Por que as pessoas prestam tanta atenção à astrologia? Adorno responde

Sociólogo alemão analisou uma coluna de astrologia publicada no “Los Angeles Times” com um objetivo: entender a estima pública pelo movimento dos astros, num momento em que o conhecimento científico se tornou mentalidade predominante

Após regressar à Alemanha, Adorno volta aos EUA, onde desenvolveu uma pesquisa de interpretação da astrologia dos meios de comunicação de massa, uma espécie de “superstição de segunda mão” | Foto: Reprodução

Após regressar à Alemanha, Adorno volta aos EUA, onde desenvolveu uma pesquisa de interpretação da astrologia dos meios de comunicação de massa, uma espécie de “superstição de segunda mão” | Foto: Reprodução

Ricardo Musse
Especial para o Jornal Opção

Fotografia do artista plástico Elyeser Szturm feita especialmente para a coluna de Ricardo Musse

Fotografia do artista plástico Elyeser Szturm feita especialmente para a coluna de Ricardo Musse

Pouco depois de regressar, em 1952, à Alemanha — após um exílio de 16 anos — Theodor Adorno retorna aos EUA, permanecendo lá quase um ano na função de diretor científico da “Hacker Foundation”. Nesse período, desenvolveu como pesquisa uma interpretação da coluna de astrologia do jornal Los Angeles Times. Escrito em inglês, o livro foi publicado nos EUA sob o título “The Stars Down to Earth” (“As Estrelas Descem à Terra”, no português).

A escolha desse tema — a astrologia dos meios de comunicação de massas, uma espécie de superstição de segunda mão —, prende-se a um esforço de compreensão da então recente irrupção, num mundo completamente iluminado, “da calamidade triunfal”, da qual o nazismo foi a expressão mais nítida. O teor especulativo presente em “Dialética do Esclarecimento” (Adorno & Horkheimer, 1947) serve como uma espécie de arcabouço teórico, um sistema de referências para uma série de investigações complementares; pesquisas essas que selam um pacto entre a orientação conceitual dos frankfurtianos e a sociologia empírica norte-americana.

Adorno, a partir de sua emigração, em 1937, para os EUA — contratado em tempo parcial por um projeto de pesquisas sobre o impacto do rádio nos ouvintes — travou contato com as técnicas da sociologia empírica. Rejeitou, no entanto, o modelo de investigação que denomina “administrativa”, a que se limita a averiguar fatos, ordená-los e colocá-los à disposição como informação, sem analisar seus pressupostos sociais e econômicos ou suas consequências socioculturais.

Tampouco concorda inteiramente com a forma usual de aplicação das técnicas práticas de investigação. Já em sua pesquisa sobre a música radiofônica, esboço de uma sociologia dos meios de comunicação de massas, questiona a ênfase na quantificação dos “estímulos”, pois esta não leva em conta que o imediato das reações subjetivas, individuais, é mediado “não só pelos mecanismos de propaganda e a força de sugestão do aparato, como também pelas conotações objetivas do meio e do material com que são confrontados os ouvintes, e, por fim, pelas estruturas sociais mais amplas, até chegar à sociedade como um todo”.

Modelo de sociologia empírica, o livro atinge o ideal de toda investigação social crítica, isto é, mostrar como nas reações subjetivas cintilam determinantes sociais objetivos

Modelo de sociologia empírica, o livro atinge o ideal de toda investigação social crítica, isto é, mostrar como nas reações subjetivas cintilam determinantes sociais objetivos

São tais pressupostos teóricos e metodológicos que explicam a atualidade, o frescor e, diria, até mesmo a novidade, sobretudo entre nós, da análise adorniana da astrologia. “As Estrelas Descem à Terra” permanece como um modelo de sociologia empírica (afinal, seu objeto são os conselhos astrológicos publicados diariamente, durante três meses, no jornal Los Angeles Times) que, ao ir além das técnicas de quantificação, atinge o ideal de toda investigação social crítica, isto é, mostrar como nas reações subjetivas cintilam determinantes sociais objetivos.

A especificidade do projeto sociológico de Adorno, sua diferença em relação à sociologia clássica (Durkheim, Weber e, de certo modo, mesmo em relação a Marx) é que enquanto esta, em geral, por oposição à psicologia, enfatiza apenas os condicionantes econômicos e sociais da ação, Adorno, preocupado em explicar movimentos de massas cujos participantes parecem agir contra seus próprios interesses racionais — na esteira da primeira teoria crítica —, incorpora a psicanálise como mediação essencial para o esclarecimento do nexo entre indivíduo e sociedade.

Sua interpretação da coluna assinada por Carroll Righter no Los Angeles Times adota como ponto de partida uma indagação elementar: Como entender a estima pública da astrologia, num momento em que o conhecimento científico foi inteiramente incorporado à vida prática e à mentalidade predominante?

A resposta que propõe não é alheia à escolha e delimitação de seu objeto. Na astrologia dos meios de comunicação, o oculto desempenha papel secundário, pois, ali, ele se encontra, de algum modo, institucionalizado e organizado, de acordo com os ditames do mundo ilustrado. Não se trata, por conseguinte, de tentar explicar experiências ocultas como expressão do inconsciente, como tentou Freud; ou mesmo de destacar as raízes desse legado cultural pela via da reconstituição do processo de interpenetração de antigas superstições, como é voga em certas vertentes da antropologia. Seu procedimento consiste em explicar a demanda pela astrologia por meio da análise de seu conteúdo próprio, procurando ressaltar, sobretudo, as características implícitas de seu destinatário, buscando compreender o efeito na recepção.

A astrologia, tal como configurada no âmbito da indústria cultural, constitui uma combinação específica de elementos irracionais e racionais. Mescla um contorno irracional — a tese de que seus prognósticos e conselhos procedem da movimentação dos astros, aceita com naturalidade pelos leitores — com um núcleo racional, o fornecimentos de conselhos pragmáticos e úteis para os problemas do cotidiano — não muito diferentes das orientações presentes nas colunas de psicologia popular.

Um ponto decisivo da investigação consiste na observação de que a coluna astrológica procura satisfazer determinados anseios de seus seguidores. Embora considere provável uma atitude ao mesmo tempo indulgente e desconfiada de seus leitores, Adorno conclui, por mera inferência lógica, de que se trata de indivíduos que estão convencidos que outros (ou alguma força desconhecida) devem saber mais sobre eles e sobre o que devem fazer do que eles próprios.

O assunto principal de “As Estrelas Descem à Terra” consiste, portanto, na forma como a indústria cultural pressupõe e reafirma a reificação do indivíduo, manifestando e configurando novas modalidades de dependência psíquica e social. A investigação desenvolve um extenso mapeamento de características da individualidade no “mundo administrado”, desdobrando uma espécie de fenomenologia de sua debilidade.

Seus resultados não podem ser resumidos sem a complexa rede de mediações mobilizadas por Adorno. Colocadas lado a lado, as pontas da reflexão, isto é, a análise quase textual dos diagnósticos e conselhos da coluna e a figuração do indivíduo sob o capitalismo, parecem não possuir qualquer nexo. O que permite passar de forma convincente do micro para o macro, daquilo que aparentemente tem pouca importância no andamento da sociedade para uma compreensão precisa e determinada do todo social não reside apenas na, já mencionada, incorporação dos conceitos da psicanálise. O segredo metodológico de Adorno consiste principalmente na atenção que concede às contradições, em suma, na retomada do método dialético ensaiado por Marx em “O Capital”.

A lógica subjacente à construção e ao funcionamento da coluna de astrologia, examinada minuciosamente a partir de sua premissa formal — a adoção de um estilo literário que induz à crença de que possui um conhecimento concreto dos problemas dos leitores — procura compatibilizar uma série de exigências contraditórias. Nessa coleção se inscrevem: a dicotomia ameaça-alívio, resultante da polaridade divergente entre diagnóstico e conselho ou do propósito paradoxal de infundir angústia e satisfazer o narcisismo; o par real-fictício; as antinomias trabalho-prazer, atividade pública-vida privada, produção-consumo, moderno-conservador, adaptação-individualização, dependência-autonomia, submissão-resolução (abordadas tanto em sentido psicológico como social); a relação individual-universal ou ainda a predisposição em relacionar coisas díspares como astronomia e psicologia.

Capa de março de 1969 da Time Magazine, cuja edição destaca o astrólogo e colunista Carroll Righter. Por três meses, Adorno interpretou suas publicações, a fim de entender a estima pública da astrologia

Capa de março de 1969 da Time Magazine, cuja edição destaca o astrólogo e colunista Carroll Righter. Por três meses, Adorno interpretou suas publicações, a fim de entender a estima pública da astrologia

As dificuldades objetivas dessas aporias, que derivam de articulações próprias da sociedade capitalista, são elididas, na redação da coluna, por meio de um conjunto de procedimentos que Adorno denomina “enfoque bifásico”.

Ele destaca, por exemplo, que, diante da dicotomia trabalho-lazer, os textos de Carroll Righter limitam-se ao aconselhamento prático sobre como se comportar frente às essas demandas antagônicas. Sequer mencionam, ou permitem inferir, o principal, o fato de que a partição da organização econômica e social em dois compartimentos distintos projeta sobre a vida do indivíduo tanto a necessidade de concentração na atividade produtiva, como a obrigação de consumir com avidez e desenvoltura.

Matriz do “enfoque bifásico”, essa separação compulsória, reforçada pela recomendação de que nenhuma das esferas deve contaminar a outra, redunda, por sua vez, em novas oposições. O trabalho, “completamente separado do elemento lúdico, torna-se insípido e monótono”, tendência intensificada pela modalidade de produção predominante na moderna empresa industrial. O lazer, “isolado do conteúdo ‘sério’ da vida, torna-se bobo, sem sentido, reduz-se completamente ao entretenimento e, em última instância, consiste apenas em um meio de reproduzir a capacidade de trabalho do indivíduo”.

Os conselhos da coluna reforçam esse estado de coisas, na medida em que se atém à exortação: mantenha-se alerta, atento, seja cuidadoso, durante a jornada diária de trabalho e folgue, despreocupe-se, divirta-se, em seus momentos de lazer. Mas, nem assim se concede peso igual às duas atividades. Em geral, o que se propõe é a manipulação do prazer visando à integração social. Nas palavras de Adorno:

A gratificação parece tolerável se carrega o selo da confirmação social, se é canalizada pelos meios de comunicação de massas, ou, em outras palavras, quando é sujeitada a uma censura preconcebida antes mesmo de se tornar experiência para o sujeito. Assim, mesmo naquele domínio em que se supõe um “abandono”, promove-se o ajustamento. O próprio prazer, para ser admitido, deve estar pré-digerido e em alguma medida, castrado. […] Mesmo quando se incentiva o leitor a afastar-se da rotina de sua vida, é preciso assegurar que tal insurreição desemboque em uma repetição da mesma rotina da qual se quer fugir.

A forma de resolução dessas contradições, pressuposta e proposta pela astrologia dos meios de comunicação, comum às técnicas e procedimentos da indústria cultural, explicita uma posição, que Adorno considera, ao mesmo tempo, conformista e autoritária.

Referências Bibliográficas

ADORNO, Theodor & HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1985.

ADORNO, Theodor. “Experiências científicas nos Estados Unidos”. In: Palavras e sinais: Modelos críticos 2. Petrópolis, Vozes, 1995.

ADORNO, Theodor. As estrelas descem à terra. São Paulo, Unesp, 2008.

FREUD, Sigmund. “O estranho”. In: Escritos sobre literatura. São Paulo, Hedra, 2014.

HORKHEIMER, Max. “A presente situação da filosofia social e as tarefas de um Instituto de Pesquisas Sociais”. In: revista praga n. 7. São Paulo, Hucitec, 1999.

NOTAS

  1. ADORNO, Theodor. “Experiências científicas nos Estados Unidos”, p. 144.
  2. Cf. HORKHEIMER, Max. “A presente situação da filosofia social e as tarefas de um Instituto de Pesquisas Sociais”.
  3. FREUD, Sigmund. O estranho.
  4. ADORNO, Theodor. As estrelas descem à terra, p. 99.
  5. Idem. As estrelas descem à terra, p. 99.
  6. Idem. As estrelas descem à terra, p.108-109.

Ricardo Musse é professor no departamento de sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP).

  • Texto originalmente publicado no blog da Boi Tempo Editorial.

Uma resposta para “Por que as pessoas prestam tanta atenção à astrologia? Adorno responde”

  1. Avatar Epaminondas disse:

    Como alguém pode ir tão fundo numa coisa cuja a explicação é tão simples?

    Ninguém dá a mínima para astrologia. Acha no máximo, seus conselhos benignos e genéricos e alguém precisa ter uma vida incrivelmente superficial para estar no ponto de, “não levantar da cama sem antes consultar os astros”.

    A coisa perdura apenas por um único motivo: Jornais precisam ocupar espaço de suas publicações. Então astrologia se encaixa bem para resolver este problema, fornecendo uma ideia de novidade diária, sem nenhuma responsabilidade que conteúdo jornalístico/publicitário demanda.

    O mesmo vale para rádios (se elas ainda anunciam o horóscopo — sinceramente não sei, há anos a programação de rádios se tornou impalatável para mim) e mesmo TV (Nos anos 80, o que era o telejornal vespertino Hoje da Rede Globo, contava com um quadro com as previsões astrológicas).

    É, como se diz o populacho, “encheção de linguiça”. E como tudo trazido pela sobrenaturalidade, seu conteúdo é tão genérico quanto possível para nunca comprometer quem “traz” as mensagem e tenha que arcar com a responsabilidade de profecias que não acontecem.

    Adjunto, há também a fraqueza inerente à condição humana que faz parte da formação moral prestar respeito à questões esotéricas. Somos apresentados diariamente a padres que molestam indefesos ou pastores que explorarm pobres coitados, mas ainda assim, lhe damos respeito porque a doutrina seria, supostamente, algo maior do que nós, a guardiã da moral que a humanidade anseia. E tudo com apelo sobrenatural contaria com este respeito.

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