Romance de Almudena Grandes relata a resistência de indivíduos que lutam pra escapar do passado

A autora espanhola visita o doloroso período do pós-Guerra Civil Espanhola e escreve a sua obra mais bem elaborada

Celeste Gomes del Salto

De Madri

Vou iniciar uma série de resenhas sobre escritoras espanholas. Moro na Espanha desde 1988 e acompanho a trajetória de várias delas. A qualidade é inquestionável. Vou começar a série por Almudena Grandes, de 60 anos. Trata-se de uma escritora notável.

Com uma prosa envolvente, Almudena Grandes guia doce e habilmente o leitor até o final do romance “A Mãe de Frankenstein” (Tusquets Editores, 560 páginas). Relata de forma emocionante a história de uma mulher e um homem que escolheram resistir nos momentos mais difíceis. É o romance mais intenso e emocional dos episódios de “Guerra sem fim”. É talvez a obra mais elaborada de Almudena Grandes.

O jovem psiquiatra Germán Velázquez foi exilado em 1939 — no fim da Guerra Civil Espanhola — e viveu 15 anos na Suíça. Ele retorna à Espanha para trabalhar no asilo feminino de Ciempozuelos, ao sul de Madri.

Em Ciempozuelos, Germán conhece Aurora Rodríguez Carballeira, uma parricida paranoica e inteligente que lhe fascinou aos 13 anos, e conhece uma auxiliar de enfermagem, Maria Castejón, que a sra. Aurora havia ensinado a ler e escrever quando criança. Germán, atraído por Maria, não entende a rejeição dela, e suspeita que sua vida esconde muitos segredos. O leitor descobrirá sua modesta origem como neta do jardineiro do asilo, seus anos como empregada doméstica em Madri, sua miserável história de amor. Descobrirá também as razões pelas quais Germán voltou para a Espanha. Almas gêmeas que tentam escapar de seus respectivos passados, Germán e Maria querem se dar uma chance, mas vivem em um país humilhado, no qual os pecados se tornam crimes, e o puritanismo, a moral oficial, encobre todos os tipos de abusos.

Os três personagens desta obra, Aurora Rodríguez Carballeira, famosa parricida, a assistente Maria Castejón e o dr. Germán Velázquez, misturam suas vidas nesse asilo feminino de Ciempozuelos, em poucos anos em que esse tipo de doença mental era mais do que estigmatizada pelo regime do ditador Francisco Franco (1892-1975), e muito mais se fossem mulheres, o que era como “nada” naqueles dias.

Almudena Grandes: uma das mais importantes escritoras espanholas | Foto: Reprodução

Tudo pode parecer muito simples, boas fontes, mão para a psicologia e linguagem acessível, mas, no entanto, de fácil não tem nada. Você tem de saber como se mover muito bem entre os bastidores da literatura para obter esses três elementos, bem carregados, para resultar em um produto brilhante, um romance monumental do qual não se pode escapar até os desejos de seu autor.

A autora madrilena, dando voz às suas três criaturas, nos leva a uma era que conhece à perfeição e oferece um panorama claro e estridente, no qual essa depreciação em relação às mulheres poderia ser acompanhada pela despreocupação para qualquer avanço científico, especialmente se ela veio de fora. Essa alternância de vozes é um dos valores do romance, pois nos permite conhecer tanto o presente quanto o passado dos personagens, o exílio pós-guerra, as condições de vida muito duras dos mais humildes, ou o monopólio que na psiquiatria parental tanto Vallejo Nájera quanto López Ibor exerciam, sobretudo o primeiro, um forte defensor da eugenia propugnada pelos nazistas da Alemanha.

Com o parricídio que Aurora Rodríguez Carballeira cometeu com sua filha, conhecemos a vida de Germán Velázquez e as doenças dessas mulheres esquecidas, enquanto desfrutamos de um afresco social necessário para terminar de conhecer os últimos anos da história da Espanha. E tudo isso com uma estrutura em que Almudena Grandes coloca suas peças, ao montar bem um edifício que faz o sentido de cada página, para cada sequência, e que nos arrasta com ela e com os caminhos que esses três personagens caminham. Se pode dizer que essa obra é literatura com letras maiúsculas.

Breve histórico da literatura da espanhola Almudena Grandes

Almudena Grandes Hernández nasceu em Madri em 1960, estudou Geografia e História na Universidade Complutense de Madrid, mora entre as cidades de Granada e Madrid e trabalha no setor editorial como redatora e corretora. Também coordena uma coleção de guias turístico-culturais. Colabora regularmente na imprensa, principalmente no jornal “El País”, e participa como tertuliana em alguns programas da emissora SER.

Começou com o gênero erótico, porém seguiu logo por outros caminhos literários. Seu primeiro romance, “As Idades de Lulu” (1989), alcançou grande sucesso tanto de crítica quanto de público e foi traduzido para mais de 20 idiomas. Ela ganhou o prêmio Sorriso Vertical de romance erótico. O romance foi levado ao cinema por Bigas Luna, em 1990. Seu romance seguinte, “Malena É um Nome de Tango” (1994, publicado no Brasil pela Editora Record), foi adaptado para o cinema por Gerardo Herrero, em 1996. Em 1997, foi a primeira mulher a receber o prêmio Rossone d’Oro — na Itália —, que já havia sido conquistado por escritores como o italiano Alberto Moravia e pelo argentino Ernesto Sabato.

Depois de Malena, Almudena Grandes publicou vários romances protagonizados por mulheres, como “Atlas de Geografia Humana” (1998) e “Os Ares Difíceis” (2002), também levado ao cinema por Gerardo Herrero, em 2006. Em 2007 publicou “O Coração Congelado”, que levou os prêmios José Manuel Lara e Grêmio de Livreiros de Madrid. Em outubro de 2018, ganhou o Prêmio Nacional de Narrativa.

Grande parte das suas histórias ocorre no final do século 20 e exibe o cotidiano da Espanha da virada do século. Também mostra a Guerra Civil Espanhola (1936-1939). Na obra “O Coração Congelado” (2007), a autora conta sobre o estabelecimento de várias dinâmicas de poder da Espanha contemporânea.

Este olhar para o passado é sistematizado a partir de “Inês e a Alegria” (2010), que dá início a um projeto narrativo que a autora chama de “Episódios de uma guerra interminável”, e se compõe de seis romances independentes, sendo o seguinte “O Leitor de Júlio Verne” (2012), “Os Três Casamentos de Manolita” (2013) e “ Os Pacientes do Dr. García” (2017). A quinta parte da série, “A Mãe de Frankenstein” (leia resenha acima), está localizada na década de 1950.

Celeste Gomes del Salto, jornalista e escritora, é colaboradora do Jornal Opção.

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