Por que há quem pense que o filme “Coringa” poderia ter previsto protestos contra a violência policial

Longa-metragem vencedor do Globo de Ouro e Oscar de melhor ator e trilha sonora tem em suas cenas finais uma revolta nas ruas contra as autoridades de Gotham

Coringa - Foto Divulgação Warner Bros

“Coringa”, premiado filme de 2019 que dá nova versão ao surgimento do “Palhaço do Crime” das histórias do Batman, é um homem com sérios distúrbios psiquiátricos não tratados em uma cidade decadente, abandonada e violenta | Foto: Divulgação/Warner Bros

Quando o filme “Coringa” chegou aos cinemas em outubro de 2019, parte do público e da crítica se dividiu entre uma suposta romantização da violência e o incentivo a questionar o sistema, seja lá o que essa palavra signifique no contexto de quem a usou para discutir o longa-metragem protagonizado por Joaquin Phoenix.

As duas horas e dois minutos do filme dirigido por Todd Phillips são confusas. Mas não porque trata-se de um longa-metragem ruim. E sim porque é possível entender tudo que se vê de diversas formas.

Para quem já assistiu ao novo Coringa vivido nas telas pelo ator que foi premiado com o Globo de Ouro de Melhor Ator de Drama e o Oscar de Melhor Ator em 2020, a certeza é de que o que ocorreu ou não naquela Gotham sombria, suja e caótica talvez não exista em outro lugar além da cabeça de Arthur Fleck.

Distúrbios psiquiátricos
Coringa 9 - Foto Divulgação Warner Bros

A risada incontrolável que o personagem Arthur Fleck, manifesta de forma involuntária em momentos de tristeza ou insegurança é um dos sintomas dos distúrbios psiquiátricos do Coringa do filme | Foto: Divulgação/Warner Bros

O homem que trabalha como palhaço em hospitais e na porta de lojas decadentes toma uma série de medicamentos para controlar problemas psiquiátricos. Um deles, o mais perturbador em todo o filme, é a sua incontrolável risada involuntária. O Coringa, que tem dificuldade em rir de momentos felizes ou engraçados, gargalha até engasgar nos momentos de tristeza, medo e inquietude.

A trilha sonora original, composta pelo islandês Hildur Guðnadóttir, que também faturou o Oscar e o Globo de Ouro em “Coringa”, dá sentido à atuação assustadora e impecável de Joaquin Phoenix. Dos momentos de timidez do protagonista aos trechos de confiança total e ultraviolência gratuita, a música ajuda a compor o vilão em formação ao longo do filme.

O contexto em que o delirante Coringa está inserido é uma Gotham inspirada na Nova York da crise do petróleo da década de 1970 e da Big Apple extremamente violenta e pobre dos anos 1980. O desemprego, a criminalidade crescente, a juventude sem perspectiva e a falta de assistência à população são retratados com frequência no cinema, na TV e na literatura.

Gotham de “Coringa”
Coringa 2 - Foto Divulgação Warner Bros

No longa-metragem, Coringa é um palhaço fracassado, que só gargalha do que não tem graça nem consegue fazer o público rir de suas piadas | Foto: Divulgação/Warner Bros

Para a Gotham – dominada pelo crime que, anos depois, se tornaria palco do Batman, o “Homem-Morcego” – do filme “Coringa” fazer ainda mais sentido, nada melhor do que a inspiração em uma Nova York do contexto internacional de fim da Guerra do Vietnã (1955-1975), de centenas de milhares de pessoas desempregadas em poucos anos, do tráfico de drogas sem controle, do lixo nas ruas e do metrô inseguro.

Foi neste cenário que surgiu o movimento punk. A música suja, rápida e agressiva aflorava a desilusão do jovem que crescia em uma cidade sem esperança, uma Nova York que ameaçava com frequência a sobrevivência da sua população.

Nesse contexto, conseguir do governo um tratamento psiquiátrico para distúrbios graves, descritos no filme como “delírio” – no caso da mãe de Arthur, Penny Fleck (Frances Conroy) -, era algo impensável. Tanto que, em “Coringa”, o serviço público de consultas a pacientes, com prescrição de medicamentos, é cortado por falta de recursos.

Agressividade na música

Se no início dos anos 1970, quando o desemprego atinge milhares de funcionários da iniciativa privada e pública de Nova York, na transição para a década seguinte, até greve da polícia ocorreu. E é justamente aqui que o punk fica ainda mais violento, com a sua vertente mais rápida e radical: o hardcore.

Seja na Gotham ficcional do universo das histórias em quadrinhos, da nova leitura para a história do Coringa no filme de 2019 ou na Nova York da vida real, residir em uma cidade assim era a certeza de conviver com a rejeição, a falta de assistência, a quase inexistência de serviços públicos mínimos e a ameaça constante nas ruas.

Quando o protagonista de “Coringa” apanha de um grupo de adolescentes no início do filme e, depois, no metrô, quando mata três jovens bem vestidos, funcionários de empresas do grupo de Thomas Wayne, candidato a prefeito de Gotham, a violência retratada na ficção dos quadrinhos reescrita no cinema reflete a insegurança daquela Nova York nada acolhedora.

Interpretação inocente
Coringa 4 - Foto Divulgação Warner Bros

Legião de palhaços toma as ruas após declarações de Thomas Wayne, candidato a prefeito de Gotham | Foto: Divulgação/Warner Bros

Mas o filme foi interpretado por alguns como um incentivo à violência contra autoridades, principalmente policiais. Depois de matar o apresentador do talk-show, encenado por Robert De Niro (Murray Franklin), o Coringa se torna uma espécie de motivador de uma convulsão social contra o sistema, que ignora a população de Gotham enquanto os ricos se perpetuam no poder. É uma interpretação muito inocente, mas que se encaixa naquela Nova York do desemprego e da violência crescente dos anos 1970 e 1980.

Uma Nova York perigosa, na qual o assassinato de três jovens ricos no metrô talvez se tornasse motivo de uma revolta maior contra algo. Mesmo assim, apenas talvez. Na Gotham de “Coringa”, o espelho pode até ser a ultraviolência de “Taxi Driver” ou a decadência do humorista em “O Rei da Comédia”, dois filmes protagonizados pelo mesmo Robert De Niro, que no filme de 2019 ridiculariza o humor fracassado do personagem de Joaquin Phoenix.

A revolta nas ruas, com o Coringa tratado como o novo herói de um povo sem esperança, se encaixa naquele contexto, que mistura delírios de uma mente perturbada com a realidade da Gotham daquele momento vivido na Nova York em crise social profunda.

Black Lives Matter

Nada tem a ver com os movimentos Black Lives Matter, que se espalharam pelos Estados Unidos e no mundo após a morte de George Floyd, asfixiado por mais de oito minutos por um policial da cidade de Minneapolis, no Estado de Minnesota, até a morte no dia 25 de maio.

Tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, os recorrentes casos de negros assassinados em operações policiais, tanto em Minneapolis quanto em São Paulo ou Rio de Janeiro, foram o estopim para protestos de diversas naturezas e comportamentos.

Em Minneapolis, onde Floyd foi morto, as manifestações começaram bastante violentas. Retratam um acumulado de revoltas de séculos de como os negros são tratados, não só pela polícia, mas como foram falsamente inseridos na sociedade após o fim da escravidão – que nunca deveria ter existido – e a continuidade do racismo estrutural aqui e lá.

Motivação ficcional
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Nas cenas seguintes a assassinatos, Coringa começa a dançar, como se matar lhe trouxesse inspiração e confiança | Foto: Divulgação/Warner Bros

Nada tem a ver com a revolta do filme, que existe em um cenário ficcional e se refere a um momento completamente diferente. Há outras questões na interpretação – ou nas diversas compreensões sobre o longa-metragem – que levam a diferentes entendimentos sobre como tudo se dá.

É possível que todos os acontecimentos mostrados no filme tenham mesmo ocorrido. Mas também há a possibilidade de parte da narrativa ou a totalidade dela ter existido apenas na mente delirante do protagonista.

Das versões criadas em grupos de discussão na internet ou da visão de diferentes espectadores, não se sabe, por exemplo, se houve toda a violência nas ruas contra a polícia após Coringa assassinar o apresentador Murray Franklin ao vivo na TV.

Diferentes leituras
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No camarim, Coringa aguarda seu momento de glória, quando será entrevistado ao vivo na TV pelo apresentador Murray Franklin (Robert De Niro) | Foto: Divulgação/Warner Bros

O protagonista foi preso antes ou depois de matar o personagem de Robert De Niro? Chegou a atirar ou tudo é apenas invenção de um paciente internado no Hospital Arkham, onde Coringa teria matado a mãe asfixiada?

Thomas e Martha Wayne, pais de Bruce, que ainda não é o Batman, foram mesmo assassinados aos saírem do cinema durante a revolta nas ruas? Tudo não passou de uma criação da mente perturbada do Coringa, que, nas cenas finais, está em tratamento no hospital psiquiátrico de Gotham?

O vilão é mesmo filho de Thomas Wayne e, com isso, irmão de Bruce Wayne, que depois virá a se tornar o Batman, ou a versão é um delírio da mãe de Arthur Fleck, que teria mesmo sido adotado? Penny Fleck era cuidada pelo filho, que trabalhava como palhaço, ou já estava internada quando o garoto nasceu?

Personagem assustador

Para tantas dúvidas sobre o que de fato é delírio ou não no filme, vale a pena assistir ao longa-metragem “Coringa”. Mesmo que você não goste da história, a atuação de Joaquin Phoenix dá vida a uma das melhores versões do “Palhaço do Crime” no cinema.

 

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