Rostos tristes em multidões sorridentes

Cidadãos virtuais do século 21 são autocentrados demais para desenvolverem felicidade mediante contágio, o que se vê em êxtase festivo é jogo social

Na obra de Marcos Padro e José Padilha, “Paraísos Artificiais” (2012), Nathalia Dill e Lívia de Bueno interpretam três jovens que experienciam uma festa que muda completamente suas vidas | Foto: Divulgação

Na obra de Marcos Padro e José Padilha, “Paraísos Artificiais” (2012), Nathalia Dill e Lívia de Bueno interpretam três jovens que experienciam uma festa que muda completamente suas vidas | Foto: Divulgação

Ademir Luiz
Especial para o Jornal Opção

Podem me condenar, mas gosto de descobrir rostos tristes em meio a multidões em êxtase festivo. Ao vivo é sempre melhor. Pode ser em plateias de eventos culturais, sociais, religiosos, políticos, esportivos ou acadêmicos, em festas públicas ou encontros de tribos urbanas. Mas também vale em fotos, em vídeos, murais mexicanos, auditórios de programas de tevê ou em flashes de cobertura do carnaval da Bahia. É inevitável, sempre há rostos tristes, eles estão por toda parte, porque esse rosto está em nós.

Multidões são eventos físicos e geográficos, não fatos psicológicos. Uma coletividade sem rosto, sem nome, reunida aqui e agora, na impossibilidade de dois indivíduos ocuparem o mesmo lugar no espaço, gera expansão da ocupação territorial, mas cada um segue sentindo por si só. O espírito de corpo não é mais o mesmo na era da individualidade. Se é que já existiu, desconfio da eficácia atual da milenar sensação de segurança gerada pelo rebanho. Os cidadãos virtuais do século 21 são autocentrados demais para desenvolverem felicidade mediante contágio.

Já estive na condição de espião em micaretas, shows sertanejos, boates, carnaval em cidadezinhas barrocas, carnaval fora de época, festas juninas, missas e missas show. Minha experiência mostrou que a barulhenta alegria dos chicleteiros, baladeiros, carolas pop, meninos boy & meninas vacas, ou coisas do gênero, não é autentica, ou pelo menos não é constante.

O conceito de rave, por exemplo, é filosoficamente inconcebível. É impossível para um ser humano normal, ou anormal, manter-se feliz e saltitante por 24, 48, 72 horas seguidas. Estive lá e não acredito que possa haver sensação de êxtase festivo real estando ensurdecido, esmagado, faminto, cheirando mal e dopado pelo ambiente. O que vi foi o entusiasmo de atores pornôs veteranos. Pulinhos e tédio, tédio e pulinhos.

Façamos um exercício. Observemos uma multidão festiva. Vamos mapear os rostos. Encontrou o rosto triste? Olhe com atenção. Veja esse e também aquele rosto, escolha um e isole-o da massa. Veja o meio sorriso forçado, tenso no canto dos lábios. Desça na altura do chão, olhe os pezinhos titubeantes, dando passinhos para frente e para trás, amassando barro, sem sair do lugar. Suba novamente, note os bracinhos constrangidos para cima, como que por imitação, polegar opositor em sua capacidade mínima, segurando latinhas de cervejas.

Como se vê, toda aquela aparente euforia é falsa, é simulada. Algumas vezes, apenas auto-hipnose. Estão fingindo para justificar o tempo, dinheiro e esforços empregados em ir até o local festivo. Ou simplesmente para se enturmar, pois alegria é o que se espera nesses ambientes, faz parte do jogo social. Mas o rosto triste presente em toda multidão é o chiste no sistema. A falha que denuncia.

Um rosto fechado, com rugas acima dos olhos e boca trincada, cercado de braços levantados balançantes, sorrisos amarelos ou gargalhadas estridentes, grita que o mundo real ainda existe, apesar de vivermos afogados em simulacros. Não é garantia de consciência, mas, certamente, é sinal de saudável desconforto. É um aviso da natureza. Um freio para não darmos o passo seguinte e nos lançarmos ao abismo da inconsciência sem volta. l

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