Romance de Lucília Garcez é crucial para entender a ditadura pós-64

“Outono” percorre, com mestria e faro jornalístico mas sem cair na tentação da panfletagem, essa triste e inesquecível quadra da aviltada República brasileira

O passado nunca está morto. Nem sequer é passado.” — William Faulkner

Ronaldo Cagiano

Especial para o Jornal Opção

Na literatura brasileira não são poucas as obras, seja no cunho jornalístico ou ficcional, que abordam o período da ditadura, percursos narrativos que ajudam a lançar um olhar crítico sobre os anos que culminaram na morte da democracia, na negação das liberdades individuais e coletivas, no engessamento das instituições e extinção de garantias constitucionais, além do atraso político, moral e social que pesam sobre gerações.

Apenas para não eludir a memória, que nesses tempos de ressurreição do obscurantismo e de assanhamento saudosista dos insones arquitetos dos golpes, vale lembrar livros que mapearam e continuam a lançar luzes sobre a noite e as catástrofes que se seguiram ao golpe militar de 1964: “Zero” (Ignácio de Loyola Brandão), “Reflexos do Baile” e “Quarup” (Antonio Callado), “Os Carbonários” (Alfredo Sirkis), “O Que É Isso, Companheiro?” (Fernando Gabeira), “O Amor de Pedro e João” (Tabajara Ruas), “É Tarde Para Saber” (Josué Guimarães), “Os Que Bebem Como os Cães” (Assis Brasil), “Cabo de Guerra” (Ivone Benedetti), “O Fantasma de Luís Buñuel” (Maria José Silveira), “Não Falei” (Beatriz Bracher), “Não És Tu, Brasil” (Marcelo Rubens Paiva),  “A Noite da Espera” (Milton Hatoum), “O Indizível Sentido do Amor” (Rosângela Vieira Rocha),”Palavras Cruzadas” (Guiomar de Grammont), dentre outros.

A representação da ditadura na literatura acaba de ganhar mais uma obra que vem ao encontro de uma necessidade cada vez mais urgente, a de retomar a verdade do passado (que a história oficial sempre quis manipular, esconder ou negar) para que ele seja lembrado não em clave de revanchismo, mas como imperiosa ordem moral e ética que nos imponha a obrigação íntima de revidar toda tentativa de não repeti-lo, não nos esquecendo do horror que representou.

“Outono”, de Lucília Garcez (Editora Outubro), um dos mais recentes e indispensáveis livros para a compreensão desse período, percorre com mestria e faro jornalístico, mas sem cair na tentação do didatismo ou da panfletagem, essa triste e inesquecível quadra de nossa aviltada República. A história é contada sob o prisma de uma vítima do regime militar, Ângela, que perdeu o marido para o aparato de repressão e explora o temor vivido por uma personagem que passou sua existência na esperança de encontrar um corpo e consumar um luto. A figura emblemática de Danilo, o companheiro desaparecido, como de tantos outros militantes contra a opressão, criou a terrível sensação de  impotência das famílias que buscavam seus parentes tragados pelo buraco negro do terrorismo de Estado.

Ângela é símbolo dessa luta e remete-nos a 1977, à memória dos discursos inflamados dos deputados Marcos Tito (MG), Chico Pinto (BA), Lisâneas Maciel (RJ) e Alencar Furtado (PR), da ala autêntica do MDB, que denunciaram no parlamento e num programa eleitoral de tevê as atrocidades do regime, episódio que culminou em uma reação da ala radical do Exército, vingando-os com em suas imediatas cassações. O pavor foi exposto em rede nacional, quando o parlamentar paranaense, em contundente e antológica acusação, tocou nas feridas do regime, abriu suas vísceras e acusou o sistema por esconder essa chaga dos desaparecidos: “Para que não haja esposas que enviúvem com maridos vivos, talvez; ou mortos, quem sabe? Viúvas do quem sabe ou do talvez”. Era o princípio da pá de cal na era exceção, que iria tempos depois tomar vulto no brado nacional, até ruir com o advento do clamor pela anistia e pelas Diretas-Já, movimentos que a autora dissecou em sua integridade e veracidade no decorrer do romance, lembrando-nos sempre a lição de Octavio Paz: “se a memória se dissolve, o homem se dissolve.”

Lucília Garcez, professora da UnB e com uma carreira literária vitoriosa e premiada com uma vasta bibliografia infanto-juvenil, viveu na pele esses tempos conflagrados, inserida no olho do furacão social, acadêmico, político e histórico de seu tempo, numa Brasília inviabilizada pelos coturnos. Sua experiência pessoal e de frontalidade com esse período ajudou a construir, por meio da ficção, uma personagem que encarnasse o pesadelo de então e metaforizasse o clima vivido pelo país.

Em “Outono” mesclam-se a narrativa em primeira e terceira pessoas e fluxos de consciência em meio aos registros, referencialidades e memória da época, como a literatura, a música, o cinema, o teatro — as artes, em geral — que emulavam os gritos de revolta e resistência e fomentavam protestos de estudantes e diversas classes da sociedade civil. O inconsciente da autora teve papel preponderante na tessitura dessa trama, dando-lhe contornos fieis e funcionando como reposição, “in totum”, das tintas que construíram o imenso painel do totalitarismo que amedrontou e submeteu o país e a nação à sua mais longa noite, à sua mais dolorosa agonia.

A densa e tensa narrativa de “Outono”, na esteira da memória como um verdadeiro encontro de contas com a história, para que possamos evitar que o passado volte com seus guantes de aço, o que nos remete a Walter Benjamim, para quem “um acontecimento vivido é finito. Um acontecimento lembrado é ilimitado”. Nessa perspectiva os personagens fictícios, caudatários dos que viveram ou agiram naquele período, são aqui recriados em sua dimensão humana. Mas os fatos, tais quais relatados, embora fruto da imaginação, são reverberações especulares da verdade dolorosa: o terror da repressão que impôs silêncio, algemas, torturas, expulsões, banimentos, mortos, cadáveres insepultos, nascidos nos porões do DOI-CODI, pelas mãos de Fleurys, Brilhantes Ustras, Curiós e outros vermes assassinos do regime, que a autora deu voz e lhes conferiu autenticidade e verossimilhança.

“Outono” traz um caleidoscópio bem estruturado de circunstâncias, sensações, apreensões e marcas indeléveis na vida da protagonista Ângela, na alma da autora, na consciência do narrador. Lucília escreve adotando o recurso dos flashbacks, o trânsito entre passado e presente. Estabelecendo um diálogo entre o sofrimento da esposa que tenta desesperadamente descobrir o paradeiro ou o corpo do marido e, saltando no tempo, já como mãe de Vitória, amadurecida pela barbárie e contingências vividas, impossibilitada de resgatar o companheiro tragado pela roldana da violência ditatorial, passa a viver outra vida, segue as exigências do tempo, se apaixona pelo livreiro Francisco, e vai des(a)fiando seu novelo de inquietações, traumas, bloqueios, novos conflitos e dilemas que a impedem de sentir, viver e amar novamente, expondo a sua a humanidade e a tragicidade poética de uma vida sempre exposta aos passivos e revezes da caminhada.

Obra de inegável qualidade estética, tanto pela profundidade temática quanto pela força dramática, além de uma linguagem permeada sensibilidade e sutilezas estilísticas, “Outono” firma em caixa alta a estreia de Lucília Garcez no romance.

Escritora cujo talento, vigor e versatilidade comprovam o pleno domínio da linguagem e manejo seguro de todas as possibilidades de comunicação e interpretação do momento histórico e afetivo de sua personagem, cujas reminiscência e cicatrizes ajudam a descrever o Brasil de hoje. Um tento alvissareiro em sua carreira, sobretudo marcando posição e coerência  num momento de amnésia coletiva e a hipnose das fake News, em que é preciso refletir e questionar a fase crucial da vida brasileira, o que nos faz relembrar um personagem de José Eduardo Agualusa em “Manual Prático de Levitação: “O passado é como o mar: nunca sossega”.

Mais do que necessário e oportuno, Lucília Garcez mapeou esse mosaico de vicissitudes e seu texto direto e conciso, que pauta a investigação e a discussão filosófica sobre esse período, deu voz a seus viventes e nos ajuda a navegar nesse imenso oceano de perplexidades, em meio à escuridão que ameaça reverberar e esqueletos que insistem em renascer dos escaninhos do imaginário e nos assustar, trazendo-nos o perigo novamente, de um inverno de nossa desesperança, descontentamento e desassossego, reverberando a lição de Paul Rocoeur: “Seria preciso recontar essa história com os olhos do presente, para exorcizar a dor.”

Ronaldo Cagiano, escritor mineiro-brasiliense, vive em Portugal.

Trecho do livro de Lucília Garcez

“Eu contava os segundos, os minutos, as horas, os dias numa impotência sem limites. Sentia-me inútil, indefesa, mergulhada no ódio aos militares que tinham transformado minha vida e a do país naquele inferno. O absurdo do arbítrio, da perseguição, da repressão estava ali diante de mim de forma concreta. Não eram apenas alusões, insinuações, relatos vagos ou comentários superficiais dos quais eu pudesse me distanciar. Era a crua verdade. Danilo estava preso e corria o risco de morrer, como sabíamos que outros companheiros tinham terminado, eliminados sem piedade.”

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