Romance mistura Tolstói, Larsson, Nietzsche, Sartre, Divina comédia, Shakespeare, erotismo e Bob Esponja

No livro “Que fim levou Juliana Klein?”, o paranaense Marcos Peres tripudia com os gêneros, a fim de construir um enredo de suspense contagiante e ótimos diálogos 

Sérgio Tavares
Especial para o Jornal Opção

Ganhador do Prêmio Sesc de Literatura com seu livro de estreia “O evangelho segundo Hitler”, o paranaense Marcos Peres tece uma boa trama policial com crimes e investigações em um campus universitário | Sandra Gonçalves

Ganhador do Prêmio Sesc de Literatura com seu livro de estreia “O evangelho segundo Hitler”, o paranaense Marcos Peres tece uma boa trama policial com crimes e investigações em um campus universitário | Sandra Gonçalves

Pode parecer, à primeira vista, um tremendo disparate buscar qualquer conexão entre “Guer­ra e paz”, do russo Liev Tolstói, e “Os homens que não amavam as mulheres”, do sueco Stieg Larsson. Todavia, tanto no maior épico de todos os tempos, publicado nos anos 1800, quanto no thriller policial que inaugura a aclamada série Millennium, há um elemento em comum: o conflito entre dinastias.

Tolstói e Larsson selam destinos de personagens, a partir de suas cepas, frigindo ódios, fraquezas, amores e assassinatos entre gerações, de modo a recriar a História sob a pele de uma história doméstica e autorretratista, porém tão intensa quanto. Vida e morte decorrem da ventura de sobrenomes em ambos os livros; obviamente, respeitando suas ambientações e relevâncias literárias. Não se pode ombrear uma obra-prima secular, que remonta um período de batalhas que reconfigurou o mundo, com uma trama contemporânea de investigação, mistério e crime.

Ou será que pode?

O paranaense Marcos Peres entende que sim. Em seu livro de estreia, “O evangelho segundo Hitler”, ganhador do Prêmio Sesc de Literatura, um vórtex conspiratório reformula o que se sabe do germe do nazismo, liando-o ao escritor argentino Jorge Luis Borges. Agora, em “Que fim levou Juliana Klein?”, Peres mistura Tolstói, Larsson, referências religiosas e filosóficas, Nietzsche, Sartre, “A divina comédia”, rivalidade entre clãs, Sha­kespeare, uma dose de erotismo e Bob Esponja. O produto dessa colagem é uma literatura pop, no melhor dos sentidos, que tripudia com os gêneros, a fim de construir um enredo de suspense contagiante e ótimos diálogos, no qual o “porquê” tem mais importância que o “quem”.

Tal qual uma boa narrativa de mistério, a condução fica a cargo de um investigador. Irineu de Freitas, delegado maringaense que “conserva um charme de homem experiente”, é convocado a Curitiba, com o propósito de resolver uma sucessão de crimes que está na genealogia de duas famílias arquirrivais: os Koch e os Klein. A inimizade data a Alemanha ancestral, a Frankfurt de onde derivam conflitos de naturezas religiosa, imobiliária e, sobretudo, filosófica, manchando de sangue a história das linhagens e sua herética fusão, num caso de resultado trágico a la Mon­téquios e Capuletos.

As gerações presentes dominam os campi universitários curitibanos: “Os kleinistas da UFPR e os kochianistas da PUC”. É neste ambiente de ideias que ocorre o primeiro assassinato, no ano de 2005: a filósofa Tereza Koch é morta a tiros pelo professor Salvador Scaciotto, casado com a também filósofa Juliana Klein. Durante os trâmites do inquérito, Irineu se estima pela pequena Gabriela Klein, a qual passa a presentear com objetos com motivos do Bob Esponja. No entanto, uma relação mais íntima com outro membro da família põe sob suspeita o curso de sua investigação.

Avançamos, então, para 2008, quando acontece o desaparecimento de Juliana Klein. Gabriela vê um homem em sua casa, cuja aparência lembra Franz Koch, marido de Tereza Koch. O conceituado professor, um sujeito intragável que persegue em suas alunas interesses além dos acadêmicos, vale-se de três delas como álibis para se livrar da acusação. Entretanto, em 2011, quando Mirna Klein, tia e guardiã de Gabriela, é assassinada, Franz Koch volta ao radar de Irineu, agora afastado do caso, decadente e odiado pela menina a quem ainda guarda apreço. “O que falar a Gabriela?”, tortura-se.

Peres assenta a complexa tessitura de sua trama nesses três planos temporais, alternando-os em capítulos que se conectam por meios de frases ou de elementos de cena. Apesar de densa, a colocação dos fatos (que reconstrói em detalhes a origem das dinastias) não atrapalha o ritmo ágil, fundamental para o interesse do leitor pelo desvendar do mistério, facilitado sobretudo pelos diálogos caprichados e, tantas vezes, divertidos. A piada sobre vampiros, fazendo troça com o mais famoso dos curitibanos, é ótima. Aliás, as reproduções de cenários (e espírito) locais é também um dos pontos altos do livro.

“Todos os caminhos levam a Curitiba, impreterivelmente. (…) Curitiba é um rio, nesta Curitiba viajo, viajo e retorno para um lugar conhecido, para o lugar que me faz ser o que sou, o que, de fato, eu sou”, reflete o delegado. “Na cidade de haicais arlequinais, de eternos filhos e de vampiros tímidos, ninguém interviria a seu favor”, mais à frente ele próprio conclui.

Regressar, fincar a existência num movimento contínuo de aposição entre passado e presente, tem a função de servomotor para a estrutura, bem como para a motivação das intrigas, das traições, dos (auto)enganos, da reviravolta, do ato derradeiro. “A gaia ciência”, obra de Nietzsche, marca a origem da rivalidade entre as famílias e cruza gerações, com o mesmo efeito retumbante e funesto, provocando a mesma crença cega no famoso aforismo do eterno retorno, do tempo circular, de que “tudo o que foi, voltará a ser”, de que os filhos serão os pais dos pais.

Peres consegue construir uma boa trama policial, a partir de abstrações filosóficas. E, ainda que esbarre num excesso de repetições, não sabota o prazer da leitura. No ano passado, o escritor B. Kucinski lançou “Alice –– Não mais que de repente”, em que também situa crimes e investigações no campus universitário, envolvendo o corpo docente. Será que, com “Que fim levou Juliana Klein?”, temos uma nova tendência? Tomara.

Sérgio Tavares é escritor e crítico literário.

Leia trechos do livro “Que fim levou Juliana Klein”, do escritor paranaense Marcos Peres

Capa Que Fim Levou Juliana Klein AG V3.inddSinto em meu sangue. Vejo os fantasmas do passado e sei que o futuro tende a repetir –– não é preciso ser um Klein ou um Koch para saber isso. Estudei Nietzsche e aprendi duas coisas. A primeira é que o livre-arbítrio é uma falácia, um argumento covarde dos que não conseguem perceber que o mundo, para o bem e para o mal, está escrito no passado. Nietzsche escreveu em uma parábola: “Esta conversa, os detalhes desta conversa, o que somos, o que fazemos, tudo já foi feito.” A história é finita e cíclica. O fim gera um novo começo. E se o passado inevitavelmente se repete no futuro, devemos compreender, portanto, que o livre-arbítrio é um argumento não dos otimistas, mas dos hipócritas e dos estúpidos, que não conseguem ler o mundo à sua volta. Assim como na literatura: Montecchios e Capu­letos, Klein e Koch, quantos não existiram, quantos ainda não existirão? Quantas vezes um delegado do interior não con­versou com a filha de um estran­geiro, em busca de solucionar um caso? Somos arquétipos intem­porais, Irineu. O que somos, já o foram muitas vezes, e o serão outras tantas, infinitas…

(…)

A conversa era remetida com fa­cilidade ao novo preso da Penitenciária Central do Estado, em Piraquara, Salvador Scaciotto. E ainda que ele constantemente fosse lembrado, Irineu fazia forças para não entrar logo no assunto. Ladino, via o chá fumegante e o sorriso de sua interlocutora, mas sabia que aquela finíssima camada de confiança poderia ruir para nunca mais ser refeita. Foi assim que decidiu abordar o assunto “dinas­tia”, pedindo à mulher que contasse sobre o sangue que pulsava em suas veias. Então, enquanto Juliana falava palavras como “Klein”, “Frankfurt” e “dinastia”, seus olhos pareciam ganhar uma estranha coloração –– um argumento que soava clichê, mas era verdadeiro. Não era o verde de seus olhos que ganhava novo matiz, portanto: era a maneira como a moça reagia quando indagada sobre Arkadius, Gunda e Derek, o modo como, inconscientemente mais receptiva e atenta, erguia os ouvidos, arqueava as sobrancelhas, franzia o vermelho lábio e acendia os olhos, que, ao se abrirem, permitiam que mais luz incidisse sobre eles, alterando, afinal, sua coloração. Mudava a luminosidade do olhar, abaixava os longos cílios e logo aquela metralha­dora de inquisição cessava fogo, en­quanto sua dona fingia mexer o chá. Recuava, a seu modo. Falar dos ancestrais parecia assunto pesaroso, invocava fantasmas de Frankfurt am Main.
“Não me disse de sua família”, re­tomou o assunto Irineu, ao ser pe­go em flagrante contemplando sua beleza.

“Claro que disse”, retrucou a mulher, sorrindo, novamente na ofensiva. “Sou a caçula de Derek, neta do grande Arkadius Klein e de Gunda Graub, que são famosos na Alema­nha…” Parou, corrigiu: “Ou melhor, foram célebres. A fama foi repentina, apenas fruto de seus atos. Hoje, ninguém mais se lembra de nenhum Klein em Frankfurt. São todos fan­tasmas…” Parou a frase no meio, co­çou a cabeça, pediu desculpas, estava novamente errada. “Ah, meu tio Konrad foi herói na guerra e virou nome de rua! É o único Klein so­bre­vivente. Mas isso não muda nada, é a­penas uma rua com o nome de um fan­tasma. Hoje em dia, em Frankfurt, minha família é ponto de referência para padarias e farmácias, só isso: ‘Pas­se a Konrad Klein e vire à esquerda.’ ‘Siga pela Klein até o número 300.’ Para isso servem os fantasmas: para referenciar padarias e butiques…”

No livro, o delegado-narrador é convocado a Curitiba com o propósito de resolver uma sucessão de crimes que está na genealogia de duas famílias arquirrivais: os Koch e os Klein

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