Quando a visibilidade de artistas vive colada à hipocrisia ou à mediocridade

A mídia destacou a morte de Ricardo Boechat como se fosse um estadista, mas deu menos espaço à morte de Bibi Ferreira

Brasigóis Felício

Especial para o Jornal Opção

O erro social de tornar-se artista compensa, em muitos casos, a pena imposta aos que fogem à vala da vida comum: faz que escapem de serem nulos em visibilidade, porém adaptados à mediocridade, vistos pela sociedade como tendo pouca ou nenhuma credibilidade.

No caso das mulheres, no tempo e em torno da era de Leonardo da Vinci, ainda muito mais do que hoje.

Ricardo Boechat, jornalista | Foto: Reprodução

Elas tinham que ter muito mais arrojo e coragem do que os homens, para se imporem perante uma época que, em relação a seu gênero, era cruel e implacável, e quase nada perdoava.

Nossos modernosos dias de hoje, longe de ser pautados por uma rígida moral Vitoriana — muito ao contrário disso, são  liberticidas pós-tudo, pugnando pela instalação do vale tudo, valendo até mesmo o misturar ou o a simples extinção dos gêneros biológicos masculino e feminino, responsável, entre outras coisas, pela continuação da espécie humana.

Tempo marcado pela vasta e milionária indústria da pornografia, infiltrada em todas as mídias, de modo sub-reptício-subliminar ou de forma aberta e afrontosa, a todos os públicos e idades — que ao mesmo tempo institui pesadas punições até para uma simples cantada, ou tentativa de sedução, a mulheres que são “representadas” por coletivos políticos empoderados, que desfilam seminuas, em atos de vandalismo e profanação de símbolos religiosos, consideradas por elas “conservadores” e retrógrados.                                            *

Passados os primeiros dias do luto nacional pela passagem ou saída trágica deste mundo, por parte do jornalista Ricardo Boechat, argentino naturalizado brasileiro, torna-se possível fazer com que alguma verdade tenha algum — mesmo que mínimo — espaço de presença e circulação.

Bibi Ferreira, atriz e cantora | Foto: Reprodução

Para fazer registro do quanto torna-se a cada mais acachapante — e decepcionante — a inversão de valores, em todo o mundo, e mais acentuadamente no Brasil, um país que é intenso e imutável, nesta prática coletiva da desconstrução da verdade da vida e dos fatos da sociedade e da existência dos indivíduos.

Falo da assustadora e habitual em confundir o meio com a mensagem — vide a preferência de todas as mídias do jornalismo, e até dos meios artísticos, em dar ao trágico acidente que levou o notável jornalista Boechat deste mundo um espaço que costuma ser dado, em intensidade e volume emocional, à morte trágica de um presidente da República — a exemplo de Getúlio Vargas, Juscelino Kubistchek e Tancredo Neves.

Em descompensação, na mesma semana, quase no mesmo dia, morre Bibi Ferreira, talvez a dama mais amada e famosa do teatro brasileiro, e a cobertura dada à sua passagem não chega a 1% do que se deu a Boechat e o acidente que o tirou dos estúdios.

Uma saiu dos palcos, onde a verdade, as contradições e os conflitos da vida são representados, o outro sai dos estúdios de rádio e televisão, onde o mesmíssimo cenário é noticiado e comentado.

Neste caso, deu-se mais importância ao mensageiro do que à mensagem. Em midiático espetáculo de endeusamento feito em nível torrencial ou tsunâmico, privilegiou-se quem faz — ou dá a notícia —, dando menoríssima importância à vida e morte de quem teve quase sua longa existência dedicada ao teatro, e à sua versão musical, com interpretação inigualável e magistral da cantora francesa Edith Piaf.

“Tempos estranhos estamos vivendo, nesta quadra da nação”, diria o gongórico e palavroso ministro Marco Aurélio Mello, sendo ele mesmo parte do extravio da sensatez e do equilíbrio, nesta pátria espandongada que sofremos e vivemos.

Enquanto tal acontece, a partir da Corte Suprema, descendo aos terreiros, palácios, convescotes de assembleias e empoderamentos de menor escalão (de médio ou baixo calão), seguem, de vento em popa, projetos de crescimento do coletivo e geral emburrecimento, atingindo gente de todas as classes e estratos da sociedade.

Cientistas comprovam: QI (Quociente de Inteligência) de brasileiros caiu em média 30%, nos últimos anos.

Políticas de emburrecimento da sociedade dos humanóides, disseminadas em escolas e universidades, nos meios de comunicação, contribuíram para o desastre.

Estiveram a serviço desta invisível e trágica operação desmonte da inteligência.

Já o índice de domínio do QI (Quem Indica), bússola e roteiro do nepotismo, compadrismo, do “sabem com quem você está falando”, e outros males da nossa cultura do jeitinho e do amaciamento, não para de crescer.

É visível, perceptível a quem tenha olhar atento: as linguagens do emburrecimento são as que mais têm dado Ibope, nestes tempos ditos modernos.

Comparando com tempos ditos “atrasados”, como fim de Século 18 e todo o século 19, o nível de inteligência coletiva, nestes tempos midiáticos e hiperconectados, não passam de mixórdia.

E já naqueles tempos gênios como Lima Barreto padeceram infernos, via da solidão intelectual a que foram expostos.

Ele é um caso dramático. Com todo o seu talento, não foi reconhecido em seu tempo.

Era suburbano, mulato, e vinha de família humilde. Acabou virando bêbado contumaz. E enlouquecendo. Seu “Diário do Hospício” é um grito de revolta.

Que não foi ouvido em seu tempo, e menos ainda seria escutado nos dias “modernosos” e “politicamente corretos” de hoje. Hay que emburrecer-se, sin perder La ternura, jamás!”.

Brasigóis Felício, poeta e prosador, é colaborador do Jornal Opção.

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