Qual o problema da felicidade?

Cristiano Pimenta*
Especial para o Jornal Opção

Para Freud, a felicidade é uma experiência de prazer episódica. No mundo atual, a pulsão de vida, ligada ao gozo, é posta em segundo plano — talvez o “x” da questão

Em “À Procura da Felicidade”, o personagem Chris Gardner, após ultrapassar diversas dificuldades ao lado do filho, se dá conta que uma pequena parte de sua vida se chama “felicidade”. O longa é um exemplo da definição freudiana, em que a felicidade é pontual e evanescente | Foto: reprodução

Em “À Procura da Felicidade”, o personagem Chris Gardner, após ultrapassar diversas dificuldades ao lado do filho, se dá conta que uma pequena parte de sua vida se chama “felicidade”. O longa é um exemplo da definição freudiana, em que a felicidade é pontual e evanescente | Foto: reprodução

Quem não se lembra do filme “À Procura da Felicidade” (2006), com Chris Gardner (Will Smith) no papel de um pai de família mergulhado em dificuldades financeiras e tentando vender um aparelho de exames médicos que quase nenhum médico queria comprar? A situação fica ainda pior quando sua mulher, Linda (Thandie Newton) — com pouco amor para dar — abandona tanto o marido quanto o filho. Chris decide, então, assumir sozinho todos os cuidados com a criação de seu filho (Jaden Smith) de apenas cinco anos de idade. O extremo do desespero ocorre quando, sem dinheiro para pagar as despesas, Chris é despejado do quarto em que vivia e, sem ter para onde ir com seu filho, vai parar na estação de metrô. Para apaziguar a angústia do filho, e talvez a própria, Chris inventa uma estória, uma fantasia: “Temos que encontrar uma caverna para nos escondermos dos dinossauros que estão nos perseguindo!”. A caverna encontrada é o banheiro da estação, onde ambos passam a noite. Ali Chris chora, mas seu filho está feliz, dorme como um anjo.

O uso de uma fantasia para apaziguar o sofrimento de uma criança também ocorre em “Melancolia” (2011), belo filme de Lars Von Trier. Com o planeta Terra prestes a ser destruído pela colisão com o enorme planeta Melancolia, não deixando nenhuma possibilidade de salvação à raça humana, Justine (Kirsten Kunst) constrói uma “caverna mágica” para acolher o sobrinho abandonado pelo pai. Este havia se matado covardemente ao saber que seus cálculos estavam errados e que haveria mesmo o choque entre os dois planetas. Essa caverna mágica, construída com galhos e gravetos, torna-se uma proteção simbólica e imaginária contra o real da morte iminente; torna-se também uma bela representação do humano, em sua essência de fragilidade, frente ao real impossível de ser suplantado. Vale também lembrar que o uso das cavernas, bem como o ato de pintar em suas paredes, pode ser visto como um dos primeiros atos de humanização (Lacan, 1991). A caverna, como o vaso moldado pelo oleiro, delimita um lugar, suas paredes criam e, ao mesmo tempo, contornam o vazio em seu interior. Para Lacan, a existência do vazio é um traço essencial presente no centro do mundo humano.

No filme “Melancolia”, Justine constrói uma “caverna mágica” para se defender da morte iminente. É uma bela representação do humano, em sua fragilidade, frente ao insuportável; bem como as fantasias que nos dão gozo | Foto: reprodução

No filme “Melancolia”, Justine constrói uma “caverna mágica” para se defender da morte iminente. É uma bela representação do humano, em sua fragilidade, frente ao insuportável; bem como as fantasias que nos dão gozo | Foto: reprodução

Nesse sentido, as nossas fantasias possuem uma função importante, elas preenchem esse vazio que nos é insuportável. Para Sigmund Freud, o recurso à fantasia é um princípio básico de funcionamento da mente, o princípio do prazer. A criança, desde muito cedo, é capaz de “alucinar” a presença da mãe lhe trazendo os objetos de sua satisfação — e dessa alucinação a criança extrai prazer. Por outro lado, é a insuficiência do princípio de prazer em proporcionar uma satisfação real o que compele o sujeito em di­re­ção ao mundo externo, ao princípio de realidade. Contudo, o fantasiar jamais deixará de ser, em Freud, um recurso para tornar a vida mais feliz.

Mas voltemos ao filme protagonizado por Will Smith, pois tem mais a dizer sobre a felicidade. A situação de penúria e humilhação vivida por pai e filho subsiste ao lado do empenho de Chris em ser contratado por uma importante corretora de ações na qual conseguiu uma vaga de estagiário. O final do filme culmina em sua conquista. Ao receber a notícia de sua contratação, ele sai alucinado e transbordante em meio à multidão e diz: “Essa parte da minha vida, essa pequena parte, se chama felicidade”. A felicidade para Chris é esse breve momento em que ele recebe a notícia e vai abraçar seu filho. Ela não é, portanto, sua vida futura, da qual somos informados de que ele veio a se tornar um milionário desse ramo de negócios. Eis aí um exemplo de uma felicidade pontual e evanescente, coerente com a definição freudiana de que a felicidade é “uma experiência de intensos sentimentos de prazer e sua manifestação é apenas episódica” (Freud, 1930).

Todavia, não seria correto dizer que, nesse mesmo filme, a felicidade está também na relação pai e filho? A vida de penúria os aproxima. O filme nos mostra uma história de amor e dedicação de Chris ao filho abandonado pela mãe. Aqui poderíamos conjecturar: extinguida tal situação de pobreza, nada garantiria que essa felicidade iria permanecer na vida futura, doravante abastada. Por esse ângulo, a felicidade é o que já possuímos, sem muitas vezes nos darmos conta, e é também o que podemos perder. Vale lembrar os depoimentos de pais e mães que perderam traumaticamente um filho. Eles dizem terem perdido a felicidade.

De todo modo, uma coisa é certa, a felicidade que temos ou que experimentamos é sempre insuficiente para fazer frente ao sofrimento a que estamos condenados. A frase lapidar de Freud em seu “O Mal-Estar na Civilização” (1930) é precisa: “A intenção de que o homem seja feliz não se acha incluída no plano da Criação”. A tese fundamental que Freud defende nessa obra é a de que “a civilização é construída sobre uma renúncia à satisfação pulsional”. Seja pela via da sublimação (que é uma renúncia a uma satisfação pulsional direta em beneficio de atividades elevadas, como a ciência e a arte), seja pela via da repressão, que gera distúrbios, neuroses etc.; o fato é que não há vida civilizada, humanizada, sem um ir contra as exigências primitivas da pulsão, cuja satisfação nos traria prazer.

Assim, para Freud, o prazer requintado que experimentamos, por exemplo, ao irmos a um café ou a um restaurante, é sempre um prazer limitado, bem menos intenso do que os sentimentos de ódio e de agressividade que experimentamos no trânsito das nossas cidades. Não podemos negar que, naquele exato momento em que um motoqueiro imprudente invade perigosamente nosso espaço, somos tomados por uma vontade louca de aniquilá-lo. Contudo, como somos civilizados, nós o maltratamos apenas no campo de nossas fantasias. Ao nível da realidade externa, sublimamos nossa agressividade, transformando-a no máximo numa buzinada. Outro exemplo, tornado famoso pelo artigo de Freud (1930), é a divertida passagem extraída do texto do poeta alemão Heinrich Heine chamado “Gedanken und Einfälle”. Diz Heine: “Minha disposição é bastante pacífica. Os meus desejos são: uma humilde cabana com um teto de palha, mas boa cama, boa comida, o leite e a manteiga mais frescos, flores em minha janela e algumas belas árvores em frente à minha porta. E, se Deus quiser tornar completa a minha felicidade, me concederá a alegria de ver seis ou sete de meus inimigos enforcados nessas árvores. Antes da morte deles, eu, tocado em meu coração, lhes perdoarei todo o mal que em vida me fizeram. Deve-se, é verdade, perdoar os inimigos — mas não antes de terem sido enforcados.”

Para Sigmund Freud, não há vida civilizada se ela não for contra as exigências primitivas da pulsão | Foto: reprodução

Para Sigmund Freud, não há vida civilizada se ela não for contra as exigências primitivas da pulsão | Foto: reprodução

Por outro lado, essa elaboração freudiana de que “a civilização é construída sobre uma renúncia à satisfação pulsional” não nos daria uma chave para entendermos pelo menos um dos aspectos presentes nos ataques terroristas que os jihadistas realizaram em Paris? O ato brutal, executado pelos terroristas — matar pessoas inocentes se explodindo ou se aniquilando logo em seguida —, deve ser visto como a realização de uma satisfação pulsional absolutamente intensa. Sem dúvida, trata-se de uma satisfação paradoxal cujo nome apropriado é pulsão de morte. Visto por esse ângulo, torna-se ingênua a leitura que faz Contardo Calligaris em sua coluna na “Folha de S. Paulo”, a de que “para os jihadistas, os mortos de Paris representam suas próprias tentações internas (deles jihadistas)”, “os jihadistas atacam em nós o que mais os seduz”. Ora, é apenas sob um aspecto secundário que eles são os reprimidos pela religião e nós os pagãos livres para gozar. Em um nível mais fundamental, de um gozo transgressor e efetivamente experimentado, os jihadistas não têm nada o que invejar; nós é que somos os reprimidos. O ato terrorista praticado em Paris é desumano, não-civilizado, justamente por não conter a satisfação de aniquilar o inimigo. O que nós nos permitimos apenas em fantasias, os jihadistas realizam em ato. Aqui nos deparamos com o que dificulta o entendimento do terrorismo islâmico: há nele uma aliança paradoxal entre religião e um gozo transgressivo e mortífero. Não se trata, portanto, de uma religião empenhada simplesmente na repressão das pulsões.

Assim, ao contrário do que postula Calligaris, os verdadeiros “seduzidos” são os ocidentais, sobretudo os jovens, adolescentes e até crianças. Proliferam os casos de jovens franceses, belgas, italianos, ingleses, dentre outros, que, recrutados pela internet, se dirigem à Síria para se juntarem ao Daesh. Isso não evidencia que os jovens de nossa civilização ocidental se encontram, de algum modo, desamparados, por assim dizer, sem nenhum projeto consistente de felicidade? Ora, ser jovem hoje em nossa cultura é estar numa situação na qual não se possui um ponto de sustentação emocional e subjetivo em si mesmo (um sonho, um projeto a ser realizado, qualquer que seja). Ser jovem hoje é não ter o que Chris Gardner, em sua extrema pobreza material, tinha: negro, em um país racista, faltava-lhe tudo, menos um ponto de certeza, ainda que absolutamente subjetivo. Sem esse ponto de certeza, o futuro do jovem adolescente hoje acaba se tornando um futuro “líquido” no sentido de Zygmunt Bauman (Philippe La Sagna). Dentre as possibilidades que o futuro oferece, nenhuma se sustenta, nenhuma encontra um ponto de certeza interior.

Essa ausência de sustentação em si mesmo, essa incerteza, deixa o sujeito entregue a um vazio que não é falta de algo, mas sim um real insuportável e sem mediação. E nesse desamparo, qualquer experiência extrema de gozo pode tornar-se sedutora. É assim que o islamismo extremista torna-se, para muitos adolescentes, uma verdadeira tábua de salvação (Jacques-Alain Miller). O que encontramos no que é ofertado pelo Daesh? Primeiro, as cenas de decapitação, feitas por carrascos que não vacilam. Essas cenas se tornaram uma oferta de um gozo transgressivo e extremo, irresistível para muitos. Mas, junto com esse gozo, há também a oferta de referenciais de identificação firmes e, digamos, nada líquidos. O islã prescreve a conduta correta que torna uma mulher e uma mãe dignas desse nome. Por exemplo, jamais andar sem uma burca, etc. Do lado do homem, igualmente, as coordenadas também são estabelecidas. Toda a conduta social é controlada rigidamente. Portanto, o jihadismo seduz porque oferece uma resposta, uma espécie de solução para o vazio deixado por nossa sociedade líquida. Mas ele responde a isso por meio de uma aliança paradoxal entre referenciais de identificação rígidos com um gozo extremo da pulsão de morte, aquele experimentado pelo decapitador e pelo homem bomba.

Assim, por mais paradoxal que pareça, um jihadista é feliz. Trata-se, é claro, da felicidade alienada da pulsão de morte, que culmina no ato extremo do terror. Mas, ao sacrificar sua vida, ele realiza uma missão, vai em direção ao céu, ao encontro com Alá, por meio, justamente, de “uma experiência de intensos sentimentos de prazer (gozo) e cuja manifestação é necessariamente episódica”, para relembrarmos a definição freudiana de felicidade.

À guisa de conclusão, não poderíamos mais que apontar uma direção quanto à questão do problema da felicidade. Penso que somos convocados a criar novos referenciais de identificação capazes de respeitar e mesmo de se basear na singularidade de cada um. É preciso se reinventar para que a vida, como se diz, tenha um sentido. Coisa extremamente difícil numa sociedade capitalista e consumista como a nossa. Por outro lado, só haverá felicidade se esses referenciais estiverem aliados a um modo de satisfação que faça prevalecer a pulsão de vida. Portanto, a questão sobre o modo como satisfazemos a pulsão é fundamental. Qualquer tentativa de felicidade que menospreze as exigências pulsionais vai fracassar. Vale dizer, de passagem, que tal empreitada é o que deve ser o objetivo de um autêntico tratamento psicanalítico. Em outras palavras, trata-se de que cada um de nós possa construir sua própria caverna mágica e com ela enfrentar os desafios que a conturbada vida contemporânea nos impõe.

*Cristiano Pimenta é psicanalista e membro da Escola Brasileira de Psicanálise (EBP) e da Associação Mundial de Psicanálise (AMP); é graduado em Filosofia (USP) e mestre em Psicologia Clínica (UNB).

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