Roseana Murray: de como buscar poesia no meio do caos e se deparar com jardins

“Jardins”, de Roseana Murray, consiste num poema completo, com uma proposta inovadora de reunir, numa só obra, uma obra de arte completa

Soninha dos Santos

Especial para o Jornal Opção

No livro “Seis Propostas Para o Próximo Milênio” (Companhia das Letras,144 páginas, tradução de Ivo Barroso), o escritor italiano Italo Calvino (1923-1985) identifica seis qualidades ou virtudes capazes de salvaguardar pessoas, artistas ou não, que visam um mundo mais ético, justo e, porque não dizer também, poético. Para ele, leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade e consistência podem constituir preciosidades únicas a serem levadas em consideração em meio ao ruidoso mundo contemporâneo para termos o silêncio e a paz; um mundo validado por crises existenciais e de valores; um mundo caótico e ensurdecedor; um mundo que aponta a própria linguagem como referência desse caos, que parece infinito. De acordo com sua teoria, talvez seja a literatura capaz de criar anticorpos para deter o avanço da peste da linguagem e da crise de valores e ética enfrentada pela humanidade hoje em dia.

Cabe então, dentro dessa lógica de pensamento, enaltecer a fantasia, o sonho e a imaginação como verdadeiros “lugares onde chove” e, porque não dizer, chove poesia, se olhamos para a chuva visando seus benefícios para a boa colheita. Num tempo que viu nascer o livro como objeto de arte, mas que também o vê perecer em face do avanço tecnológico e dos meios de comunicação de massa, apresentar poesia às crianças e jovens pode estimular beneficamente suas mentes e suas atitudes. Sabemos que a poesia já nasce com a criança e isso é observado desde os primeiros sons emitidos oralmente por ela. Criança diz cada uma, não é verdade? Cabe a nós, seus ouvintes mais próximos, anotar e salvar essa poesia já latente, ávida por ocupar espaços; prestar atenção aos seus dizeres e compreender o poema dito em suas frases e em seus gestos pode ser nossa tarefa mais prazerosa. Basta parar, ver e ouvir.

Passemos então à apresentação do livro “Jardins”, de Roseana Murray, publicado pela Editora Manati. A obra, por si só, já consiste num poema completo, com uma proposta inovadora de reunir, numa só obra, uma obra de arte completa. Com uma diagramação cuidadosa e original, a primeira e a última capa são amarradas por uma fita de cetim vermelha, sendo a primeira capa perfurada, dando pistas do que será encontrado no interior do livro quando aberto; outro quesito incrível consiste na riqueza de detalhes da ilustração de Roger Mello, poeta das cores e dos traços.

Roseana Murray: uma das mais importantes escritores brasileiras | Foto: Reprodução

A parceria perfeita de Roseana/Roger pode ser observada tanto no traçado do desenho quanto no da escrita e o resultado final é o esperado — uma obra de arte completa: leve, rápida, exata, visível, múltipla e consistente com todos os parâmetros da poesia e da arte moderna. Até o leitor com pouca ou nenhuma experiência de leitura será capaz de traduzir poesia pura, só de abrir e folhear o livro. O convite à leitura e à contemplação se faz no desembrulhar do livro, desfeito o laço que o prende. Na página seguinte um sapinho de jardim salta em meio a uma profusão de vermelho, tão grandioso que ofusca até os mais experientes e, ali, não há texto escrito, apenas o texto visto que, seguido, na página seguinte, de folhas de variados feitios e cores remete aos mais encantados jardins da nossa imaginação, um jardim já visitado por todas as crianças em seus sonhos. Há de se ter cuidado também, ao passar para as páginas seguintes, pois o ruído do mundo lá fora pode atrapalhar a paz e o silêncio que os versos e traços serão capazes de mostrar; labirintos, pássaros e meninos contarão histórias para fazer dormir até o mais elétrico dos leitores, e, sem mais nem menos, começam a aparecer pequenos heróis de jardins, insetos, principalmente, mostrando sem meias palavras, que as “flores pintam norte e sul em todos os timbres e tons de azul”. As imagens poéticas convidam então a entrarmos nesse mundo onde chove e, chovendo nele, as flores brotam como brotam a esperança de dias melhores, dias onde a poesia caiba e possa suscitar em nós, leitores grandes ou pequenos, o desejo por um mundo mais bonito e mais igual, assim como deve ser o mundo desejado pelas crianças. Leia Jardins para elas e espere, com tranquilidade e silêncio. Quem sabe, no futuro a resposta contra o caos e o ruído, poderá ser de poesia leve, exata, rápida, múltipla, visível e consistente. Bem assim, como deveria ser a resposta dos adultos às crianças.

Soninha dos Santos, professora de literatura infantil e juvenil, é colaboradora do Jornal Opção.

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