Romance de Rodrigo Duarte Garcia prova que a literatura brasileira recente é inventiva

O escritor mostra, no romance “Os Invernos da Ilha” que, embora tributário da literatura universal, trilha seus próprios caminhos, dando sua contribuição específica

Com 36 anos, Garcia também atuou como editor e articulista, e exerce a profissão de advogado em São Paulo

Adalberto de Queiroz
Especial para o Jornal Opção

Narrativas em livros como produtos de uma guinada para o século 21 começam a surgir e o enfoque de jovens autores parece apontar novos rumos na ficção brasileira, para a liberdade de escrever boas e saborosas histórias, sem medo de cumprir a tarefa do escritor e distanciar-se da mesmice da banalidade.

O Brasil, que esteve por muito tempo refém de uma escrita insípida ou dogmática, parece libertar-se de alguns males que a sufocava — o solipsismo, o niilismo e o formalismo. Não é libertação que se dê da noite para o dia, tampouco seria a crítica acadêmica sensaborona e com pose de girafa que poderia avistar e fazer-nos chegar a outros destinos. É preciso que a resenha literária e jornalística ouse mais para que os rumos sejam apontados de baixo para cima, que aclarem o que o leitor comum pode ver nas páginas dos novos autores, pois parece-nos que a ficção escrita por novíssimos autores aponta para uma mudança de rumos.

Se a atenção de uma certa ficção foi por muito tempo provar por meio de personagens nem sempre verossímeis teses ideológicas, a de jovens autores, que esta tríade de artigos pretende analisar, sugere ao leitor um novo alento: a ficção ganha estado de arte do olhar e a narrativa dá ao leitor o prazer da leitura sem que este se veja presa de injunções ideológicas.

O bom deste novo olhar para uma torrente de jovens talentos que surgem é ver que o jovem brasileiro perdeu o que o professor, ensaísta e crítico literário Rodrigo Gurgel designa por narratofobia. Se para o jornalista, cartão-de-visitas são as reportagens e os textos (opinativos como este ou analíticos), não haverá melhor apresentação do escritor do que seus contos, romances, crônicas e poemas publicados. A gaveta deve deixar de ter a magia do esconderijo ideal do talento. Só haverá talento literário quando houver público que o aprecie, que o leia com atenção e que exerça o direito de crítica — mesmo que esta não tenha o status de “acadêmica”.

Vai longe o tempo em que o melhor da crítica se exibia nos jornais e não em revistas acadêmicas. Falo de um tempo em que o leitor podia ler semanalmente (os “rodapés” de) Wilson Martins, Álvaro Lins, Sérgio Milliet, Antonio Candido e o gigante da crítica tupiniquim, o austríaco-brasileiro Otto Maria Carpeaux, entre outros.

Há hoje alguns valores críticos, sim; no entanto, o espaço restrito da crítica de cunho acadêmico não alarga horizontes para o grande público. Não é possível ver, senão na janela apressada das mídias sociais, o trabalho de titãs que fazem os professores-críticos Rodrigo Gurgel e João Cézar de Castro Rocha (cada qual à sua maneira) ou a provocação de conteúdo feita por um Martim Vasques da Cunha (“A Poeira da Glória — Uma [Inesperada] História da Literatura Brasileira”); as análises certeiras e não academicistas de um Felipe Fortuna (“A Próxima Leitura”); e aqui mesmo no Opção Cultural de talentosos analistas: Adelto Gonçalves, o editor Euler de França Belém, Carlos Augusto Silva e J. C. Guimaraes e Edgar Welzel (correspondente-colaborador do Jornal Opção na Alemanha).

Rodrigo Gurgel nos ensina que, mesmo “impregnados da cultura contemporânea — relativista, materialista, de um niilismo que chega a ser atroz”, “nossos escritores estão começando a criar coragem para desobedecer aos departamentos de Letras das universidades e aos críticos que só valorizam acrobacias linguísticas” e abandonam o vício de “recriar constantemente um dialeto exclusivo” —, os novos talentos estão, segundo o crítico, dispostos a “contar boas histórias, corajosos a ponto de escrever com bom humor, sem se preocupar com discursos politicamente corretos”. Portanto, parece que nos descortina uma janela em que poderemos — leitores mais ou menos especialistas — deixar de ouvir apenas “falar de fracasso, vileza e perversidade”. Estaremos, leitores brasileiros, prestes a deixar o “deserto da imaginação”.

Rodrigo Garcia

O primeiro dos quatro narradores que pretendo apresentar ao leitor do Jornal Opção é Rodrigo Duarte Garcia, romancista estreante com “Os Invernos da Ilha”. Depois, falarei sobre Karleno Bocarro (“As Almas Que Se Quebram no Chão”); Alexandres Soares Silva (“A Alma da Festa”) e, por último mas não menos importante, Gabriel Santamaria (Viviani) de “O Evangelho dos Loucos”.

Rodrigo Duarte Garcia, 36 anos, estreante em romance, não é um outsider na literatura. Foi editor e articulista da revista “Dicta & Contra­dicta”, e exerce a profissão de advogado em São Paulo. A pista para o desejo de escrever um romance de aventuras vem de um artigo do jovem autor na revista: “Em defesa da aventura: de Homero a Conrad”. Nesse artigo estão as sementes do futuro romancista. Ao propor uma experiência simples e invulgar, cita C.S. Lewis: “(…) julgar os livros não apenas por si mesmos, mas especialmente pelo tipo de leitura que poderiam proporcionar. A ideia era transferir a atenção isolada da obra e examinar as qualidades e defeitos que fazem um bom ou mau leitor. Na­tu­ralmente, as investigações não pretendiam ter o caráter de um método científico rigoroso ou qualquer coisa aborrecida do gênero, mas apenas mostrar que, se a apreciação estética é uma experiência individual, os livros podem e devem ser julgados pela leitura que deles fazem os melhores leitores”.

Propondo a si mesmo a tarefa ra­ra na ficção brasileira — a de escrever um romance de aventuras, Ro­dri­go Duarte Garcia chega a bom ter­mo porque prende o leitor em quase 500 páginas de uma história envolvente recheada do que Wagner Scha­deck chamou (no artigo “O signo das águas”) de “várias camadas interpretativas”. É que o autor vai contando uma história e paralelamente fundamentando o pensar sobre a própria narrativa com uma espécie de observação metalinguística — sem ser chato ou remissivo. O autor é fiel ao que o crítico Rodrigo Duarte Garcia propõe: “O prazer deve sim ser um atributo essencial da experiência literária. Afinal, é o que faz o leitor querer virar a página e mergulhar fundo em determinada obra”.

Como sou um leitor que se envolve com a narrativa e sempre encontra uma “vítima” para quem recontar a história, fiz a experiência com a minha filha mais jovem. Sem deixar cair no “spoiler”, fui contando trecho a trecho em encontros como café da manhã e almoço. Ela, de uma geração mais próxima da do escritor, arrematou: “Wow, esse romance dá uma ‘sessão da tarde’” (horário de filmes de aventuras de uma emissora de televisão). Sigo há muito o conselho do próprio Garcia que dissera algum tempo atrás: “Talvez o que melhor diferencie o bom leitor seja justamente a habilidade de conseguir incorporar um livro à própria vida, nesse ato de imaginação, esforço, e amor que busca no Belo vislumbres do Bem”.

Não apenas romance de formação, a obra de estreia de Garcia é uma história de amor, aventura, investigação científica e cultura simbólica

Não apenas romance de formação, a obra de estreia de Garcia é uma história de amor, aventura, investigação científica e cultura simbólica

De fato, recheado de histórias envolventes e às vezes até exageradas, “Os Invernos…” possui outras camadas que escondi à minha filha engenheira pouco interessada em aprofundar-se nos dilemas espirituais de Florian Links e seu embate com Philippe Rousseau. Por pudor, tampouco entrei nos detalhes das aventuras amorosas deles com Cecília von Lockenhaus. O leitor adulto há de encontrar toda a trama pertinente às tentações que o personagem sofre em relação à castidade atentada — o viúvo Links que não consegue seguir à risca o 6º Mandamento — e ele, Links, que chegara à Ilha (Isla de Sant’Anna Afuera) justamente para purgar o pecado da culpa. Sim, porque o protagonista Florian Links chega ao cenário principal do romance, atendendo ao convite do amigo Dom Fernando e “fugindo do passado e do inerente sentimento de culpa — sentimento este que os ideólogos de nosso tempo tentam esconder —, para ser monge, mas necessita passar pela ascese” (Schadeck). O que, por si só, parece justificar o título de “Os Invernos…” como romance de formação.

Mas o romance de Garcia é mais que isso, embora tenha essa nuança des­tacada. “História de amor, aventura, investigação científica e cultura simbólica são méritos desse romance. A narrativa de Van Noort, como as histórias de Sherazade, espelham a narrativa de Florian Links”, sublinha Wagner Schadeck. O romance do estreante dialoga com grandes obras da literatura universal como “A Montanha Mágica” (Thomas Mann), “O Corsário” (Byron), “Uma Noite na Taverna” (Álvares de Azevedo), “A Morte de Lindoia”, do “Uraguai” (Ba­sílio da Gama) e de “Moby Dick” (Her­man Melville), este explicitamente.

Independentemente do romance dentro do romance e da técnica habilmente dominada por Garcia, fica a pergunta ao (e do) leitor: “Por que ler ‘Os invernos da Ilha’”? Porque é uma história bem contada. E uma história bem contada que erige uma teoria — um caminho novo para o narrador brasileiro: perder o medo de imaginar, encontrar as palavras, a sintaxe apropriada e, desde um “eixo bem estruturado de compreensão” (Gurgel, 2016), servir ao Leitor, sua Excelência o Leitor, o que há de melhor, numa forma adequada, em termos de um olhar à realidade criada de modo “apenas claro e sem aborrecer” — sem que a verdade se perca “nas ruínas da memória”.

Sem avançar o enredo — que é o que menos interessa a este resenhista —, digo a você, leitor, que o romance vale cada página. Desde a prece inicial do autor no prólogo, no qual à musa implora que não se perca, que vá às causas e conte os causos de “tormentas do mar, enganos da terra…danos colaterais e a guerra”, até o milagre da Cruz que não se deixa abater. São “eventos extraordinários” de um autor que sugere crença no sobrenatural, sem tirar o pé do barro do natural — e sem ser um naturalista.

Da legenda emprestada ao poema de Wallace Stevens — “One must have a mind of winter” —, partirá o leitor à aventura do narrador na Ilha de Sant’Anna Afuera, rememorando a infância em Santos, a juventude na Ca­talunha, a formação (doutorado) que o faz personagem de carne-e-osso, verossímil, Dr. Florian Links. Personagem a ser entendido, amado, odiado, incentivado a procurar o Bem para além de encontrar o tesouro que costura a narrativa no seu viés de aventura tout-court.

Alternando o diário do navegador holandês, o corsário Olivier van Noort — objeto de pesquisas do pedante professor Philippe Rousseau —, com a sua própria história, Dr. Florian justifica seu sobrenome, muito conscientemente escolhido pelo autor “Links”. São estabelecidas as relações para que o leitor não se perca e mais se interesse por saber o desenlace da narrativa. Há um momento na ilha em que se digladiam duas visões de mundo (Rousseau versus Links) e outro na História — em que se debatem os protestantes comandados por van Noort e os católicos com seu cruzeiro fixado e irremovível —, o natural e o sobrenatural como que brincando de esconde-esconde com o leitor.

Leitor amarrado

Links só se apresenta quando a narrativa já vai estruturada caminhando para um leitor amarrado ao texto, no capítulo X: “(…) antes de seguir adiante, acho que devo — talvez a mim mesmo — algumas explicações. Organizar o pensamento e tomar fôlego para seguir em frente: no meu começo está o meu final, aquela coisa toda.// Meu nome é Florian Links, tenho hoje trinta e seis anos e a verdade é que tudo sempre me aconteceu de maneira estranhamente concertada como se uma engrenagem se pusesse em marcha e mudasse o curso das coisas quando elas pareciam tender parra o lado oposto. Alguns chamam isso de destino, outros de Providência, e outros ainda de acaso. Quanto a mim, eu só acho que a realidade funciona de uma maneira esquisita e misteriosa demais para acreditar em certas coincidências”.

Um narrador onisciente já entrara aqui e ali para alertar o leitor ávido pela aventura do corsário holandês que “Nos Invernos da Ilha” ele (você) encontrará mais do que um tesouro perdido e um cruel navegador que quer salvar a sua pele e a de sua tripulação, invadindo os territórios da Espanha Ultramar Católica, rica em ouro e pedras preciosas.
“A Poética diz que tragédias devem causar terror, piedade e purificar as emoções do espectador” — alerta-nos esse narrador no início do cap. VIII. E complementa ser “protagonista e ao mesmo tempo autor” das anotações que estão encampadas como o romance de Garcia Duarte. De fato, Aristóteles dissera:

VI.27 — “É pois a tragédia imitação de caráter elevado, completa e de certa extensão, em linguagem ornamentada e com várias espécies de ornamentos distribuídas pelas diversas partes [do drama], [imitação que se efetua] não por narrativa, mas mediante atores, e que, suscitando o ‘terror e a piedade, tem por efeito a purificação das emoções’”.

A ornamentação da narrativa (não mais um drama a ser levado ao palco, mas por que não à tela dos cinemas?!) está conforme às melhores recomendações do mestre da “Poética”. Tem ritmo, harmonia e canto — há um poema inclusive que é a chave para a descoberta do tesouro ao final. Espero que não esteja tirando a você, leitor, o prazer de completar a leitura do romance de Garcia. E não o faço sem citar o poema transcrito do diário do corsário protestante — “A glória que brilha do Bom Jesus/onde começa o céu ao dom do inverno…”.Ficará, pois, desde já buscando o que brilha e de que forma, onde, o porquê do brilho e onde para que possa ir a bom termo até o fim das 460 páginas do romance — sem perder o fôlego ou o interesse. E sobre o verso de Stevens, há de ir até o “Último” — mesmo que não possua uma “mente de inverno” —, nós que somos, eu e você leitor (serão todos?), homens tropicais, como, de resto, o narrador mas que saiba buscar a ficção suprema em seus artifícios de ourives.

“O poeta que disse essas coisas” [tudo o que está no poema “Snow Man”, Wallace Stevens, 1954] — e o disse “de forma tão pungente” pensava na ficção suprema, na arte como o caminho de acesso a breves estalos de realidade e redenção: anjos necessários, talvez os únicos anjos possíveis numa realidade que se livrou dos seus deuses, que se livrou de Deus. Anjos necessários para suportar a dor da mortalidade, sem que haja mais nada além. Anjos necessários da imaginação, máquinas do mundo descortinadas e recusadas, anjos necessários, mas dolorosamente insuficientes.” (“Os Invernos da Ilha”, p. 447).

Ora, tal como o poeta Wallace Stevens, Garcia quer uma explicação para o mundo, ciente de que “a arte não redime ninguém, mas talvez possa tornar algumas dores mais suportáveis. Entre tormentas do mar, enganos da terra, danos colaterais e a guerra, escrever estes apontamentos é apenas uma tentativa de honra contra o esquecimento, contra as ruínas do inevitável”.

Stevens havia dito a um amigo em carta (1944): “Eu desejo explicar o Homem da neve como um exemplo da necessidade de identificar alguém com a realidade, de forma a entendê-la e a aproveitá-la” (Wallace Stevens, em carta a Hi Simmons, explicando o poema “Snow Man”).
O jovem Rodrigo Duarte Garcia, malgrado os elogios (e digo malgrado por não ser de todo agradável ter o primeiro romance tão exaltado como este o foi — e não imerecidamente, ressalte-se!) e as incompreensões e invejas que hão de vir, malgrado tudo e apesar de tudo tem fôlego para continuar fazendo o que Unamuno diz ser o essencial para escrever um romance: tem uma história pessoal, sua alma preservada das “corjas literárias”, tem fé; sabe, assim, dar vida a um universo imaginário, que traduz as angústias interiores das pessoas, encontrando a palavra adequada e contando uma história saborosa.

E mais: Garcia tem o apoio de sua (dele) família (Camila, Manuela, Pedro e Joaquim — leitores primeiros das linhas do jovem autor); tem talento e tem força vital para transformar pensamento em ação sem fazer-se presa fácil do niilismo, do solipsismo e do formalismo reinantes em nossos romances. Da sua tragédia pessoal, dos seus invernos e verões, esperamos depararmo-nos com outras histórias tão saborosas quanto esta de “Os Invernos da Ilha”, cuja leitura recomendo com entusiasmo.

“The snow man”
(Boneco de neve)
Wallace Stevens

Há que ter um espírito de Inverno
Para olhar a geada e os ramos
Dos pinheiros encrostados de neve;
E ter tido frio muito tempo
Para ver os zimbros encrespados com gelo,
Os abetos eriçados ao brilho distante
Do sol de Janeiro; e não pensar
Em qualquer desgraça no som do vento,
No som de algumas folhas,
Que é o som da terra
Cheia do mesmo vento
Que sopra no mesmo lugar deserto
Para o ouvinte, que ouve na neve,
E, ele mesmo nada, não vê
Nada que lá não está e sim o nada que é.

Do livro “Ficção Suprema”, tradução de Luísa Maria Lucas Queiroz de Campos, Lisboa, Assírio & Alvim.

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