Pontos de cultura: redutos de resistência artística nas periferias

Entidades quase sempre são fruto do esforço de pequenos grupos que, a despeito das dificuldades, encontram no fazer cultural uma alternativa de trabalho, vida e inserção social

Fotos: Divulgação

“O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais.” Além de normatizados com todas as letras pela Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, como bem mostra o artigo 215 extraído acima, os Direitos Culturais são também expressamente previstos na Declaração Universal de Direitos Humanos (1948), por sua relevância como fator de singularização da pessoa humana e por ser um dos principais instrumentos de inclusão e de combate a mazelas sociais, como a criminalidade. Apesar da existência destes dispositivos legais, o acesso à cultura em nosso país ainda é um imenso desafio. Quase nunca aparece como prioridade em planos de governo e, em tempos nos quais leis de incentivo, como a Rouanet, são alvos de descrédito e até escárnio, esse problema tende a agravar-se.

Um dos maiores entraves é a questão financeira: boa parte dos bens e atividades culturais não cabem no orçamento da grande maioria da população brasileira, que não pode se dar “ao luxo” (como se luxo fosse) de comprar um livro, ir ao cinema ou ao teatro, para que não falte o dinheiro da comida que vai para a mesa. Fazer um curso de dança ou aprender a tocar um instrumento então…nem pensar! Além do aspecto financeiro, há uma outra dificuldade de ordem logística, intrinsecamente atrelada ao poder de consumo da população. Boa parte das instituições que proporcionam acesso a atividades culturais localizam-se em bairros considerados “nobres” e, por coincidência, aqui em Goiânia, os mais centralizados. Ou seja, além de ter que conseguir o dinheiro para pagar uma matrícula ou ingresso, ainda ter que arcar com preço de duas, três, quatro passagens de ônibus, torna ainda mais complicado o que já é difícil.

Apesar de todas as intempéries que teimam em aparecer, os pontos de cultura são pequenos oásis de resistência em meio à vultuosa aridez de opções de acesso à arte, cultura e lazer, especialmente nos bairros periféricos. Quase sempre são fruto do esforço de pequenos grupos que, mesmo com todas as dificuldades, encontram no fazer cultural uma alternativa de trabalho, vida e inserção social, engendrando toda uma estrutura com poder de penetração nas comunidades, em especial nos segmentos de maior vulnerabilidade social. Essa política foi sistematizada em 2014, com a criação da Lei 13.018 de 2014, para garantir a ampliação do acesso da população aos meios de produção, circulação e fruição cultural a partir do Ministério da Cultura, e em parceria com governos estaduais e municipais e por outras instituições, como escolas e universidade. Há também espaços que, mesmo sem esta formalidade, tornam-se pontos de referência por sua relevância junto à comunidade.

O Jornal Opção foi ao encontro destes redutos para conhecer seus idealizadores e seu trabalho. Nas linhas abaixo, é possível ter uma dimensão do impacto que estas iniciativas causam em seus respectivos bairros e comunidades. Confira:

Vera Cult – Ponto de Cultura: Na luta pela permanência

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As sementinhas que germinaram as raízes do Vera Cult começaram a ser semeadas de forma descompromissada, com ações que aconteciam nas casas de Rochelle Patrícia da Silva e Pedro Afonso Allyen Netto (Pedrinho Fiel). Voltadas para cultura, mais especificamente a produção audiovisual, as atividades não tardaram a dar frutos e o Vera Cult – Ponto de Cultura finalmente tomou corpo ao ser aprovado no Fundo de Arte e Cultura de Goiás (FAC) de 2016, chegando a se estabelecer em sede própria.  De lá para cá, a entidade chegou a atender cerca de 800 pessoas, dos 6 a 85 anos, com uma programação quase que diária, tanto na área cultural, como esportiva. “Tivemos aulas de violão, gaita, oficinas de teatro, interpretação para cinema, customização de roupas, grafite, composição de rap, produção audiovisual, roteiro para cinema e TV. Também foram incorporadas aulas de capoeira, ginástica para melhor idade e eventos como de batalha de rima, sarau, peças de teatro; alguns com participação média de cem pessoas. A inclusão também é importante para o Vera Cult, que chegou a contar com intérprete de libras e oficinas com a participação de cadeirantes”, detalha Raphael Gustavo da Silva, coordenador e um dos idealizadores do Vera Cult.

Um dos principais eventos ligados ao Vera Cult é, sem dúvidas, o Festival de Cinema do Vera Cruz (Favera), que este ano chegou a sua 5ª edição e é considerado o maior evento da região oeste de Goiânia, com cerca de 50 pessoas trabalhando diretamente na produção, normalmente com a “molecada da área”, atuando no apoio e logístico e making of.  “Já havia uma produção audiovisual significativa aqui no bairro, mas eram vídeos bem caseiros, quase nunca exibidos. Foi então que surgiu a ideia de mostrar estes e também outros vídeos produzidos em outras periferias brasileiras. Nesta época (2014), eu fazia um curso de Gestão Cultural no Ministério da Cultura e o trabalho final era formalizar um projeto cultural. Foi aí que aproveitei a oportunidade para estruturar o FAVERA”, lembra Raphael.

Em sua última edição, realizada de 4 a 9 de dezembro de 2018, o Favera atraiu cerca de 1200 pessoas. A programação trazia as mostras competitivas É Nóis Brasil de Curtas, É Nóis Goiás de Curtas, Infanto-juvenil de Curtas, É Nóis Brasil de Longas e a Mostra Escolar, dedicada aos filmes realizados durante os Núcleos de Produção Audiovisual, que acontecem de outubro a dezembro em 8 escolas públicas do Conjunto Vera Cruz e Eldorado Oeste (bairro vizinho), em parceria com o Cria Lab, da Universidade Estadual de Goiás (UEG). A Escola Municipal Professora Nara do Carmo Rezende Amorim não só abocanhou o prêmio do Favera, como levou o troféu Dom Tomás Balduíno de Direitos Humanos. Além disso, houve três oficinas: “Maquiagem para cinema”, com a maquiadora Paloma Santos; “Documentário”, com o cineasta e professor Rafael de Almeida, e “Crítica de cinema”, com Fabrício Cordeiro; esta última aconteceu dois dias antes do festival. “Os alunos desta oficina concedem prêmios já no Favera. Ou seja, no dia seguinte, eles já podiam aplicar os conhecimentos que haviam adquirido na oficina”, explica Raphael.

O Favera também aproveita a estrutura montada durante o dia, quando não há as exibições, e realiza atividades esportivas e culturais. Na última edição, houve torneios de basquete 3×3, competições de skate, e o “Sarau Solidário”, organizado por Carol Schmid (do “Sarau das Minas”), e que contou com participações de Marcelo Barra, Laércio Correntina e Nilton Rabelo, além de palco aberto para participação da comunidade. Houve ainda a quinta edição da Batalha de Responsa e Batalha Norocity, com a presença de rappers da região. A ligação do Vera Cult com o rap é uma outra característica da entidade, que promove também o projeto “Rap Mix Vera Cruz” que, entre outras coisas, produz gratuitamente uma coletânea de música para rappers da região, e o Curta in Classe, um projeto de distribuição audiovisual.

Para 2019, no entanto, as perspectivas serão muito desafiadoras, pois o Vera Cult – Ponto de Cultura já não conta mais com recursos do FAC. Os coordenadores não estão poupando esforços e promovem várias atividades para arrecadar dinheiro, na ânsia de fazer com que o Vera Cult caminhe com as próprias pernas. No entanto, a agenda de atividades do ano que vem não está definida. Além da capoeira, única atividade que segue sendo oferecida, estão previstas oficina de rap e culinária vegana. Há perspectivas para que sejam abertas turmas de defesa pessoal para mulheres, assessoria jurídica feminina e capacitação para o mercado de trabalho, mas está tudo muito incerto. “Ficamos com o coração na mão e estamos na fase de prospectar parceiros, sejam empresas que queiram ajudar financeiramente; quanto pessoas que levem atividades lá para dentro”, comenta Raphael.

Existe a possibilidade de que, além das atividades gratuitas, algumas passem a ser pagas, mas com valores simbólicos, de modo a não desguarnecer o Conjunto Vera Cruz e região, cuja população é estimada em mais de 32 mil pessoas. “É muita gente carente de oportunidades culturais e desportivas. A gente até poderia não estar passando tantas dificuldades, se tivéssemos cedido a convites oferecidos por políticos. Mas aqui no Vera Cult, uma de nossas bandeiras é a isenção político-partidária e disto não iremos abrir mão. Temos que manter nossa essência”, desabafa Raphael.

Tributo à tradição: Só Angola/Ponto de Cultura Buracão da Arte

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Localizada no Recanto das Minas Gerais, na região leste da capital Goiânia, conhecida como “buracão”, a Associação de Capoeira Angola do Estado de Goiás (Grupo Só Angola) foi fundada em 1988 e desde então atua pela valorização e preservação da capoeira herdada dos antepassados, transmitindo às futuras gerações a filosofia e os ensinamentos dessa arte, hoje considerada patrimônio imaterial brasileiro. Iniciativa que já rendeu prêmios, entre comendas e homenagens de autoridades do município e do estado, reconhecendo-a por sua atuação na comunidade em prol da cultura afro-brasileira e questões étnicas raciais. “Trabalhamos com a negritude: o preto e pobre da favela. Cultura de tradição de matriz africana”, afirma Vanderly Francisco de Oliveira, mais conhecido como Mestre Vermelho, sócio fundador e presidente da Associação de Capoeira Angola do Estado de Goiás, em parceria com Mestre Caçador, atual vice-presidente.

Eles iniciaram na capoeira em Goiânia em 1983, com o Mestre Zumbi, e em janeiro de 1986 foram adquirir e absorver os segredos e fundamentos da Capoeira Angola na Bahia, com o Mestre Boca Rica, discípulo de Mestre Pastinha, sendo hoje Mestre Boca Rica o patrono do grupo. De volta a Goiás, o grupo teve vários alunos que migraram para cidades vizinhas, como Cidade de Goiás, Pirenópolis, Anápolis, Cristalina e até mesmo para a Europa, em países como França e Itália.

Além de virar ponto de cultura (Ponto de Cultura Buracão da Arte), projeto apoiado pelo Ministério da Cultura do Governo Federal, a Associação de Capoeira Angola do Estado de Goiás, já foi contemplada com projetos na Lei Goyazes e Lei Municipal de Incentivo à Cultura. “Realizamos desde 1997 o Encontro de Capoeira Angola do Estado de Goiás e neste ano, no mês de setembro, realizamos o 12º Encontro”, afirma Mestre Vermelho.

A associação trabalha com crianças, adultos e adolescentes carentes da comunidade local, proporcionando desenvolvimento cultural e integração social através das manifestações culturais propostas. Os recursos financeiros são provenientes, essencialmente, da venda de instrumentos musicais, como pandeiro, atabaque, agogô, sabá, jum-jum e berimbau, com fabricação própria dos coordenadores.

Entre as atividades oferecidas estão a Capoeira Angola, Samba Chula, Percussão, Dança, Teatro, além de aulas de viola, cavaquinho e construção de instrumentos. Todas são gratuitas. O encerramento das atividades aconteceu no último dia 15 dezembro, mas todas serão retomadas em 2019. Os responsáveis já desenvolvem novos projetos para ampliar o rol de atividades oferecidas e buscar financiamento junto ao poder público.

Cia. Novo Ato: reduto teatral no Crimeia Leste

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Pode até não ser um ponto de cultura formalizado no papel, mas a Cia. Novo Ato é notoriamente um ponto de referência cultural para toda a comunidade do bairro Crimeia Leste e bairros como Goiânia 2, Urias Magalhães e arredores. A entidade surgiu em 1998, quando a escritora, atriz e diretora de teatro Marília Ribeiro em parceria com Luiz Cláudio Irineu Rezende começaram a atuar, criando a Cia. de Teatro Novo Ato. Já são 20 anos de carreira artística voltada para formação de repertório e realização de projetos culturais, cursos e oficinas de teatro, além da participação em festivais nacionais e também Internacionais. “Buscamos oferecer um produto de qualidade, fruto de uma pesquisa feita ao longo do tempo. Também nos pautamos pela originalidade, partindo do princípio criativo, para não repetir fórmulas. Somos um espaço descentralizado, em um bairro periférico, e por isso, procuramos atender culturalmente pessoas de baixa renda e vulnerabilidade social, descobrindo talentos e oferecendo um espaço de debate e criação”, afirma Marília.

A Cia. Novo Ato fez de sua sede física um espaço cultural, que promove oficinas artísticas, como Teatro, Pintura, Circo, Dança, Malabares, Tecido Acrobático, além de um núcleo de Dramaturgia, com cursos e produção de cenografia e figurinos que inclusive atendeu um dos carros-chefes da entidade, o Projeto Criancite, que chegou a ser escolhido entre os semifinalistas do projeto Itaú Unicef. A iniciativa, que atualmente atende cerca de 20 alunos-atores, entre crianças e pré-adolescente de baixa renda, busca oferecer uma oportunidade de crescimento artístico, com aulas de interpretação, voz, circo, cenário e figurino.

Outro destaque no trabalho da companhia é a intensa vivência no Brasil e no exterior. “Já passamos pelo Uruguai, Cuba e Colômbia. Participamos de vários festivais nacionais, em locais como Piauí, onde ganhamos prêmios por cinco anos consecutivos; além de Espírito Santo, Curitiba e Londrina (PR), Mauro de Freitas (BA), Acre e Rondônia, onde temos parceria com um diretor de teatro de rua. O forte da companhia também é seu repertório de espetáculos, composto de dramas, comédias, infantil, tragédia. Destaco ‘Inferno no Lugar de Tormenta’, uma peça espetacular, com grande elenco”, exemplifica Marília.

A Cia. Novo Ato é mantida através de leis de incentivo à cultura, como a Lei Rouanet, com a qual foi contemplada recentemente, além do aluguel do espaço para eventos e a venda de ingressos para os espetáculos. “Entre as metas para 2019, estão a ampliação do Espaço Cultural Novo Ato para melhor atender o público do artistas; a continuação do Projeto Criancite; e a circulação e manutenção da apresentação do repertório da Novo Ato, inclusive com temporadas internacionais da companhia na Europa e Estados Unidos. Há também projetos para terceira idade, com aulas de pintura, desenho e dança. O grupo pleiteia também um projeto de manutenção para oficinas de teatro, circo, pintura e desenho, elaboração de roteiro”, completa.

Aparecida de Goiânia

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Segundo município mais populoso do estado, localizado na região metropolitana, Aparecida de Goiânia está na fase de implantação do Programa Cultura Viva, uma ação estratégica que integra o Plano de Metas da Prefeitura (ACESSE O SITE). Ao todo, serão investidos 900 mil até o final de 2019, sendo R$ 600 mil de recursos federais e R$ 300 mil oriundos do orçamento da Secretaria Municipal de Educação e Cultura. A primeira etapa de investimentos contemplará 28 unidades, mas a previsão é alcançar, até 2022, 60 pontos de cultura em toda a cidade.

E para escolha das entidades, dois editais estão abertos. Uma comissão formada por 08 membros, representantes da sociedade civil e do poder público, com reconhecida experiência na área cultural, fará a seleção dos projetos que integrarão a rede municipal de Pontos de Cultura de Aparecida de Goiânia. As inscrições para o credenciamento e seleção para a Rede de Pontos de Cultura do Programa Cultura Viva podem ser realizadas na Sede da Secretaria Executiva de Cultura – Centro de Cultura e Lazer José Barroso (Rua Gervásio Pinheiro, APM Residencial Solar Central Park) até 18 de janeiro de 2019.

Uma das unidades que já dispõe de um trabalho consolidado é o Ponto de Cultura Cidade Livre, cujas atividades tiveram início em 2010, no então Teatro de Bolso Cidade Livre, o primeiro teatro e a primeira escola de formação artística em teatro da cidade de Aparecida de Goiânia. O principal objetivo desse núcleo da Associação Sociocultural Cidade Livre é oferecer à comunidade aparecidense a difusão e circulação de espetáculos artísticos/culturais.

Num primeiro momento, o foco era a formação de crianças e adolescente na iniciação teatral, mas as atividades foram expandindo e o Teatro de Bolso Cidade Livre consolidou-se na criação e a fruição de produtos artísticos na periferia. O local não recebe somente espetáculos teatrais, mas é local de reuniões de outros grupos culturais, sendo um espaço de formação em outras áreas artísticas culturais como o audiovisual, a dança, o artesanato e a música.

Saiba mais:

Vera Cult – Ponto de Cultura
Endereço: Rua Valdir Azevedo, Qd. 186, Lt. 13, Conj. Vera Cruz, Goiânia (GO)
​Telefone: (62) 3593-8421 – Das 14h às 18h ou pelo e-mail: [email protected]
Página Facebook: https://www.facebook.com/pg/EspacoVeraCult

Só Angola/Associação de Capoeira Angola Do Estado de Goiá/Ponto de Cultura Buracão da Arte
Endereço: R. SR 10, 100 – lt16 74805 – St. Recanto das Minas Gerais, Goiânia (GO)
Horário: segunda-feira a sábado, das 18h a 21 horas
Telefone: (62) 98510-2080
Página no Facebook: https://www.facebook.com/gruposoangola

Cia. Novo Ato
Endereço: Rua Dr. Sebastião Curado Fleury n° 193 Qd.24 Lt.18-5 Setor Criméia Leste
74660-180 – Goiânia (GO)
Telefone: (62) 3203-5507
Página no Facebook: https://www.facebook.com/ciianovoato/

Ponto de Cultura Cidade Livre
Endereço: Av. Progresso Qd. 21 Lt. 04 casa 1, Aparecida de Goiânia (GO)
Site: www.teatrocidadelivre.com
Página do Facebook: https://www.facebook.com/pontodeculturacidadelivre/

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