Romance de diplomata brasileiro reflete o jovem atual, aquele que protesta sem saber por quê

João Almino demonstra literariamente como a juventude de hoje, sem encontrar líderes confiáveis, não consegue ver a saída para aquilo que lhes causa repulsa

João Almino mostra como fazer literatura tendo como base uma pesquisa incessante sobre a realidade e a história de um povo | Foto: Reprodução

Adelto Gonçalves
Especial para o Jornal Opção

Se para conhecer a São Petersburgo do século 19 é preciso ler Fiódor Dos­toiévski (1821-1881), tal como para descobrir detalhes do Rio de Janeiro do final do mesmo século é fundamental percorrer os romances de Machado de Assis (1839-1908), da­qui a cem anos, certamente, para saber como era (ou é) a cidade de Brasília (e o Brasil) deste começo de século 21, será necessário ler “Enigmas da Primavera” (Editora Record, 2015), o novo e sexto romance do diplomata João Almino.

Trata-se da primeira obra de peso na literatura brasileira que não só traz para as páginas da ficção os movimentos políticos dos últimos anos, conforme observou o crítico Manuel da Costa Pinto (Folha de S. Paulo), como incorpora na prosa as novas tecnologias e formas de comunicação, como o e-mail, o iPhone, o iPad, o Facebook, o WhatsApp e outras redes sociais.

A partir das chamadas “Jornadas de Junho”, que agitaram as grandes cidades brasileiras em 2013, o autor cria um jovem personagem, Majnun; neto de um antigo esquerdista, simpatizante da luta armada contra a ditadura civil-militar (1964-1985), que, a exemplo daqueles que foram às ruas, não sabe bem o que quer nem para onde ir. “Se não fosse a companhia de seu laptop, de seu iPhone e de seu iPad, seu mundo não seria mais do que uns poucos centímetros de chão de cimento rachado”, diz o narrador. Com o pai morto por overdose e a mãe, viciada e psicótica, sem condições para assumir sua criação, os avós de Majnun seriam os seus verdadeiros progenitores.

Apaixonado pela cultura muçulmana, Majnun sonha abandonar a casa do avô e ganhar o mundo, indo de Brasília para Madri e, em seguida, para Granada, à época do 15-M (15 de maio de 2011), movimento de protesto que ganhou as ruas da capital espanhola, e da Primavera Árabe, que marcou a queda de vários regimes ditatoriais no Oriente Médio.

Como um protagonista de romance picaresco, Majnun está em vários lugares, vê o mundo de fora, mas acaba por não se integrar à sociedade. “Aos 20 anos, ele era uma tela em branco”, diz o narrador. Não tinha vocação para se tornar militante político, como fora seu avô. Não havia mais ditadura contra a qual lutar, e não era suficiente juntar-se à mediocridade, agregar uma pequena peça na engrenagem, corrigir uma injustiça aqui e outra ali, fazer um trabalho de formiguinha, tapar um buraco, consertar um defeito. Sua avó Elvira fazia projetos para prefeituras. Mas ele nunca conseguiria ser prático (…)”.

Encantado pelas fábulas e histórias do mundo árabe e em busca de suas raízes, o protagonista do romance depara-se com o paradoxo multissecular do fundamentalismo islâmico, que, em seus primórdios, assumia a tolerância como comportamento ético, mas que, hoje, dividido por facções radicais, faz da intolerância o seu lema. Por isso, romântico, contraditório e imprevisível, Majnun encarnaria as idiossincrasias da juventude dos dias de hoje.

“Majnun é um jovem enfadado com seu cotidiano, que busca preencher seu vazio nas redes sociais. Tem todo um futuro pela frente, que, em vez de alimentar sua utopia, o faz mergulhar inicialmente num pensamento antiutópico, já que flerta com a volta a um passado que nunca vivenciou”, diz o narrador.

Dividido pela atração por três mulheres — especialmente por Laila, esta casada, mais velha que ele 15 anos —, Majnun, “o homem que amava demais”, envolve-se numa trama densa e sedutora, que atrai do começo ao fim e que, ao mesmo tempo, não só consagra como mostra o perfeito domínio que o ficcionista Almino tem de seu ofício, ao passar ao leitor uma reflexão sobre o atual estágio político do Brasil deste século em que os jovens não veem a saída nem o futuro e protestam sem saber o que colocar no lugar daqueles que lhes causam repulsa. Isso porque não encontram líderes confiáveis.

Romeu e Julieta persa

Não bastasse a erudição do autor, que, de fato, preparou-se para escrever o romance, mergulhando no estudo da história árabe e de sua influência na Espanha de ontem e de hoje, o livro traz ainda um percuciente e esclarecedor prefácio de João Cezar de Castro Rocha, que ajuda o leitor a conhecer os caminhos que o romancista percorreu para construir a sua ficção nesse livro labiríntico, ao mostrar que a trama de “Enigmas da Primavera” “atualiza, ou seja, transforma, a mais divulgada história de amor da literatura árabe, transmitida oralmente e codificada, no século 12, pelo poeta persa Nizami — e, desde então, reescrita um sem-fim de vezes”. De fato, como observa o prefaciador, o protagonista do romance carrega o nome do personagem do poema de Nizâmî ou Nizman ou Nezami Ganjavi (1141-1209), “Layla y Majnún”, que tem um pequeno trecho reproduzido como epígrafe em tradução de Jordi Quingles.

Como se sabe, “Laila e Majnun”, uma espécie de “Romeu e Julieta”, de William Shakespeare (1564-1616), da literatura persa, é um conto folclórico em versos e seu protagonista está associado a um homem que, de fato, teria existido, Qays Ibn al-Mulawwah, que viveu, provavelmente, na segunda metade do século 7 d.C., no deserto de Najd, na Península Árabe. Esse poema épico, dedicado ao rei Shirvanshah, com cerca de 8 mil versos, em 1188, tornou-se tema de populares canções, sonetos e odes de amor entre os beduínos, ao longo dos séculos.

O autor

Almino, nascido em Mossoró, Rio Grande do Norte, diplomata, é autor de seis romances. Fez doutoramento em Paris, orientado pelo filósofo Claude Lefort (1924-2010), ex-professor da Sorbonne, da École des Hautes Études en Sciences Sociales e da Universidade de São Paulo (USP), que teve como tutor o fenomenologista Maurice Merleau-Ponty (1908-1961), cujas publicações póstumas editou.

Já ministrou aulas na Universidade Nacional Autónoma do México (Unam) e na Universidade de Stanford e na Universidade de Chicago, nos Estados Unidos. Parte de sua obra está traduzida para o inglês, francês, espanhol e para o italiano, entre outras línguas. Tem também escritos de história e filosofia política, que são referência para os estudiosos do autoritarismo e da democracia.

Vencedor de prêmios como o Casa de Las Américas de 2003 e o Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura de 2011, área de ficção, entre outros, Almino é autor ainda de “Ideias para Onde Passar o Fim do Mundo” (1987), “Samba-Enredo” (1994), “As Cinco Estações do Amor” (2001), “O Livro das Emoções” (2008) e “Cidade Livre” (2010).

Na área de não-ficção, incluem-se “Os Democratas Autoritários” (1980), “A Idade do Presente” (1985), “Era uma Vez uma Constituinte” (1985), “O Segredo e a Informação” (1986), “Brasil-EUA: Balanço Poético” (1996), “Literatura Brasileira e Portuguesa Ano 2000”, organizado com Arnaldo Saraiva (2000), “Rio Branco, a América do Sul e a Modernização do Brasil”, organizado com Carlos Henrique Cardim (2002), “Naturezas Mortas — A Filosofia Política do Ecologismo” (2004), “Escrita em Contraponto — Ensaios Literários” (2008) e “O Diabrete Angélico e o Pavão: enredo e amor possíveis em Brás Cubas” (2009).

Adelto Gonçalves é doutor em Letras, jornalista e autor de “Os vira-latas da madrugada”, dentre outras obras.

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