins Peixoto dos Guimarães Bretas. Já nasceu com o pai “agonizando”, como registrou. Veio filha do segundo casamento de Jacintha com Franscisco de Paula Lins, cuja idade, 43 anos mais velho que Jacintha, tirou de Cora sua apresentação – não conheceu o pai. O médico Dr. Antônio Rolins da Silva lhe foi padrasto, abandando a vida quando a jovem menina começara a publicar suas crônicas.

E foi com 22 anos que ela abandonou a pe­na, ao menos escasseara os passeios pelo tinteiro. É que a labuta era doutros: dos três filhos que tivera, em Jabuticabal, com o bacharel Cantídio Tolentino Bretas. É a caçula, dos seis filhos que Cora deu à luz, Vivência Bretas que conta em “Cora coragem, Cora Poesia” o romance da mãe que a afastou 45 anos de sua terra Natal.

Ele a conhecera num sarau. O amor foi recíproco, nada moroso. Ela bem sabia que era casado e pai de filhos com outra mulher. Em 25 de novembro de 1911, fugiram a cavalo da Cidade de Goiás. Como Cora mesmo narra, num especial da TVE, a força da terra e das raízes que a chamavam sobrepôs a todos os afetos familiares que cativa no Estado de São Paulo.

Voltou à gleba, a velha casa da ponte sobre o Rio Vermelho, na antiga Rua dos Mer­cadores, voltou às “duras aroeiras lavradas a machado, com cheiro de floresta” da casinha de pau-a-pique, donde se despediu no dia 10 de abril de 1985 –– há exatos trinta anos.

Sinto que sou a abelha no seu artesanato.
Meus versos têm cheiro dos matos, dos bois e dos currais.
Eu vivo no terreiro dos sítios e das fazendas primitivas.
Amo a terra de um místico amor consagrado, num esponsal sublimado, procriador e fecundo.
(…)
Sou árvore, sou tronco, sou raiz, sou folha,
sou graveto, sou mato, sou paiol
e sou a velha da tulha de barro.

A Gleba me Transfigura, Cora Coralina

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