Romanceio sobre Diogo Cão Navegador, achamento e des-invenção do Brasil  

O livro contém uma prosa muito bem escrita, em estilo rico de metáforas (Carlos Magno é também poeta e cronista) agradável de se ler

Brasigóis Felício

Especial para o Jornal Opção

Insone, debatendo-me na cama, levanto-me, em meio ao silêncio do meu bairro (o lendário Jardim América). Não me resta outro recurso senão ligar a televisão, zapeando o controle remoto, na esperança desesperançada de encontrar algum filme ou diversão que me distraia das dores do mundo, estampadas em diuturno horror, pela banda larga da infernet.

Na sessão Corujão, dou de cara com a face rechonchuda do ator Shelton Melo, entrevistando o lendário navegador (que chamam de explorador) português Caramuru, no filme “Caramuru, a Invenção do Brasil”. O figurino é rococó, mais que barroco, excessivo e estardalhante, assim como a linguagem rebuscada dos diálogos envolvendo os bons atores e atrizes do elenco, dentre estas Débora Bloch.

Cena do filme “Caramuru, a Invenção do Brasil” | Foto: Reprodução

A intenção, bem conseguida, como em quase toda experiência da literatura de ficção e do cinema brasileiro, em filmes com motivos da história portuguesa e brasileira, é a de ridicularizar, absurdizar, maldizer, caricaturar, memorizar a condição mental e a situação física dos personagens, de modo a mostrar como risíveis caricaturas humanas, personagens grandiosos da história lusitana, como Dom João VI, Dom Pedro I e Pedro II e José Bonifácio, sem falar na galeria de notáveis figuras femininas, lusitanas ou brasileiras, que foram, como inscrito nos implacáveis e memoráveis anais da História e da historiografia, os heroicos portugueses inventores do Brasil.

Claro, desta película, que foi mais uma oportunidade perdida para retratar com justiça quem foram, de verdade, para além da piada, do chiste e do humor auto-depreciativo, típico de “inteliquituais” acometidos de síndrome de cachorro vira-latas, incapazes de se ver sem auto-desprezo, e sem o respeito à pátria e às lutas e sacrifícios das gerações antigas, ou primeiras, constitui mais um exemplo de uso indevido de dinheiro público — já que todo cinema brasileiro até aqui existente, exceto o que foi realizado pelo criador do personagem Mazaroppi, foi e é feito até graças ao ervanário do povo, via Embrafilme, e seus braços tentaculares, que produziram incontável pletora de documentários e curta-metragens que ninguém vê, uma vez que só são exibidos nas emissoras de televisão, quando todas as pessoas (a não ser os vigias e espias e sabotadores) estão dormindo.

Não é, infelizmente, caso único, ou raridade. A atriz e diretora Carla Camurati dirigiu um filme caricatural e grotesco, sobre a vinda da família real portuguesa para o Brasil. Membros da família real, a partir de Dom João VI, e da sua mulher, tratados, ele como um beócio guloso e inapetente ao banho, ela como louca varrida — numa escolha ficcional marcada pelo deboche e desrespeito, em relação a quem foi de fato fundador de quase tudo o que começou a constituir a grandeza do Brasil — a partir da Biblioteca Nacional, do Banco do Brasil (que financiou o filme de Carla Camurati) e tantas outras instituições que foram alicerces de um país próspero e unido, que foi durante o período monárquico.

Cena do filme “Carlota Joaquina” | Foto: Reprodução

Pena que o Brasil só se veja e se retrate de modo a memorizar-se como povo, enxergando apenas seus traços caricaturais, seus defeitos, reais ou inventados pela historiografia capenga, de pé quebrado, padecente de complexo de inferioridade, lastreada em distorção dos fatos… que vai sendo lastro e repositório onde bebem os tais cineastas tupiniquins, revolucionários de boteco, embebidos e conservados em chope e uísque dos bares elegantes de Ipanema e Leblon, com sua visão esquerdizante da realidade brasileira e portuguesa, sua incapacidade em criar ou mirar-se em personagens positivos.

É como se a nação brasileira só tivesse ou esteja sendo feita com base em ações de prostitutas, michês, rufiões, traficantes de drogas, assaltantes de bancos, cheiradores de pó, queimadores de cannabis, a erva proibida mais popular da história humana — sem falar nos políticos trambiqueiros, corruptos até as canelas da alma, com as pletoras de sedutores baratos, escroques e muambeiros de toda espécie, malandros de navalha e de gravata, falsários, punguistas, aplicadores de golpes…

… segue, longa e interminável, a lista dos heróis de nossa ficção literária, e da nossa filmografia de sátira e crítica feroz ao povo brasileiro – exemplares lastimáveis e contumazes de autodepreciação e autodesprezo, que constituem um case deplorável e, a bem dizer, retumbante em sua miséria mental, para não dizer que é e tem sido, por todos os títulos, muito além de medíocre e execrável.

Vá lá que nem tudo é visão avacalhada e depreciativa do quanto fomos em nossas raízes histórias, do quanto temos sido “bravo povo brasileiro”, desde os recuados tempos primeiros, sendo, sem dúvida, meio que ridículos mesmo, sabotadores da grandeza que poderia ter sido, e que não foi… como nos episódios pouco falados e mal conhecidos, que antecedem a Proclamação da República, que, para Lima Barreto, e para os poucos historiadores sérios que possuímos, não passou de uma quartelada. Temos historiadores e comentadores historiográficos sérios, que não atuam na clave da autossabotagem, ancorados em nosso ancestral complexo de inferioridade — ou de cachorro vira-latas, como ironicamente falou o teatrólogo e cronista Nelson Rodrigues.

O mais que se vê, para além do esforço historiográfico sério e bem pesquisado, segue tramas ficcionais como esta, esta urdida, confabulada, cochichada e mal conchavada por lutas e disputas entre maçons conspiradores contra a Coroa (mesmo sendo o próprio Imperador um conhecido maçom) — atos de coxias e cavilações sórdidas, envolvendo militares decadentes e sedentos de poder, muitos destes colocados na cena da História por acaso, por estarem de passagem por algum posto de mando, como foi o caso do marechal Deodoro da Fonseca, que em estado febril, acamado, foi retirado de seus pijamas e colocado sobre um pangaré mal-ajambrado, para em quartelada bem típica das conhecidas cenas de golpismo, muito comuns nestes “tristes trópicos” destas bandas do sul, proclamar a Independência do Brasil, rompendo os últimos laços que nos ligavam, como país, aos nossos fundadores…

… e, a bem dizer, aos nossos inventores, uma vez sabendo que não existiria Brasil, como nação e povo, tais como hoje existem, não fosse o gesto audaz de Dom João VI, ao transferir para a recém-descoberta Terra de Santa Cruz, a terra distante e desconhecida… que, passando a ser sede do Império Português, ganhou saberes preciosos, toda a Biblioteca Real, toda a ciência até então conhecida pela lendária nação lusitana…

De fato, só depois de chegar à então colônia a Família Real Portuguesa,  sucessão quase milagrosa de fatos e acontecimentos, protagonizados por figuras expoentes, intelectuais portugueses e brasileiros, dava-se início ao que se pode chamar de “invenção” ou criação do Brasil, como país, como povo misturado, ou mestiço, uma fina mistura que é sem par e sem semelhança, em toda a História humana no planeta que chamam de terra, mesmo sendo este composto e posto muito mais como água…. de oceano, rios e lagos.

Na ficção romanesca brasileira e goiana inspiradas nos autos da História pouco há que se possa chamar de exemplar; mas algo foi feito, a maioria sendo pautado pelo viés da interpretação e visão de mundo de fundo marxista, ou esquerdizante.

“Os Sertões”, de Euclides da Cunha, uma obra monumental, em sua linguagem e formato, na verdade é uma sucessão bem costurada de relatos jornalísticos enviados ao jornal “O Estado de S. Paulo”, pelo correspondente militar-escritor. Não é romance, nem obra historiográfico. Seria talvez uma grande e literariamente muito bem realizada reportagem. Talvez a maior e melhor que alguém fez em solo brasileiro.

Em Goiás temos historiadores sérios, com obras sólidas e respeitáveis — a exemplo de Lena Castelo Branco, Nasr Chaul, Paulo Bertran, Maria Augusta Santana, e do também professor Itami Campos. Bernardo Élis aventurou-se a produzir um romance com base em estudos da história colonial brasileira, o polêmico “Chegou o Governador” — que lhe trouxe a hostilidade de alguns, de seu clã familiar.

Edival Lourenço também marcou um gol de placa, nesta área em que poucos se aventuram. Pesquisou na Torre do Tombo e nos arquivos nacionais, sobre nossa história colonial, e escreveu o romance “Naqueles Morros, depois da Chuva”. Recebeu o Prêmio Jabuti, anteriormente concedido a uma obra da lavra de Bernardo Élis.

Carlos Magno dos trópicos

Carlos Magno de Melo e seu romance | Foto: Facebook

Agora vemos outro escritor goiano incursionando neste terreno difícil — escrevendo sobre o lendário e pouco conhecido “Guaibimpará Caramuru”, título do romance de excelente fatura literária, do escritor piracanjubense Carlos Magno Melo, publicado, em 2019, pela Thesaurus Editora. Contou-me o autor que pesquisava, há tempos, sobre este personagem forte da história das navegações lusitanas, atraído pela aura de sua personalidade, bem como pela fama e infâmia que o perpassam, a partir de relatos, na maioria fantasiosos, de historiadores e cronistas de viagem.

Tendo recebido em sua casa de praia, no sul da Bahia, o seu amigo e editor Victor Alegria, conversando com ele sobre o seu interesse pelo Caramuru, recebeu deste um desafio: teria um prazo não muito longo para entregar-lhe a pesquisa em forma de romance. Foi um choque para o autor, que não se via capaz de realizar tal proeza romanesca, a partir do material que possuía. Porém, não sabendo que seria difícil (ou mesmo sabendo) foi lá, na Torre do Tombo, em Lisboa, pesquisou sobre navegação e navegadores, inteirou-se de documentos, do vocabulário do ofício de navegar, e fez.

O resultado é um romance muito bem escrito, em estilo rico de metáforas (o autor é também poeta e cronista) agradável de se ler. Impossível começar a leitura e não querer continuar. Sendo esta, afinal, a virtude ou qualidade de uma boa obra de ficção, lastreada em fatos e nos autos da História, nascida da simples imaginação. O romance de Carlos Magno Mello está concorrendo ao Prêmio Jabuti. Se for o vencedor, o que não é improvável — desconheço obra de ficção melhor do que esta, lançada em 2019, a não ser que este comentador esteja desinformado. Se for o caso, apontem-me onde, e como.

Vejam um exemplo do quanto é redonda e melódica a prosódia frásica do autor, neste romance brasileiro sobre Caramuru: “No oitavo dia, o Perfeito seguiu pelo caminho dos mortos e entregou a alma aos braços descarnados da morte que saiu com ele com ele no coche negro dos cavalos fogos”. Toda essa beleza de frase destituída de vírgulas, que se espera estivessem sincopando os movimentos frasais, bem ao estilo de José Saramago, que o autor conheceu, e no café da manhã com ele conversou, em um hotel, em Brasília, e de quem foi e é grande admirador.

Seria de bom alvitre dar ao leitorado um antegosto de belas frases pontuando toda a a poética narrativa das peripécias vividas pelo Caramuru, o Diogo Cão Navegador, de quem magnificamente falou Fernando Pessoa, em seu livro “Mensagem”. Mas seria alongar demasiadamente este texto, escrito de um jato, na madrugada, logo a seguir das cenas em que um rechonchudo Shelton de Melo interpreta o Caramuru — que em verdade era quase pele e osso, sustentados por uma inteligência prodigiosa, muito bem descrita e comentada pelo autor deste romance, cuja leitura recomendo com entusiasmo.

Brasigóis Felício é poeta, escritor e jornalista — membro da Academia Goiana de Letras e colaborador do Jornal Opção.

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