Psicanalista Maria Rita Kehl e cineasta indígena Vicent Carelli participam do Fica 2015

Encontro teve como tema “Índios, os maiores defensores do meio ambiente”. A demarcação de terras foi muito discutida

Yago Rodrigues Alvim

Na tarde de sábado, a jornalista e psicanalista Maria Rita Kehl e o cineasta indígena Vicent Carelli foram os convidados especiais da mesa “Índios, os maiores defensores do meio ambiente”, do Fica 2015, realizada na Unidade de Sant’Ana da UFG, na Cidade de Goiás.

Vicent falou da perspectiva histórica indígena do senso comum que, como cita Viveiros de Castro, é que existem dois tipos de índio: os que são ainda e os que não são mais. Segundo o cineasta, o Brasil tardou em se declarar um país pluriétnico – o que aconteceu apenas na Constituição de 1988.

O cineasta contou de suas visita ao cacique Babao Tupinambá, que sofreu decreto de mais de 30 prisões. A grande dificuldade que tiveram ao visitar os índios, como contou ele, é que eles perguntavam se os agressores da ditadura militar seriam punidos, pois muitos índios foram prendidos e agredidos diversas vezes.

Tradicionalmente, os índios consideram que a terra é um bem de todos e que não se pode brigar por ela. Ele explicou que muitos indígenas que perderam as suas terras começaram um processo de retomada. “Nós em pleno século XXI, nós ainda recebemos notícias de genocídio”, lamentou. A diferença de perspectiva de produção, o uso da terra é algo imenso entre indígenas e latifundiários e até pessoas de senso comum.

“Desde 500 atrás, tenho sofrido massacre e isso é lamentável para o Brasil. Nós ainda sofremos matança, que não são punidas e somos considerados um povo diferente e nós temos direito e nós temos direito. Branco tem que reconhecer que é genocídio. Eu sei que não são só os índios que estão sofrendo, tem muitos brancos menos favorecidos que estão sofrendo também”, dizia o Guarani Kaiowá Elpídio Pires, em um trecho do filme “Martírios”, vídeo-depoimento apresentado durante a mesa de bate-papo.

“A retomada dos Tupi Guarani não vai atrapalhar em nada os fazendeiros. Será que o Brasil não vai entender a importância dos índios?”, deixou Vicent, aos presentes, como reflexão. O cineasta lembrou a declaração do deputado Nion Albernaz, em que ele afirmou que o bem mais importante da vida do homem é a propriedade. Vicent arrematou: “No último filme que fiz, eu agradeço a ele por cultivar o câncer de uma sociedade que caminha, cada vez mais, para barbárie”.

“Quando eu visitei os Suruí, me perguntei por uma primeira vista, como qualquer outro leigo se pergunta “por que é que eles querem continuar sendo índios”, pois eles estavam tão tristes e deprimidos. Eram quase uma favelinha na mata. Eles sofrem uma anistia, pois ficam refugiados, recebem uma bolsa alimentação, mas não podem caçar, não podem fazer nada”, lamentou Kehl.

A Comissão da Verdade foi lembrada durante o encontro. A secretaria Raquel Teixeira estava presente. O professor Lisandro Nogueira mediou o evento.

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