Quadrinhos para ler e lembrar dos 80 anos do início da Segunda Guerra Mundial

Maus, Gen — Pés Descalços, O Boxeador — A História Real de Hertzko Haft, e Sorge, O Espião são obras com visões diferentes sobre o tenebroso período

Art Spiegelman, um gênio dos quadrinhos

Em 1º de setembro, há 80 anos, começava o maior conflito da história, a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), com a invasão da Polônia pela Alemanha. O período que vitimou cerca de 72 milhões pessoas, 40 milhões de civis, teve fim no dia 2 de setembro de 1945, com a rendição do Japão — os nazistas alemães se renderam antes, em 8 de maio de 1945.

O período, considerado como um dos mais trágicos da história, rendeu uma série de obras em quadrinhos. Neste texto, vamos citar algumas.

Maus, de Art Spiegelman

Provavelmente a mais importante obra em quadrinhos do século passado, “Maus” conta a história de Vladek Spiegelman, judeu polonês e pai do autor, Art Spiegelman. O material, publicado originalmente em duas partes (1986 e 1991), foi lançado no Brasil em 2005, pela Cia das Letras. A obra tem 296 páginas e formato 22,4 x 15,6 cm. A tradução é de Antonio de Macedo Soares.

A graphic novel acompanha Vladek desde o começo ao fim da guerra e mostra como o judeu sobreviveu, dentre outras coisas, ao campo de concentração-extermínio de Auschwitz, na Polônia A história, que em algum momento vai pintar nessa coluna, mescla momentos da guerra, no passado, com as entrevistas de Art ao pai, no que seria o presente, em uma espécie de reportagem em quadrinhos.

O mais interessante é que Art Spiegelman optou por representar os judeus como ratos, os nazistas como gatos, os poloneses não-judeus como porcos e os estadunidenses como cães. A importância da obra é tanta que, em 1992, venceu o Prêmio Pulitzer de literatura. O Pulitzer é a maior premiação jornalística dos Estados Unidos.

Para o jornal “Washington Post”, o material, que é todo em preto e branco, é “um triunfo modesto, emocionante e simples — impossível descrevê-lo com precisão. Impossível realizá-lo em qualquer outro meio que não os quadrinhos”. Já o “Wall Street Journal” postula: “A narrativa mais comovente e incisiva já feita sobre o Holocausto”. Para mim é simplesmente a obra em quadrinhos mais importante já realizada. É aquele momento em que os quadrinhos ombreiam-se com os livros densos de história.

Gen — Pés Descalços

Para a Alemanha, a Segunda Guerra terminou em 8 de maio de 1945. Adolf Hitler cometeu suicídio antes, em 30 de abril. “Em 23 de abril, [Heinrich] Himmler encontrou o diplomata sueco, conde Folke Bernadotte. (…) [Himmler] autorizou Bernadotte a dizer que aos aliados que a Alemanha se renderia a eles. (…) Quando a notícia foi transmitida pela Rádio BBC, Hitler mal pôde acreditar na ‘traição’”, relata o historiador britânico Laurence Rees no livro “O Carisma de Adolf Hitler” (Leya, 400 páginas, tradução de Alice Klesck), sobre a motivação do líder nazista em se matar.

Mas “Gen — Pés Descalços” não trata da Alemanha, mas do Japão, país que só se rendeu, em 2 de setembro, dias após o lançamento das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki (6 e 9 de agosto). A obra de Keiji Nakazawa é autobiográfica e se passa em Hiroshima. O autor, Keiji Nakazawa, nasceu na cidade, em 1939, e perdeu toda a família, exceto a mãe, no ataque dos EUA. Ele faleceu em dezembro de 2012.

Por aqui, o primeiro volume (de dez) foi lançado em 2011 pela Conrad. Este possui 280 páginas e formato 20,8 x 14 cm.

O Boxeador — A História Real de Hertzko Haft

Já comentei esta obra magnífica no Jornal Opção. A HQ mostra a história do judeu Hertzko Haft, mais tarde, nos Estados Unidos, Harry “Herschel” Haft, que fraco e mal alimentado, durante a Segunda Guerra, lutou para entreter alemães, em Auschwitz. Ele ainda lutou depois do conflito nos EUA e teve 12 vitórias, sete delas por nocaute; e oito derrotas, sendo cinco por nocaute —sua última luta foi contra Rocky Marciano em um combate polêmico.

O título do quadrinista Reinhard Kleist, “O Boxeador — A História Real de Hertzko Haft”, saiu por aqui em 2013, pela editora 8Inverso, mas originalmente em 2012, pela editora dinamarquesa Carlsen Verlag. Mais que uma história de boxe, a trama foca na sobrevivência e no amor — que foi interrompido pela guerra, mas nunca esquecido.

No formato 24 x 17 cm, o título, que é narrado pelo filho do pugilista, Alan Scott Hasft, tem 198 páginas. A história de pai pra filho só foi contada 40 anos após o fim da guerra. Esta rendeu um livro, que posteriormente virou HQ e ainda irá para os cinemas.

Sorge, O Espião

“Sorge, O Espião” (272 páginas, formato 23,6 x 16,4 cm) saiu por aqui em 2014. A obra, que conta a história real do agente duplo Richard Sorge (jornalista alemão a serviço da União Soviética), foi lançada pela quadrinista alemã Isabel Kreitz, baseada em descobertas recentes e pesquisas históricas. (Uma curiosidade: Sorge conheceu Olga Benario, a alemã que teve uma filha com o brasileiro Luiz Carlos Prestes. Olga foi entregue ao governo de Hitler pelo governo de Getúlio Vargas e morreu num campo de concentração nazista. A filha do casal, Anita Leocádia Prestes, é viva e mora no Rio de Janeiro. Ela tem 82 anos.)

Em sua obra, a autora mostra um herói contraditório, desesperado, bon vivant, mulherengo, mas pronto a morrer pelos seus ideais.

Sorge nasceu em 4 de outubro de 1895, combateu na Primeira Guerra, em 1914, como voluntário e, em 1925, se mudou para Moscou, na Rússia, onde se tornou membro do Partido Comunista Soviético. Ele foi enviado à China, em 1930, pelo serviço de espionagem do Exército Vermelho e em poucos anos ganhou reputação como jornalista independente. Já em 1933 ele foi enviado ao Japão com intuitos, também, de espionagem.

Richard Sorge: o alemão que espionou para os soviéticos

Em 1937, ele chegou a dar informações sobre a operação Barbarossa e, também, que o Japão não atacaria a União Soviética. Mais tarde, esses dados permitiram a Stálin reposicionar seus exércitos e vencer a batalha de Stalingrado (1942-1943). Aliás, se tivesse levado totalmente a sério as informações de Sorge, Stálin poderia ter evitado parte dos estragos feitos pelos alemães na União Soviética.

Mas, em 1941, um jornalista japonês que atuava com Sorge foi preso e entregou o colega, que foi detido em 18 de outubro de 1941, em Tóquio. Ele foi torturado, mas continuou a negar seu envolvimento com a URSS. Em 1944 ele foi enforcado, após a União Soviética se negar a negociar com o Japão e também conhecimento sobre Richard — que, em 1964, recebeu o título de Herói da União Soviética.

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