Rito de tradição e de fé

Em “Dançadores do Rosário”, fotógrafa Lúcia Teixeira de Carvalho e professora Maria Luíza M. Mendonça unem talentos para prestar tributo à história e aos personagens da festa mais tradicional de Catalão

Momento das Congadas: Plasticidade da festa atrai o interesse de profissionais da fotografia

As origens de uma das principais manifestações culturais de Goiás, as Congadas de Catalão, se perdem no tempo. Acredita-se que a festa date do século 19, mais precisamente por volta de 1820, com a chegada dos primeiros escravos. Segundo esta referência, seriam aproximadamente 200 anos de tradição, dos quais 30 foram registrados pelo olhar e pelas lentes da fotógrafa Lúcia Teixeira de Carvalho. Captando as imagens desde 1986, Lúcia construiu um acervo riquíssimo em cores, rostos e movimentos.

Esse documento visual da memorabilia dos festejos em louvor a Nossa Senhora do Rosário agora está reunido no livro “Dançadores do Rosário”, editado pela Editora Tallento com apoio do governo do Estado. O lançamento oficial foi realizado em Goiânia, na Vila Cultural Cora Coralina, no último dia 25, e também em Catalão, com direito à noite de autógrafos no Centro do Fol­clore de Catalão, a sede das comemorações do Rosário. A ideia de lançar o livro surgiu há dois anos, quando a fotógrafa Lúcia Teixeira de Carvalho e professora Maria Luíza M. Mendonça uniram suas habilidades com imagem e escrita, respectivamente, para documentar este acontecimento da cultura popular.

“Dançadores do Rosário” é um relicário de memórias e de afetividades. A começar pelo estreito vínculo das autoras com as Congadas e com a cidade. “Sou nascida em Catalão. E todo mundo nascido em Catalão é envolvido com a festa, porque é o maior acontecimento da cidade”, afirma Lúcia. A professora Maria Luíza Martins de Mendonça nasceu em Goiânia, mas também possui fortes vínculos com a cidade devido às origens de seus familiares.

Louvor a Nossa Sra. do Rosário: mistura de catolicismo, ritos africanos, o sagrado e o profano

A festa em louvor à Nossa Senhora do Rosário é considerada uma das maiores festas populares que se tem notícia no território nacional. Envolve cerca de 5 mil pessoas entre dançadores, organizadores, comunidade e igreja. Também atrai inúmeros visitantes de outras cidades e chama atenção de fotógrafos e profissionais de filmagens pela plasticidade das vestimentas, sonoridades e danças.

Ruas, avenidas e igrejas do município do Sul do Estado, a 261 km de Goiânia, se enfeitam todas para festejar Nossa Senhora do Rosário a cada mês de outubro. Os preparativos, no entanto, começam com muita antecedência. Já no mês de junho, os ensaios já movimentam os bairros e quintais da cidade.

Vínculo afetivo

Atualmente radicada em São Paulo, Lúcia faz questão de todos os anos regressar à cidade natal para participar e fazer novos registros dos festejos. De diferentes ângulos, ela capta a beleza, o colorido, as personagens que compõem os ternos de Congo. Amiga de longa data de Lúcia Teixeira, Maria Luíza assina os textos do livro, homônimo ao título de sua tese de doutorado em Comunicação pela ECA-USP.

A obra também recupera a memória de personalidades que se tornaram emblemáticas no con­texto das Congadas. “As pessoas folheiam o livro ese lembram daqueles que tiveram uma participação visceral. Comentam: ‘olha a foto de fulano’… Muitos já morreram. Então o livro surgiu também com o propósito de prestigiar o legado destas pessoas, que foram fundamentais para que a tradição continuasse viva”, afirma Lúcia.

História

Há informações de que por volta de 1820 chegaram a Catalão os primeiros escravos semilibertos para trabalhar nas lavouras. Carregavam com eles não apenas seus instrumentos de trabalho, mas também suas crenças, seus usos e costumes, sua religiosidade sincrética e, com isto, o louvor a Nossa Sra. do Rosário, manifestado em uma celebração marcada pelo sincretismo e multiculturalismo, em que se misturavam catolicismo, ritos africanos, o sagrado e o profano. Daí surgiram os famosos ternos de Congo e Moçambique, referência aos dois países africanos de onde vieram grande parte dos escravos.

Mas não pense que em meio a uma manifestação cultural tão tradicional não haja espaço para o frescor trazido pelos ventos de novos tempos. Uma novidade bastante importante nos últimos anos foi a fundação, em 2006, do Terno Mariarte, composto somente por componentes do sexo feminino. “Isso foi uma grande mudança, porque originalmente, às mulheres, cabiam abrir o terno, carregando as bandeiras. Atrás, os dançadores e músicos eram exclusivamente homens”, explica.

Para Lúcia, as Congadas de Catalão mostram fôlego para continuar cativando as novas gerações, ganhando a cada ano novos adeptos. “Só de 2016 para cá, surgiram três novos ternos. E esse interesse dos mais jovens é espontâneo, fazendo que a tradição passe de pai para filho. De mãe para filha”, reflete. E mais do que esse vínculo com as próprias raízes, os festejos da Congada de Catalão também reforçam autoestima em relação às origens e à própria identidade. “É uma celebração em que vemos o capricho dos participantes em cada detalhe da produção”, elogia.

O ato fotográfico

Esse vigor também da cultura popular fica evidente com a capilaridade da festa em relação ao turismo e a grande visibilidade na mídia. “A gente não sabe de onde aparece tantos fotógrafos”, brinca Lúcia que, na condição de fotógrafa, ‘sofre’ com a concorrência. “Hoje em dia todo mundo é fotógrafo e temos que disputar espaço com os celulares o tempo todo”, analisa.

Além de mostrar a evolução dos festejos catalanos, as mudanças ocorridas com o tempo, a composição dos ternos do Congo e Moçambique (hoje são 21), o apanhado imagético de Lúcia mostra ao leitor a revolução da fotografia, que passou de analógica para digital, o que por um lado proporcionou maior qualidade e precisão, mas que também trouxe desafios para quem lida diretamente com o ofício da fotografia.

As mudanças no equipamento, no material e na execução do trabalho ficam registradas no livro. “Fui mexendo, revirando gavetas e vi que que tinha muita coisa guardada, porque comecei a fotografar ainda com máquinas de filme. Orga­nizar isso tudo não foi fácil. Escaneamos muitas fotos e também fizemos muito tratamento de imagem, porque há muita interferência de fundo: carros, postes, reflexos, além do sol, que é intenso em uma das épocas mais quentes do ano aqui em nosso estado. Acima de tudo, foi um trabalho exaustivo de pesquisa”, resume.

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