O que torna um escritor profissional?

Escritores respondem à pergunta: profissionais são os que vivem da escrita ou da venda dos livros?

A realidade é dura e crua: o brasileiro não lê por prazer | Foto: Divulgação

A realidade é dura e crua: o brasileiro não lê por prazer | Foto: Divulgação

Anderson Fonseca
Especial para o Jornal Opção

No dia 25 de julho, no jornal O Globo, o es­critor Raphael Montes publicou um artigo sobre a profissionalização do escritor brasileiro associada à literatura de gênero. A razão de seu artigo deveu-se a comentários em uma rede social a respeito da “literatura brasileira produzida pela nova geração de escritores”. Segundo o autor, os comentaristas atribuíam a não-leitura dessas e outras obras à acusação de serem cópias da literatura norte-americana.

Em seguida, responde a esses comentários, afirmando bastar à obra ser escrita por um escritor brasileiro para ser brasileira. Depois, acrescenta que obras que retratam a alma humana “na sua complexidade” são o mérito da boa literatura. Antes, explicita que o mercado internacional desenvolveu certo interesse em livros que retratavam a favela, a miséria no Nordeste, o futebol brasileiro. Até aí tudo bem.

Não tenho o que discordar de Montes, até porque talvez Oswald de Andrade disse o mesmo: somos antropófagos, devoramos as influ­ên­cias e as transformamos em brasilidades. O erro do autor está em cometer certas extrapolações criando uma imagem incoerente com a realidade territorial. Isso se observa em duas assertivas, uma esmiuçada nas linhas seguintes e a outra mais a frente.

A primeira é: o número de pessoas que se dedicam a apenas escrever cresceu no país. De fato, o número de escritores cresceu graças à internet, as ferramentas que ela fornece, como blogs e redes sociais, jornais, e ao surgimento de editoras alternativas às grandes que monopolizam o mercado, criando, assim, um ambiente competitivo e inovador.

No entanto, comparando o número de livros publicados anualmente — considerando que, cada livro representa um autor que se dedica a escrever — com o número de autores que vivem apenas do que escrevem, é praticamente insignificante. E para atribuir ao valor crescente um grau de realismo, deveríamos levar em consideração o número de leitores.

Entretanto, é frustrante quando se volta para a realidade. O número de livros lido por brasileiros é dois por ano, em média. Se de cada, um fosse brasileiro — o que nunca iremos saber — poderíamos afirmar com tranquilidade, que um desses autores vive do que escreve e o percentual de escritores profissionais seria relevante.

Se acrescentarmos, ainda e hipoteticamente, que o mercado editorial é um território democrático, então, o autor de um livro, publicado por uma editora de pequeno porte, teria chances de viver do que escreve — não incluindo trabalhos de divulgação como oficinas, artigos para jornais, coordenação de projetos editoriais. Apenas, e, somente apenas, viver do livro.

Henrique Rodrigues: “No meio literário, o termo ‘profissional’ é pejorativo. Discordo. Como escritor me sinto profissional, um profissional da palavra” | Foto: Divulgação

Henrique Rodrigues: “No meio literário, o termo ‘profissional’ é pejorativo. Discordo. Como escritor me sinto profissional, um profissional da palavra” | Foto: Divulgação

Decidi assim perguntar a dez autores se se consideravam escritores profissionais. Do grupo, alguns são autores premiados, como Rafael Gallo (vencedor do Prêmio Sesc de Literatura, em 2012), Henrique Rodrigues, Paulo Bentancur e Alexandre Guarnieri (vencedor do 57º Prêmio Jabuti, na categoria de poesia). As respostas se diferenciaram baseadas no que cada um en­tende por escritor profissional.

Enquanto uns entendem como profissional aquele que se dedica exclusivamente à escrita, para outros, profissional é o que vive do que escreve. André Sant’Anna disse-me: “Escritor profissional é quem ganha dinheiro vendendo livros. Paulo Coelho é profissional”. Henrique Rodrigues, que além de escritor, com 13 livros publicados, é assessor de literatura do Sesc Nacional, afirma: “No meio literário, o termo ‘profissional’ é pejorativo. Discordo. Como escritor me sinto profissional, um profissional da palavra”.

Alexandre Guarnieri, por sua vez, respondeu-me: “O artista pode se dar ao luxo de recusar um trabalho, como qualquer outro profissional. Não é uma resposta fácil. Prefiro me ver como artesão. Pode ser que eu aceite encomendas, contanto que me seja dada liberdade estética. Logo, sou e não sou profissional”. Semelhante à de Guarnieri foi a resposta do escritor Marcelo Moutinho. Já escritores como Rafael Gallo, Maurício de Almeida, Joca Reiners Terron, Mariel Reis e Lean­dro Jardim não se consideram profis­si­onais.

Alexandre Guarnieri: “Prefiro me ver como artesão. Pode ser que eu aceite encomendas, contanto que me seja dada liberdade estética. Logo, sou e não sou profissional” | Foto: Divulgação

Alexandre Guarnieri: “Prefiro me ver como artesão. Pode ser que eu aceite encomendas, contanto que me seja dada liberdade estética. Logo, sou e não sou profissional” | Foto: Divulgação

O escritor João Paulo Cuenca afirma que não existe artista profissional. Perguntamos também a agentes literários quantos, de suas listas de autores, poderiam ser considerados profissionais. A resposta foi um, somente um autor poderia ser chamado de escritor profissional.

Qual seria a razão desta divergência quanto à expressão “escritor profissional”? O ínfimo número de leitores no Brasil: uma resposta óbvia até demais. Mas aí, fiz-me outra pergunta: quais são os livros e autores que mais os brasileiros têm o costume de ler?

Em 18 de maio, o Ibope divulgou o resultado da 4ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil. A pesquisa aponta os livros e autores mais lidos nos três meses anteriores. A surpresa foi o nome da youtuber Kéfera empatada com o escritor Machado de Assis. E quando se lê o nome dos outros autores citados como os mais lidos, a maior parte, sem exceção, encontram-se na lista de autoajuda ou religiosos.

Apenas Monteiro Lobato e Machado são citados como autores que o brasileiro conhece, graças à educação escolar e às telenovelas. Então, Kéfera ao lado de Paulo Coelho, Augusto Cury e todos os outros escritores citados podem ser considerados “profissionais”. Acrescentemos a isso que os livros mais vendidos, em 2015, foram os livros de colorir. Portanto, se há escritores profissionais, são poucos.

Em 2014, o escritor Santiago Nazarian, realizou uma pesquisa informal, publicada pela Folha de São Paulo. Ele perguntou a 50 escritores: do que você vive? A partir das respostas, Nazarian traçou um perfil do escritor brasileiro bastante interessante. Dos 50, só quatro autores afirmam viver da venda de livros; três da literatura juvenil/de entretenimento.

O restante dos entrevistados atribuem suas fontes de renda a atividades relacionadas à escrita, como realizar oficinas literárias, dar palestras, jornalismo e tradução. Nesse sentido, podem ser considerados escritores profissionais. Chama a atenção dez atribuírem sua fonte de renda a outras profissões exercidas — o que os coloca na outra ponta. Além disso, todos os autores entrevistados pertencem às editoras de médio e grande porte.

Logo, se considerarmos escritores os que vivem da escrita e, não da venda dos livros, dentro da realidade brasileira, estes são sim escritores profissionais. Se, no entanto, for levado em conta o número de livros vendidos e o alcance de leitores, não se pode considerá-los profissionais.

A segunda assertiva de Montes é: o crescimento da literatura de gênero no Brasil. O motivo, segundo ele, seria o distanciamento da academia. Quando obras brasileiras dentro da literatura de gênero eram produzidas, o mercado editorial não as recebia com bons olhos ou sequer chegavam a ser publicadas, devido a critica estar habituada à literatura de vanguarda.

Nesse ponto, concordo com ele. Minha discordância está em sua analogia da situação brasileira com a dos Estados Unidos, duas realidades absurdamente divergentes. Ainda mais quando nosso país é bombardeado com a cultura norte-americana.

Os livros mais citados por brasileiros são norte-americanos, en­quanto um número inexpressivo é nacional. A comparação feita por Montes me pareceu uma tentativa de aproximar nossa realidade da ianque; como se a literatura de gênero fosse alavancar o número de vendas e alcançar um número representativo de leitores. Se o autor tivesse incluído países como Argentina, Chile e Uruguai, seu argumento seria outro.

André Sant’Anna: “Escritor profissional é quem ganha dinheiro vendendo livros. Paulo Coelho é profissional” | Foto: Divulgação

André Sant’Anna: “Escritor profissional é quem ganha dinheiro vendendo livros. Paulo Coelho é profissional” | Foto: Divulgação

Em 2005, uma pesquisa divulgada pelo NOP World Reports Worldwide, feita com 30 países, colocou o Brasil na 27ª posição dos países que mais leem no mundo, enquanto a Argentina ocupou a 18ª. Na época, o brasileiro lia um livro por ano, em média, enquanto o argentino, quatro. Hoje, o brasileiro lê 2,5 livros — uma mudança nem tão significativa. E, apesar do Brasil produzir mais livros que o país vizinho (cerca de 446 milhões de exemplares), o número de leitores permanece inferior.

Se, no Brasil, o número de livros lidos por cada pessoa fosse semelhante ao do vizinho, seria possível que, de cada quatro livros lido, um fosse nacional, e a probabilidade desse único livro ser tanto de uma editora de pequeno porte quanto grande seria expressivamente maior. Nesse quadro, poderíamos afirmar que a literatura alcançou crescimento.

Quando a realidade é também comparada com o Uruguai e o Chile, os contrastes se acentuam. Nesses dois países, houve um crescimento do mercado literário. Em 2012, por exemplo, o Chile registrou 6.045 títulos e 2 mil, o Uruguai. Porém, no Chile a média de livros lidos ao ano por habitante é de 4,6 e o do Uruguai é 4. Quando então o autor compara com os Estados Unidos, torna-se absurdo, porque o norte-americano lê em média 5,2 livros por ano.

É óbvio, portanto, que o ter­mo “escritor profissional”, em ter­ras tupiniquins, limita-se apenas a quem vive da escrita, não do livro. Nessas terras, todos se tornam desconhecidos. Fenô­menos como Thalita Rebouças e Paula Pimenta ou ainda Raphael Draccon não podem ser explicados pela literatura de gênero, mas pela cultura de massa com forte influência norte-americana.

No dia em que o mercado literário se tornar democrático — realidade, acredito eu, que se aproxima — e o hábito de leitura do brasileiro modificar-se, aí sim será possível a profissionalização do escritor e a literatura de gênero poderá alcançar seu devido reconhecimento. Nada de utopias, nem apologismos. A realidade é dura e crua: o brasileiro não lê por prazer. l

Anderson Fonseca é autor do livro “Sr. Bergier e outras histórias”.

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Alessandro Garcia

Ótimo e profundo artigo. Parabéns, Anderson.

raul

Essa estória de dizer que o brasileiro não lê por prazer é uma generalização. Há um grande contingente de pessoas que, sim, leem por prazer e um contingente enorme que leem por hábito e outro tanto ainda maior que não lê.