Quem disse que não vivemos tempos para a poesia?

“100 poemas de até 100 caracteres” pode ser o épico dos nossos dias: poesia “inclassificada”, quadros que contam em microversos a experiência de um povo

Ana Medeiros: “Os poetas gozam de um universo de poucas palavras” | Foto: Arquivo Pessoal

Ana Medeiros: “Os poetas gozam de um universo de poucas palavras” | Foto: Arquivo Pessoal

Ana Medeiros
Especial para o Jornal Opção

Em 2015, o mundo lusófono comemorou os 100 anos da revista “Or­pheu”, empreitada que reuniu portugueses da envergadura de Fernando Pessoa, Sá-Carneiro, Violante de Cysneiros, além do brasileiro modernista Ronald de Carvalho. 2016 desponta como ano dos 400 anos da morte de dois imortais: Shakespeare e Cervantes. Desta breve introdução numérica depreende-se o apego da intelectualidade contemporânea às celebrações cronológicas. Mas, disse certa vez o poeta-professor espanhol Miguel de Unamuno (que completa 80 anos de falecimento), “lembrar é viver. Das esperanças das lembranças passamos às lembranças das esperanças”.

Diante de tantos algarismos que memoram datas — justamente no ano dos 40 anos do Jornal Opção —, um jornalista curioso e um grupo de escritores decidiram usar os números para contar poemas e caracteres. É o que se vê no “Desafio Poético” do Opção Cultural (Edição 2118), assinado por Yago Rodrigues Alvim (o tal curioso que se meteu a conversar com poetas). “100 poemas de até 100 caracteres”, título do desafio, é a nossa “Orpheu à brazileira” de 2016. Yago e seus co-autores Augusto Niemar, Sérgio Tavares e Walacy Neto buscaram uma centena de poemas “menores” que respondessem ao nosso tempo digital. Poesia, dizem, não se conta mais só com sílabas, métrica e estrofes, mas também com caracteres.

Quem disse que os nossos anos não estão para poesia? Algum néscio que desconheça gente como An­derson Braga Horta, Monique Revillion, José Santos, Nicolas Behr, dentre outros. As universidades, as revistas acadêmicas e os ensaios nas prateleiras de crítica literária. Estão todos ocupados em dissecar a literatura brasileira contemporânea, em prosa; a narrativa pós-moderna africana, também em prosa. Há romances que contemplam as causas de gênero, há contos sobre as questões do negro; e há novelas sobre narcotráfico e diários a respeito da emancipação feminina.

E na poesia, o que é que há? Há “nadas”. Uma variada e criativa exploração do nada — essa coisa que Freud chamou de mal-estar, que os vanguardistas chamaram de tédio e que a gente ocupada em nascer e morrer chama de vida. Os “Cem poemas” preocupam-se com banalidades que, aos poucos, vão sendo expulsas da prosa: o espetinho de contrafilé, a função soneca do despertador no smartphone, o tamanho do céu da boca na boca desejada, o apertadinho do quintal dos fundos, as palavras, palavras, palavras — que desde sempre conferem ao ser humano essa sensação imponente de estar no mundo. Escrever, aliás, é estar no mundo: “Tudo que não falseio é invenção”, sentencia Erivelto Carvalho.

Os poetas de “Opção” gozam de um universo de poucas palavras que podem conter todas elas, absurdamente. Porque o desejo maior, diz-nos o espanhol existente (e inexistente) no projeto, é “mudar/estilos y razones/demudar”. O vocábulo “demudar” não consta nos dicionários de Porto Cale e de Castela, como também não há registros, em cartó­rios/conservatórias, de que o poeta Larco A. Lopes tenha alguma vez existido.

Do artista e designer Lucas Ruiz, “Irina”; ilustração criada especialmente para o projeto “100 poemas de até 100 caracteres”, publicado recentemente no Opção Cutural, que reúne autores de todo Brasil e de outras partes do mundo

Do artista e designer Lucas Ruiz, “Irina”; ilustração criada especialmente para o projeto “100 poemas de até 100 caracteres”, publicado recentemente no Opção Cutural, que reúne autores de todo Brasil e de outras partes do mundo

Se o número é 100 e o tema são os outros, voltamos a Pessoa: “não tenho provas de que Lisboa tenha alguma vez existido, ou eu que escrevo, ou qualquer cousa onde quer que seja”. O grupo “Orpheu” concluiu que só não se podia questionar a existência da palavra — soberana nas páginas da “Ode Marítima”, de Álvaro de Campos, por mais que este não possua autonomia existencial. Hoje, o “movimento Opção” implementa: habitam o mundo os seres de palavras, que falam pouco — numa época em que se escuta menos ainda —, mas discursam para mudar, demudar, emendar sentidos outros.

A ousadia deste grupo de goianos, brasilienses, mineiros, paulistas, catarinenses, ibéricos e nortenses persiste: “Orpheu” assumiu a heteronímia; os de “Opção” fundaram a outronímia. Movimentos parecidos por reversos — heteronímia é dividir um em vários, outronímia é somar vários em um. Sim, “100 poemas de até 100 caracteres” pode ser o épico dos nossos dias: poesia “inclassificada”, quadros que contam em microversos a experiência de um povo, o povo-mundo que quer demudar o mesmo mundo, escrever menos para ler mais, ler o outro para se ler melhor, escrever com o outro para pactuar.

Um leitor dirá, “Alto lá! Que há aqui também heterônimos”. Certo, há. Niemar e T.S. Berlim, dizem, saíram de um mesmo deambulante dos goyazes. Não há provas de que, algum dia, Lemuel e Rafael Gandara tenham sido seres distintos. É certo que, há algumas décadas, o polonês Henryk Siewierski triplicou-se em poetas a espelho de seu mestre lírico, o português Agostinho da Silva. Previno-os de que nestes 100 poemas deve haver mais uma porção de heterônimos, uma coleção de pseudônimos, um sem número de autônomos.

Importa mais que aqui eles estão para existir, no coletivo, dividindo caracteres, para encher de palavras a tela, para atiçar na esperança dos leitores a memória de um tempo em que ainda se pode fazer poesia. Tempo de inteligência.

Se já voltamos outra vez a Miguel de Unamuno, finalizo com ele que, nos momentos derradeiros de sua existência, fez uma opção definitiva (de que parecem compactuar os coligados de “Opção”). Não se preocupem, digo em apenas 20 caracteres que valem para mais de 2 mil anos: ¡viva la inteligencia!

Ana Medeiros é graduada em Letras e Mestre em Literatura pela Universidade de Brasília. Atualmente, cursa Doutorado na mesma instituição. Brasiliense, estuda a poesia do Centro-Oeste desde 2010

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