Romance de Zoé Valdés é uma denúncia candente contra a tirania da dinastia Castro

Como a escritora, a personagem Pátria-Yocandra fugiu da ilha que, ao propor o paraíso, criou o inferno

A Editora Saraiva publicou em 2011 o livro “O Todo Cotidiano”, da escritora cubana Zoé Valdés. Na verdade, trata-se da reunião de duas novelas da autora, uma de 1995 (“O Nada Cotidiano”), e outra de 2010 (“O Todo Cotidiano”), tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht.

Há uma simbiose entre as duas novelas, em que pese a diferença no tempo em que foram escritas. Formam um livro em inteira continuidade. Um bom livro: não à-toa, Zoé é tida, pela crítica independente, como a melhor autora cubana moderna. Já a maioria dos críticos no Brasil, por ser ela uma incansável denunciante da ditadura castrista, prefere ignorá-la, e vem daí a pouca divulgação de seu nome entre nós.

Zoé nasceu em 1959, justamente o ano da revolução cubana. A escritora teve uma infância difícil, não só pelas deficiências próprias do regime, mas também pelo abandono do pai, que deixou a casa quando ela era ainda criança. Felizmente, teve na avó uma educadora importante, que nela despertou a inclinação pelas letras. Esteve trabalhando na delegação cubana na Unesco, em Paris, de 1984 a 1988. Então voltou a Cuba, onde permaneceu até 1994, quando obteve cidadania espanhola e se exilou definitivamente em Paris. Sua permanência na ilha estava cada vez mais difícil, por sua revolta com a carência de tudo — liberdade, principalmente — no regime castrista. Zoé chegou a ser presa, aos 20 anos, por ter ciceroneado dois turistas espanhóis, em Havana. A ditadura proibia contato de cubanos, exceto os guias credenciados, com qualquer estrangeiro que chegasse à ilha. Depois de respirar os ares tolerantes da democracia francesa, Zoé não teria mais como ficar em Cuba. Hoje, é uma das vozes mais presentes nas críticas à ditadura castrista.

Zoé Valdés: voz poderosa da literatura cubana | Foto: Reprodução

“O Todo Cotidiano” é um livro na fronteira: explora o erotismo, mas não chega ao vulgar e pornográfico; é ficção, mas beira o histórico; é um romance, mas indiscutivelmente pode ser visto também como uma biografia. Embora seja tudo isso, o livro de Zoé é mesmo, no fundo, uma denúncia. Denuncia a tirania, em geral aceita pelos que não a vivem, e que só pode ser avaliada por aqueles que a provaram. E uma ditadura, quanto mais longeva, mais tirana. Os sessenta anos de mando ditatorial dos Castro já infelicitaram três gerações, produziram perseguições, encarceramentos e mortes de milhares de inocentes, êxodo e pobreza generalizada em uma ilha que já viveu dias de abundância e prosperidade. O inconformismo de Zoé, permeando todas as trezentas páginas de seu livro, é justificado. Não está sozinha. Outros dissidentes, observadores independentes, turistas e principalmente as vítimas do regime que escaparam com vida são testemunhas de que sua ficção é absolutamente real.

“O Todo Cotidiano” narra a trajetória de uma cubana nascida em 1959, ano da revolução de Fidel Castro. A mãe da personagem sente as dores do parto em meio a uma concentração popular, e recebe uma bandeira de Cuba das mãos de Che Guevara. O pai é um fanático castrista, e sê-lo-á até morrer.

Fidel Castro, Raúl Castro e Che Guevara: construtores de uma ditadura cruenta em Cuba | Foto: Reprodução

A menina, pelo ocorrido, recebe o nome de Pátria, nome que detestará e que, na adolescência, vai trocar por Yocandra. A personagem cresce em meio às vicissitudes do regime castrista, casa-se três vezes, a primeira com um falso intelectual, a que ela dá o nome de Traidor, depois com um cineasta, no livro chamado de Nihilista, seu verdadeiro amor, que permanece em Cuba, onde é preso como dissidente, quando Yocandra se exila em Paris, e o terceiro casamento é com um agente secreto do governo cubano, Fidel Raul, cujas atividades Yocandra ignora e que só vai conhecer após a separação.

Num final feliz, Pátria-Yocandra consegue levar a mãe (viúva nessa altura) para Paris e mais tarde lá se reencontrar com o Nihilista, que liberto em Cuba, consegue também se exilar. Biográfico, muito biográfico o livro de Zoé, que também se casou três vezes, trabalhou em Paris, voltou a Cuba e depois se asilou em definitivo em Paris. A ficção fica por conta da convivência de um pai fanático por Fidel (que na vida real abandonou a família), e por conta de uma fuga de Yocandra por mar para Miami, que na vida real de Zoé não existiu. Mas em todo o livro está presente a atmosfera opressiva da ditadura vivida na realidade por Zoé e pelos milhões de cubanos: na alimentação racionada, nas faltas constantes de água e de energia elétrica, na enorme carência de transportes, na miséria, em uma palavra. E mais que isso, na falta de liberdade, nas denúncias, nas prisões sem culpa formada, nos espancamentos, nas mortes, na insegurança e no medo onipresente. Como diz Zoé pela voz de sua personagem Pátria-Yocandra (ou de si mesma): ela fugiu Daquela Ilha — uma ilha que quis construir o paraíso e criou o inferno.

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