“Precisamos de apoio para que as manifestações artísticas sobrevivam”

Diretora da Quasar Cia de Dança, Vera comenta o atual cenário que, por sorte, ainda tem no calendário cultural a mostra de dança contemporânea Paralelo 16

O grupo mineiro de dança Camaleão abre a mostra de dança com o espetáculo “Retina”, que fala do olhar sobre a breviedade e rapidez da contemporaneidade

O grupo mineiro de dança Camaleão abre a mostra de dança com o espetáculo “Retina”, que fala do olhar sobre a breviedade e rapidez da contemporaneidade

Yago Rodrigues Alvim

O ano de 2015 foi sem dúvida da dança. Como alguém do teatro e que vive a cena cultural em Goiânia, dá para dizer acertadamente que recebemos diversos grupos de dança, em especial da dança contemporânea. Claro, é preciso ressalvar que os festivais de música independente também ganharam a nossa rock city. O ano de 2016 não começou tão diferente. E, como prova, pode assinalar na agenda que os próximos dias são de Paralelo 16 e Bananada.

Num papo com Vera Bicalho, diretora geral da mostra de dança contemporânea Paralelo 16 e também diretora da Quasar Cia de Dança, ficou bem claro que as artes não têm vivido um bom tempo no atual cenário brasileiro. “Nenhuma área”, retifica ela. Como bem explica, há uma retração de movimentos e demais ações da cultura. Devido a diversos cortes, o trabalho de artistas tem sido afetado diretamente — tanto na dança, no teatro, circo, artes visuais, cinema e demais.

Vera Bicalho também dirige o Para-lelo 16, que chega a sua 8ª edição

Vera Bicalho também dirige o Para-lelo 16, que chega a sua 8ª edição

— Atualmente, o artista realiza um trabalho muito vinculado às políticas públicas. Não temos condições, por exemplo, de articular eventos artísticos com um perfil conceitual e não tão comerciais — aqueles de receita fácil —, pois tais eventos não sobrevivem com bilheteria; então, é preciso de apoio para que estas manifestações artísticas sobrevivam e que continuem no calendário cultural da cidade. E temos outras dificuldades, como na liberação de espaços públicos para execução de projetos. Ou seja, são várias instancias que dificultam a vida do artista, da arte.

Por sorte, o Paralelo 16 continua vivo. Com toda sua liberdade de curadoria — que infere na diversidade temática dos espetáculos —, a mostra é um bom pedido para o público goiano conhecer trabalhos locais e de fora; e, não apenas, aproveitar palestras, mesas-redondas e aulas abertas. A diretora destaca a programação, que começa na terça-feira, 3 de maio, e vai até o domingo, 8. Segundo ela, esta 8ª edição da mostra valoriza as pesquisas de novas linguagens dos diversos grupos e a troca com o público por meio das vivências. Uma delas é a Tardes de improviso_Por Acaso.

Dentre os seis espetáculos da programação, a diretora sublinha “Retina” da Cameleão Grupo de Dança de Belo Ho­rizonte (MG) e “Compilation” da cearense Cia Vatá.

— Na programação, é possível encontrar espetáculos que trabalham com a cultura popular, como o espetáculo da cia Vatá, “Compilation”, que traz uma pesquisa da cultura regional cearense, de músicas do nordeste com uma visão contemporânea. Eles se baseiam no momento em que estão vivendo, bem como o grupo Camaleão. “Retina” é um espetáculo que traduz a velocidade das informações e o modo que nosso olhar processa toda essa informação que o indivíduo recebe.

O Paralelo começa com a fotógrafa Lu Barcelos, que profere a palestra “A dança sob o olhar da lente”. Os espetáculos ganham o Teatro Goiânia a partir de quarta-feira, 4. “Retina” abre a programação que segue com “Beladona”, da goiana Nômades. A Giro 8 ganha os palcos com “Antes que…”, no mesmo dia em que a paulista Cia Virtual apresenta “Tempo Singular”. Tudo isso, antes do fim de semana.

No sábado, 7, o Espaço Quasar cede o linóleo para a aula aberta “Corpo Brincante” da Vatá. Neste dia, ainda acontece a mesa-redonda “Gestão de Grupos” e a apresentação de “Compilation”, da cia cearense. No domingo, 8, a bailarina Lunna Gomes da Quasar ministra a aula “Movimento Contemporâneo”; e o Paralelo se finda com o Por Acaso, embalado pelo ¿por quá? grupo de dança e Vida Seca, e com o espetáculo “Casa de Carii”, logo em seguida, da carioca Companhia de Ballet da Cidade de Niterói.

Será que 2016 vai ser como o ano de 2015? Ainda que os ventos soprem contrariamente, tem uma galera na contrapartida. Vale pegar o embalo, nem que seja para aproveitar o melhor da nossa arte, a de todos os cantos do país canarinho.

1 Retina_Divulgação

“Quem seguimos? quais comportamentos nos influenciam? o que, ao redor, nos afeta?” são algumas das perguntas de onde partiram os integrantes do Camaleão Grupo de Dança até chegar ao espetáculo “Retina”. A obra reflete esta capacidade humana de reter e filtrar a quantidade exacerbada de informações que recebemos. Com estreia em 2013, em Belo Horizonte, o espetáculo ganhou o Prêmio Fu­narte de Dança Klauss Vianna. Com mais de 30 anos de estrada, a cia mineira abre a mostra de dança contemporânea Paralelo 16. A apresentação será na quarta-feira, 4 de maio, às 20h, no Teatro Goiânia. Os ingressos custam R$ 12, a inteira, e R$ 6, a meia-entrada.

3 Giro Oito_Layza Vasconcelos

“Antes que… a vida se vá, seu abraço não me envolva, seu sorriso não me acolha, sua ausência traga paz. Antes que… o desejo se vá e eu me guarde em mim. Antes que… você se despeça, seu beijo vire uma reza, você se decida ir ou ficar, desistir ou lutar?”, pergunta a também goiana Giro 8 Cia de Dança, que ganha os palcos do Teatro Goiânia, na sexta-feira, 6. O grupo apresenta “Antes que…”. Inspirado em obras românticas de tango e interpretado sob uma visão contemporânea da cia, o espetáculo retrata o limite entre o desejo e a lógica. A apre­sentação começa às 20h. Em seguida, será apresentado o espetáculo “Tempo Singular”.

5 Compilation_Divulgação

A cia cearense Vatá realiza no sábado, 7, das 9h às 12h, a oficina “Corpo Brincante”, no Espaço Quasar. Às 20h, o grupo dança nos palcos do Teatro Goiânia o espetáculo “Compilation”. A obra compila os 15 anos da cia. Inspirado na cultura popular nordestina, o espetáculo tem como mote a poesia de Ascenso Ferreira e de Valeria Pinheiro, a diretora artística da cia. O grupo tem como inspiração as danças do sertão, embalam-se no côco, cabaçal, maracatu e reizado; suas criações se voltam para a cultura afro-brasileira e experimenta no corpo as danças dos Orixás. Para a apresentação, a entrada tem o valor de R$ 12, a inteira.

7 Lu Barcelos I

A 8ª edição da mostra começa às 19h da terça-feira, 3 de maio, no Espaço Culturama. A fotógrafa Lu Barcelos discute os paralelos entre as imagens de fotos de dança, teoricamente estáticas, e as formas de movimento e deslocamento próprios do corpo, da arte da dança. Além de fotografar publicitariamente diversos grupos de dança da capital, Lu também atua em um trabalho artístico próprio. O mais recente, intitulado “Actio Corporis”, capta de forma poética a variação espacial da posição de corpos de bailarinos e atores. Vale lembrar que, além da palestra, a programação inclui aulas ministradas pela cia Vatá e pela bailarina Lunna Gomes, no sábado e domingo, respectivamente.

2 Beladona_Lu Barcelos

Na quinta-feira, 5, a Nômades Grupo de Dança apresenta o espetáculo “Beladona”, também nos palcos do Teatro Goiânia. Fundado em 2002 por Cristiane Santos, o grupo goiano atua independentemente. Nômades tem desenhado uma trajetória de liberdade e ousadia cênica. Sétimo espetáculo da cia, “Beladona” diz do mito da planta Beladona que atrai, mas pode ser fatal. A peça simboliza o imaginário social, as escolhas de natureza dúbia, sedutora e mortal; ela foi criada com base na Técnica de Graham e em estudos da planta, de seus efeitos alucinógenos, farmacológicos, estéticos e naturais. A apresentação começa às 20h e os ingressos custam R$ 12, a inteira.

4 Tempo Singular__Divulgação

Coreografado por Jae Duk Kim e com iluminação de Jang Hang Lee, “Tempo Singular” é resultado da troca entre as cias Virtual e Modern Table, da Coreia do Sul. Paulista, a Virtual nasceu em 2003 com a proposta de uma dança que não se reduza a um único método ou linguagem. Pela conta do acreditar, não exatamente sobre a fé em seu sentido religioso, mas sobre a fé no humano e, acima de tudo, em si mesmo. Em seus 13 anos de existência, o grupo já se apresentou por diversos estados do Brasil e em mais de 20 temporadas internacionais, em países como Peru, Equador, México, Bolívia, Argentina, Estados Unidos e França.

6 Ballet de Niteroi_ Karla Kalife

A programação da mostra chega ao fim no domingo, 8, após a intervenção tardes de improviso_Por Acaso, com o espetáculo “Casa de Carii”, da carioca Companhia de Ballet da Cidade de Niterói. O grupo tem como base um estudo que diz de uma tribo indígena denominada “Carii” que habitava a região da atual cidade de Niterói. Carioca seria, então, carri+oka. A escolha dos ritmos característicos do Rio de Janeiro serviram como inspiração para o espetáculo da cia, que propõe diferentes formas de compreender o dia a dia de sua cidade. Abreviada CBCN, a cia foi fundada em 1992 pela prefeitura de Niterói. “Casa de Carii” também começa às 20h.

9 Por Acaso_Divulgação

No domingo, o ¿por quá? grupo de dança e o Vida Seca realizam, na calçada da Vila Cultural Cora Coralina, mais uma tardes de improviso_Por Acaso. A gostosura tradicional da Rua Sem Saída, que muito recentemente ganhou Alto Paraíso, comemora o acaso dos movimentos do corpo improvisados. Com início às 17h, você sai brincante para o espetáculo da cia carioca que começa após, às 20h. Vá de roupas leves e aberto ao contato e demais passinhos de dança. Não se esqueça, é claro, da garrafinha de água. É um bom jeito de fechar uma mostra e dar início a semana, não é mesmo?

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