Nilson Jaime

Especial para o Jornal Opção

Reflito, enquanto leio o livro “História das Mestiçagens no Brasil” (Editora Unesp, 2026), organizado pelos historiadores Mary Del Priore e Gian Melo.

Meu bisavô, João Gonzaga Jaime de Sá, supostamente branco (na verdade, mameluco, dodecaneto do Cacique Tibiriçá), genearca da família Jaime/Jayme, quando tinha mais de 40 anos, casou-se com sua ex-escravizada Leocádia, de 18 anos, após a viuvez de um primeiro casamento que lhe gerou nove filhos. Com Leocádia tiveram 15 filhos, inclusive meu avô.

Recentemente, uma professora universitária, da linha identitária, insinuou que essa relação seria fruto de “abuso”. Que um senhor branco  desposar uma jovem negra seria em razão de seu poder sobre ela.

Relatei para a docente o ritual que  se repetia diariamente, no Rio das Almas, em Meia-Ponte (depois Pirenópolis), durante muitos anos, ao final do século XIX.

Comerciante, pela manhã meu bisavô ia com os filhos homens tomar banho no “pesqueiro”. À tarde, na “ramalhuda”, ambos locais públicos de banho no rio nascido na Serra dos Pireneus.

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Gian Melo e Mary del Priore: historiadores que lançaram um livro polêmico | Foto: Arquivo pessoal

À beira d’água ele gritava:

— “Viva a natureza!” — “Viva!”, respondia em coro os meninos e rapazes.

— “Viva Nosso Senhor Jesus Cristo!” — “Viva!”, continuava em uníssono a rapaziada.

— “Viva Leocádia!” — “Viva!” E todos saltavam, folgazentos, nas águas geladas do Rio das Almas*.

Essa, a devoção que um senhor dedicava à jovem esposa, com quem teve 15 filhos.

Reflito que a mestiçagem pode ser fruto de amor, respeito e relacionamentos sólidos. Sem negar a violência que sempre ocorreu, quando se trata de relações inter-raciais — nem se esquecer dos 350 anos de escravidão —, é preciso respeitar as milhões de famílias que se formaram em alianças étnicas profícuas e bem sucedidas. Com muito amor, acentue-se. 

Em contraposição étnica ao que ocorrera com meus bisavós, há mais de um século, minha mãe, branca de olhos verdes, ao final da década de 1950, se casou com meu pai, preto, neto de ex-escravizada e modesto servidor público. Viveram felizes e harmoniosos por décadas, até a morte dele, em 1987. Tiveram 5 filhos, 12 netos e uma dezena de bisnetos e trinetos, até o momento.

Tal união seria por causa da dominação e poder que ele exerceria sobre ela?

[*Essa história está relatada nos livros “Pirenópolis: Humorismo e Folclore”, de José Sizenando Jaime, e “Família Jayme: Genealogia e Hhistória”, de minha autoria].

Nilson Jaime, doutor em Agronomia pela UFG, escritor e crítico literário, é colaborador do Jornal Opção.