Quando uma dor se torna atemporal

Em comemoração aos seus 50 anos, escola nos Estados Unidos batizada com o nome de John Hersey celebra o legado e a obra icônica do escritor e jornalista norte-americano, vencedor do Prêmio Pulitzer no ano de sua fundação. Após cinco décadas, livro segue comovendo o público. E assim precisa continuar

John Hersey em 1958, durante cerimônia de batizado da escola que leva seu nome

Arlington Heights é uma pe­quenina cidade localizada no estado norte-americano de Illinois, a cerca de 40 minutos da fa­mo­sa capital Chicago. Sua paisagem corresponde exatamente àquela imagem de cidade americana que absorvemos dos filmes da Sessão da Tarde, co­mo Esqueceram de Mim ou Cur­tin­do a Vida Adoidado: subúrbios com casarões de classe média e seus gramados impecáveis. Nada de grades ou muros, apenas uma cerquinha branca aqui e ali. E nas redondezas não poderia faltar um colégio high school onde todos estudam: nerds, cheerleaders e futuros astros do football.

Foi com esta moldura que tiveram início, neste mês de outubro, mais precisamente no dia 5, em Arlington Heights, as comemorações do aniversário de 50 anos de fundação da John Hersey High School. Inaugurada em 1968, a escola foi batizada com o nome do jornalista e escritor, vencedor do Prêmio Pulitzer daquele ano. Em discurso dedicado à escola, em 10 de novembro, Hersey disse: “Não consigo pensar em nenhuma honra em toda a minha vida afortunada – e incluo o Prêmio Pulitzer e os graus honorários e a eleição para a Academia Americana de Artes e Letras – que teve mais significado para mim do que este ”.

Capa da The New Yorker totalmente dedicada à reportagem de Hersey, “Hiroshima”

Mais do que fachada de escola, o nome de John Hersey ficaria gravado para sempre na história da Literatura. O norte-americano nascido na China, filho de um casal de missionários, é o autor da antológica reportagem “Hiroshima” publicada pela revista americana The New Yorker em 1946, infeliz ocasião do primeiro aniversário da explosão da bomba atômica, e que posteriormente se tornaria livro, disponível no mercado brasileiro pela Companhia das Letras. Na narrativa, o casamento entre a objetividade analítica do jornalismo e a sensibilidade da literatura é o fio-condutor da reportagem mais impactante sobre o fatídico 6 de agosto de 1945. Os acontecimentos deste dia provocaram marcas na história da humanidade que até então o tempo não conseguiu apagar.

Pontualmente às 8h15 da manhã, uma nuvem em forma de cogumelo se desenhava no horizonte. Um clarão iluminou a cidade de Hiroshima neste exato momento. Naquele dia, uma torre de poeira e fragmentos de fissão se ergueu no céu da cidade, deixando cair gotas tão grandes que se assemelhavam a bolas de gude. A radiação varreu os arredores, carbonizando o que encontrava pela frente. Aqueles que não haviam morrido imediatamente, começaram a vagar pela cidade, como se fossem mortos-vivos, em uma cena a la Walking Dead, numa via crucis em busca de ajuda médica nos hospitais devastados pelo ataque.

Obra premiada com o Prêmio Pulitzer relata o drama dos sobreviventes ao ataque a bomba à cidade japonesa de Hiroshima

Pessoas que se preparavam para mais um dia de trabalho foram transformadas em seres bizarros, queimadas em carne viva e extremamente mutiladas, com as órbitas oculares vazias – o líquido havia escorrido das córneas derretidas. Foi o caso dos soldados da defesa antiaérea, encontrados pelo padre Kleinsorge, que olhavam para cima quando a bomba explodiu. Outros sobreviventes – metade da população de 200 mil habitantes – vagaram em busca de socorro, comida, água e notícias de parentes e amigos.

As vidas dos seis personagens principais desta triste história estariam ligadas para sempre a partir do bombardeio, e, consequentemente, atreladas ao sofrimento de cerca de 200 mil pessoas. Através de um texto claro, objetivo, sem grandes exarcebações, o drama vivido pelos japoneses atingidos pela bomba atômica (os “hibakushas”) daria origem a um dos relatos mais comoventes da história do New Jornalism, ou Jornalismo Literário: Hiroshima, do repórter correspondente de guerra John Hersey.

Apesar da proximidade existente entre a literatura e o jornalismo, a aglutinação dos dois estilos começou no final da Segunda Guerra Mundial. Considerado um gênero “híbrido”, o jornalismo literário adequa o exercício intensivo de práticas jornalísticas de entrevistas e apuração de fatos à técnica da literatura. No Brasil, um dos representantes mais emblemáticos desta modalidade é Os Sertões, de Euclides da Cunha, publicado pela primeira vez no jornal O Estado de S. Paulo, em 1897. Um dos procedimentos mais importantes para os jornalistas literários é a o mergulho profundo no tema ou personagem sobre o qual se vai escrever.

Aos 32 anos, em 1946, John Hersey já era um repórter internacional consagrado quando os editores da The New Yorker o deslocaram da China ao Japão para produzir a reportagem que marcaria a passagem do primeiro aniversário da bomba. Ele ficou no país 20 dias e levou mais seis semanas para escrever o texto. Ao narrar os efeitos da bomba no cotidiano de cidadãos comuns de Hiroshima, Hersey trouxe o impacto da explosão para o dia-a-dia do norte-americano (e posteriormente para todo o mundo), provocando uma reflexão da América sobre a sua própria conduta de guerra.

A repercussão do texto foi tamanha na época que o fundador da The New Yorker, Harold Ross, e seu editor, William Shawn, decidiram, pela única vez na história, dedicar um número inteiro da revista para a reportagem de Hersey. A opinião pública americana ficou chocada ao descobrir a verdadeira dimensão do ataque à Hiroshima. No trabalho de Hersey, a tragédia japonesa finalmente tinha nome, rosto, família, sentimentos. A reação imediata foi o ódio pelo governo norte-americano, que passou a temer a reprovação de seus cidadãos. Até então, as verdades sobre Hiroshima eram censuradas e não disponibilizadas.

Quarenta anos mais tarde, com o propósito de finalizar sua investigação, Hersey retornou ao Japão, para reencontrar suas testemunhas oculares e conferir o que o futuro lhes reservou. Deparou-se com uma cidade próspera, alegre e moderna; uma nova Hiroshima ressurgiu, apesar do passado amaldiçoado, tal qual uma Fênix, renascida das cinzas radioativas. Inspiradas pelo mito, ou mesmo somente pela necessidade de seguir adiante, os seis personagens construíram seus destinos, e praticamente voltaram a vida normal.

A srta. Toshiko Sasaki; o doutor Masakuzu Fujii; a viúva Hatsuyo Nakamoura; o jesuíta alemão Wilhelm Kleinsorge; o médico Terufumi Sasaki e o pastor metodista Reverendo Kiyoshi Tanimoto deixaram um precioso legado para a humanidade. Independente do contexto no qual se viva, a história de vida destas seis pessoas torna a obra uma referência entre os grandes clássicos da literatura e do jornalismo: mesmo com um final “feliz”, a mensagem de “Hiroshima” é que os fins nunca justificarão os meios.

Voltando aos festejos da escola em Arlington Heights, cinco décadas depois de “Hiroshima” ter sido publicado pela primeira vez em 1946, os estudantes da John Hersey High School, juntamente com ex-alunos, foram estimulados a refletir sobre o espírito generoso do autor vencedor do Prêmio Pulitzer durante a 50ª comemoração anual. Após a primeira reimpressão de seu premiado livro, o autor John Hersey fez questão de doar todo o dinheiro das vendas à Cruz Vermelha. O exemplo do autor deixou frutos para a pequena cidade norte-americana, mas sua obra nunca encontrou barreiras e tornou-se atemporal. O testemunho das vítimas japonesas nos comove até hoje e é preciso que continue assim. As feridas e marcas deixadas pela atrocidade humana podem fechar e até se apagar, mas nunca podemos perder a empatia e a capacidade de se chocar diante da barbárie.

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