“Saio deste disco com um novo jeito de fazer música”

Álbum de estreia da goiana, “O mesmo mar que nega a terra cede à sua calma”, fala das relações humanas e revela, musicalmente, uma maior segurança da cantora

Bruna Mendez: “O mar é dentro da gente e esse lugar sobre o qual canto é aqui, minha cidade” | Foto: Divulgação

Bruna Mendez: “O mar é dentro da gente e esse lugar sobre o qual canto é aqui, minha cidade” | Foto: Vitor Garcia

“E o nosso amor foi a água quem fez”
Bruna Mendez

Yago Rodrigues Alvim

Foi no Teatro Goiânia Ouro que a escutei pela primeira vez. Não lembro bem se 2011 ou 2012. Mas, antes mesmo, ela já embalava os acordes nas seis cordas do violão e levava quem a ouvisse para um litoral, fosse onde estivesse. Bruna Mendez foi vagarosamente desaguando seus versos em canções, ainda que sua jornada já se entrelace à de grandes nomes, como Caetano Veloso –– para quem abriu o show pelo Festival Bananada, em 2015.

Como ela mesma já contou ao Opção Cultural, foi depois de grande que quis fazer música. O EP “Pra Ela” ganhou sua cidade, e fronteira afora, em 2014. Agora, ela lança seu álbum de estreia, o intitulado “O Mesmo Mar que Nega a Terra Cede à sua Calma”. Gravado no estúdio Rocklab de Pirenópolis, pelo selo Falante, o disco teve produção do músico Adriano Cintra, o ex-Cansei de Ser Sexy (CSS). Muito se aprende ao deliciar o disco, que marca um novo lugar musical para onde a artista remou, e que será lançado no próximo dia 12, no Teatro Sesc Centro, em Goiânia.

“Ah, eu não quero mais/nesse sol que queima sem dó/tudo que reluz não tem mais graça agora” são os primeiros versos do disco. Que lugar é este aonde quer ir? Que mar é esse?
Na verdade, o mar é dentro da gente e esse lugar sobre o qual canto é aqui; inclusive, é a partir dessa percepção que veio o nome do disco, o “ceder” e “negar” funciona como a representação deste movimento do mar que, de alguma forma, me move ou nos move. “Calor, Sol e Sal” é o que eu sinto por viver em Goiânia. Com aquele misto de amor e ódio mesmo, aquela vontade de querer ir para qualquer lugar, porque já não me cabe, a cidade já não me suporta (ou eu não suporto a cidade), e, ao mesmo tempo, não querer sair porque aqui é onde eu sinto a cidade e me reconheço. “Tudo que é muito aqui/Parece ser bem mais/O sol irrita a pele/Mas me interessa o seu calor e o suor que vem”, também canto.

O álbum conta da vida, de suas verdades breves. Como foi compor as canções? São autorais? Existe uma tristeza em viver?
O disco é sobre nosso próprio mo­vimento e a forma de lidar em re­la­ção com o outro e consigo. Com­pô-las fez parte de um novo processo de “feitura” do disco e que serviu como uma nova forma também de me reconhecer e me afirmar. Existe uma doçura no EP, mas ele é um tanto rancoroso e cínico, às vezes; o disco, por outro lado, já mostra alguma maturidade nas relações. Às vezes, existe uma tristeza em existir nas relações, mas viver até que é divertido. Talvez, o disco seja sobre isso também.

O que daria para dizer de cada uma das faixas? Há alguma história que envolva o álbum (de criação, processo de produção)?
O disco começa com “Calor, Sol e Sal” que, de forma velada, consegue dizer das tristezas e (poucas) alegrias de viver em Goiânia e do sentimento que permeia esta vivência. “Sorte” é meio que como o processo de respiração: inspirar e expirar — só que um ar limpo, fluido. “Tô Aqui” já mostra alguma dificuldade em existir nas relações, mas também uma aceitação por perceber que, em qualquer relação, a gente é travessia. “Vento Bom” e “Sorte” talvez tenha algo em co­mum, que é um estado meio pleno, um mar calmo, com um sentimento bom para descansar. A partir daí, com “Todo Choro é Canto”, “Brisa”, “Bran­quinha”, “Agra­de­cer”, “Esses Seus Olhos Têm Força de Terra”, “Neguinha” e “Meu Bem”, o disco soa prático e di­reto e, talvez por isso mes­mo, até meio áspero. Nele, surge ainda alguma força e maturidade desenvolvida através da percepção de si, do outro e do meio onde se vive e se constrói relações.

Tem alguma faixa favorita? (riso)
Por incrível que pareça, eu gosto de muita coisa do disco, mas as preferidas são “Calor Sol e Sal”, “Vento Bom”, “Todo Choro é Canto” e “Brisa”.

Musicalmente, como foi criar o álbum? Você expandiu do que já bebericava no EP?
Foi tudo tão rápido que eu ainda não senti o disco direito. Não senti tanto o processo de produção, pois nós pré-produzimos e gravamos em três semanas e foi tudo muito tranquilo e fluido; e o melhor: sem sofrimentos. (risos) Mas, basicamente, o meu exercício nesse disco era esquecer os meus processos anteriores, esquecer o que eu fiz no EP e começar realmente do zero.

Você trabalha com Adriano Cintra. Como aconteceu de ele produzir o álbum e como foi essa troca?
Bom, aconteceu quando ouvi o primeiro álbum solo dele, o “Animal”, que inclusive é um dos discos que mais ouço até hoje; é divertido, cheio de synths e “do jeito bem Adriano Cintra de fazer”. O disco dele foi lançado em 2014, eu logo comecei a ouvi-lo e, desde então, tinha isso (dele produzir o disco) na cabeça, mas ainda não tinha como viabilizar o projeto. Mas, quando saiu o resultado da Lei de Incentivo Municipal em 2015, pensei que poderia rolar.

Eu pedi, então, para o Fabrício Nobre fazer o intermédio entre ele e eu — lembro que estávamos sentados na Ambiente Skate Shop, conversando e, enquanto isso, ele mandou um inbox [mensagem via Facebook] para o Adriano, que respondeu imediatamente que topava. Daí em diante, até o dia da gravação, começamos a trocar e-mails e mensagens sobre como seria a produção, as músicas e para qual caminho iríamos.

Quando falava para algumas pessoas que era o Adriano que iria produzir, achavam que o disco se­ria na onda dele, que pareceria CSS; mas, a minha escolha pelo Adriano é que sabia que eu sairia desse disco com um outro jeito de “fazer música”.

A produção foi muito tranquila, o Adriano é muito sensível e tranquilo na posição de produtor e me passava segurança — afinal, eu achava que três semanas não daria tempo para pré-produzir e gravar o disco.

O EP veio em 2014 e, antes, você já cantava em teatros da cidade. Bem me lembro da primeira entrevista ao Opção Cultural, quando disse que a vontade de cantar veio do nada, da curiosidade de compor e cantar, lá em 2009. Como foi trilhar esse caminho? E qual a expectativa daqui para frente?
Quando fiz o EP, foi mais por medo de fazer um disco. Acho que o meu processo ainda estava um tanto imaturo para um disco e eu poderia ter vergonha disso um dia. Eu continuo achando o meu processo um tanto imaturo, mas hoje, mesmo com essa imaturidade, eu consigo ter alguma segurança; então, esse caminho do EP até o disco tem mais a ver com segurança. Acho “expectativa” um lance meio forte e trabalhar com probabilidade de ocorrência é ansiedade na certa. (risos) Prefiro ir fazendo e ver as coisas acontecendo.

Quais são suas influências no álbum, e em suas canções em geral? Se pudesse convidar qualquer músico para o seu sofá, quais seriam?
Quando comecei a trocar ideia com Adriano sobre o disco, decidimos que faríamos sem uma influência determinada, porque, caso contrário, essa influência acabaria virando cópia em algum momento, tanto que não ouvi música alguma durante a pré-produção do disco. Tentamos buscar as referências/sentidos/sentimentos que as próprias melodias vocais ou as harmonias das músicas traziam e, antes disso, nas composições, as minhas referências para esse disco não tinha muito a ver com música, tinha a ver com percepção e sentido. Então, acho que as influências foram o próprio Adriano, que é incrível, e também Diogo Strausz, um músico e produtor do Rio de Janeiro.

Qual o feedback do álbum? Algo lhe marcou?
Tem sido tudo bem legal e surpreendente. “Calor, Sol e Sal” já foi música do dia no Spotify [streaming de músicas] e agora é a 24º, dentre as 50 músicas virais do Brasil (também no Spotify) e é muito louco ler as mensagens das pessoas e perceber que o que você faz também faz sentido para outra pessoa além de você. (risos)Algo que me marcou foi ver que existem pessoas que ainda pagam por música, mesmo o disco estando disponível para download, gratuitamente.

Como tem sido o trabalho com o músico também goiano Kastelijns? Vocês já dividiram os palcos, pelo Festival Bananada 2016. Tem algum projeto por vir?
O Kastelijns tem um ar que eu já não tenho, mas que tive uns cinco anos atrás. Tem a ver mesmo com o ânimo de fazer as coisas por nós mesmos e, de alguma forma, essa aproximação me faz retomar isso aos poucos e me dá alguma força. A gente conversa bastante sobre assuntos diversos, ensaiamos juntos e ele me manda várias bandas que eu ainda não conheço ou que antes passava batido. Isso tem aguçado minha percepção sobre esse lance de reinventar meus processos. Não temos nenhum projeto por vir. (risos) Mas pode ser que no meio do caminho surja alguma coisa.

E a agenda?
Por enquanto, só o show de lançamento que será dia 12 de agosto, no Teatro Sesc Centro, em Goiânia.

Escute o álbum de estreia da cantora, lançado recentemente.

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