Assim a alma esconde sob um véu enganoso as paixões contrárias que a perturbam; não raro está ela triste quando seu rosto irradia alegria… — Petrarca

Sinésio Dioliveira

Especial para o Jornal Opção

O crítico literário e ensaísta Agrippino Grieco, que saiu da vida em 1973, disse algo de que nunca me esqueci. Segundo ele, cujas palavras exatas não me lembro, o grande lance não é ler muito, mas ler bem. Conheci um cara que leu centenas gibis de faroeste, mas essa leitura não o ajudou em nada na sua lapidação humana e intelectual. Era um boçal. A valentia dos heróis dos gibis o adoeceu de selvageria. Certa vez matou um homem a facadas por causa de um desentendimento por algo tolo, que poderia ter sido resolvido com palavras.

Antes da magia da fotografia me contagiar, eu queria ultrapassar a idade de Matusalém para ler muito. Meu desejo de longevidade hoje é mais para ver a luz do sol do que conhecer os pensamentos de todos os filósofos e de todos poetas.  “Ensaios”, de Michel de Montaigne (1533 – 1592), é, para mim, uma “bíblia intelectual”, como me disse o amigo Euler de França Belém no livro que me deu de presente no dia 29 de novembro de 2000. Ele tem razão em dizer que “poucos livros são belos quanto Ensaios”. Ainda continuo lendo, mas sem perder noites de sono.

Pintura de Antônio Poteiro

Não vou, portanto, já que mencionei o aspecto intelectual “Ensaios”, tomar o caminho da erudição e me enveredar no rebuscamento para falar dela. E quem me impede dessa ação é o próprio Montaigne. Ele diz que se pode recorrer à erudição numa conversação quando for necessária, “mas sob a condição de que não assuma forma doutoral, imperativa e inoportuna, de que seja modesta e acessória”. “Ensaios” entra neste texto para falar dos risos rotos que ocultam abismos principalmente nas redes sociais.

No capítulo “Da solidão”, há um trecho em que Montaigne o atribui ao poeta, orador e escritor humanista italiano Petrarca (1304 -1374): “Assim a alma esconde sob um véu enganoso as paixões contrárias que a perturbam; não raro está ela triste quando seu rosto irradia alegria…” Assim que li essa citação petrarquiana, o soneto “Mal Secreto”, do poeta, magistrado e diplomata Raimundo Correia (1859-1911) me veio à mente. No respectivo poema, o poeta fala sobre a mesma coisa que Petrarca: o mundo da aparência, mundo frágil, hipócrita, em que as pessoas se tornam escravas dos olhares públicos e saem rindo até para os cães raivosos que querem mordê-las. Bem antes de Petrarca, em Pedro, livro bíblico, há também uma advertência sobre o uso dois enfeites externos: “A beleza de vocês não deve estar nos enfeites exteriores, como cabelos trançados e joias de ouro ou roupas finas. Ao contrário, esteja no ser interior…”

Em “Da solidão”, Montaigne diz que “é preciso romper com quaisquer obrigações imperativas”. Para ele, “a coisa mais importante do mundo é saber nos pertencer”. E quem não sabe se pertencer acaba se enjaulando no que o soneto raimundiano diz. Fato que as redes sociais têm explicitado nas muitas alegrias forjadas e exibidas. O que não quer dizer que toda alegria postada “Guarda um atroz, recôndito inimigo / Como invisível chaga cancerosa”. Há vida inteligente nas redes sociais. Nem tudo é joio, basta apenas não semearmos sementes entre pedras e espinhos em nossas relações.

Os dois tercetos de “Mal Secreto” explicitam bem uma certa relação entre as palavras de Pedro, Petrarca e Raimundo Correia:

“Quanta gente que ri, talvez, consigo

Guarda um atroz, recôndito inimigo

Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez existe,

Cuja ventura única consiste

Em parecer aos outros venturosa!”

Sinésio Dioliveira é jornalista. É colaborador do Jornal Opção.