Poesia Reunida: a biografia em versos de Edival Lourenço

Em seu novo livro, o goiano destaca sua habilidade de escrita jocosa e leve do absurdo lógico da vida

Presidente da seccional goiana da União Brasileira de Escritores, Edival Lourenço é um dos artistas goianos mais laureados. Foi ganhador dos prêmios Jabuti e Jaburu

Presidente da seccional goiana da União Brasileira de Escritores, Edival Lourenço é um dos artistas goianos mais laureados. Foi ganhador dos prêmios Jabuti e Jaburu

Ademir Luiz
Especial para o Jornal Opção

De criança pobre da zona rural da cidade de Iporá até ser um dos principais intelectuais goianos, a história de vida do escritor Edival Lourenço é, por si só, extraordinária. Depois de passar por uma infância que pode ser descrita como uma mistura de “Meu Pé de Laranja Lima” e “O Senhor das Moscas”, Edival não parou de se superar, tornando-se advogado e funcionário de carreira da Caixa Econômica Federal, escritor fantasma de políticos, presidente da seccional goiana da União Brasileira de Escritores (UBE-GO), cronista de imprensa, imortal (do tipo raro que realmente engana a morte) da Aca­demia Goiana de Letras (AGL). Ele é um dos nossos mais premiados artistas, tendo recebido muitas láureas, prêmios, troféus, comendas e tapinhas nas costas. Trajetória que valeria um livro ou, como é moda, um filme.

O livro, de algum modo, acaba de sair. Não como uma biografia autorizada (ou não autorizada), mas, literalmente, composta em verso, não em prosa. Embora a produção poética de Edival Lourenço não seja eminentemente biográfica, é interessante notar o quanto sua história pessoal serve de matéria-prima para cunhagem de seus versos. Esse é um dos muitos elementos, e dos mais ricos, presentes no livro “Poesia Reunida (1983 – 2013)”, que Edival Lourenço está lançando pela Editora Ex Machina de São Paulo.

O volume reúne seis obras: “Estação do Cio”, sua estreia de 1983, “A Caligrafia das Heras”, “Enganos do Carbono”, “Coisa Incoesa”, “As Vias do Vôo” e o recente “Pela Alvorada dos Nirvanas”, de 2013. Este último, talvez seu trabalho mais maduro em poesia, abre o livro, que não se preocupa em ser cronológico quanto à ordem de publicação original das obras. Segundo o mestre em Teoria Literária pela Unicamp Iuri Pereira, autor da apresentação, a partir de “Coisa Incoesa”, de 1993, “o tema da memória será também, a partir daqui, uma presença constante na poesia de Edival”.

O registro pessoal, via de regra, não se apresenta em sua prosa. Na maioria de seus contos e no primeiro romance, “Centopéia de Neon”, Prêmio Nacio­nal de Romance do Paraná de 1993, observamos narrativas nas quais se destacam o senso de humor afiado e irônico, costurando enredos calcados no realismo fantástico. Mais recentemente, no romance “Naqueles Morros, Depois da Chuva”, um dos vencedores do Jabuti de 2012, Edival se arriscou na delicada carpintaria do gênero romance histórico. Uma tarefa ousada e muito bem-sucedida. Para escrever esse livro muitas pesquisas foram necessárias. Pesquisas em arquivos e em vasta bibliografia especializada –– não necessariamente na memória. De algum modo, podemos definir que o prosador Edival se volta para fora, enquanto o poeta Edival se volta para dentro.

Ainda assim, este ensimesmar-se poético não é de modo algum uma experiência egocêntrica, narcisista, fechada em si mesma. Pelo contrário, sua poesia é uma poesia da experiência, uma poesia do vivido, mas, sobretudo, de suas observações acerca do vivido. Se a prosa de Edival é criada a partir de voos de imaginação e pesquisa erudita, sua poesia é a recriação lírica do passado a partir da perspectiva do presente do poeta.

Uma característica que o contador de histórias empresta ao poeta, remetendo-se à tradição narrativa ocidental. Mais ou menos como o velho Serenos Zeitblom, narrador de “A Montanha Mágica”, de Thomas Mann, procurando se lembrar como o jovem Serenos Zeitblom viveu sua amizade com o trágico compositor Adrian Leverkhun. Firmemente atado a essa ancora de racionalidade, Edival não permite que seus poemas sejam piegas ou melodramáticos. Líricos sim, saudosos sim, jamais chorosos.

O poema “Os Temperos de Outros Tempos”, do livro “A Caligrafia das Heras” é um bom exemplo:

Naquele lugar e tempo
estar vivo tinha outro tempero
não havia asfalto, telefone
psicologia, trauma, médico

A ironia é patente: as crianças criadas no passado e na roça, sem acesso aos mimos e luxos urbanos, não tinham traumas. Traumas são invenções dos psicólogos modernos, “frescuras” que os civilizados resolveram aceitar como fatos. Mais adiante, no mesmo poema, a voz lírica advoga:

Qualquer fato comezinho
(a visita dos primos, a música no rádio,
um vento mais forte na saia da vizinha (…))
tudo era acontecimento

Em “Pela Alvorada dos Nirva­nas”, esse “acontecimento” banal do cotidiano torna-se apoteose quando o jovem poeta descobre um mundo novo de possibilidades ao ouvir pela primeira vez Beatles:

isso não são horas de rever
aquele dia divisor
em que o antenado Thioray
a uns poucos convidara
para estar em seu muquifo
(…) e ouvir um disco novo
de um troço novo
que ele chamou de rock’n roll

Sua força poética se sustenta em grande parte na capacidade de dividir com o leitor o impacto do momento em que a alquimia emocional ocorreu. Edival valoriza o momento da descoberta.

Porém, não se torna prisioneiro dele. Sua trajetória foi e é uma constante sequência de maravilhamentos, num diálogo com o mundo, que não se estagna ou se cristaliza, que segue adiante em busca de novidades, sempre questionando o já sabido. E é justamente isso que cria empatia com o leitor. Uma reação ao mesmo tempo emotiva, por acompanhar a descoberta, e intelectual, por pensar, junto com o poeta, sobre ela.

Mesmo que seja para fazer joça de coisas sagradas, como ocorre em um poema onde Edival reflete com soberbo humor negro acerca das habilidades mágicas de um senhor:

homem de talento extraordinário
que era capaz de transformar
água em vinho
ressuscitar mortos
e andar a pé sobre as águas

A voz lírica não poupa os carolas ao concluir:

Transformar água em vinho
é uma atividade perniciosa
capaz de quebrar a cadeia vinícola
provocar êxodo rural, gerar
desemprego em massa

E tampouco deixa de notar:
Ressuscitar mortos não me parece
uma atividade útil nem simpática
Andar a pé sobre um mar tão vasto
nunca levará a lugares significativos

Aqui quem fala é o poeta adulto e cético, zombando das ingênuas aulas de catequese que deve ter recebido em Iporá. Importante notar que “Fili­gramas”, título do poema, indica que se trata mais de uma ironia do que exatamente de um ataque à religião. Brutalizar não faz o estilo do poeta, que prefere expor com jocosa leveza o absurdo lógico das situações.

Essa deveria ser uma habilidade recorrente nas pessoas que souberam viver e viveram para contar. Ou versificar, se preferirem. Nesse volume, das poesias reunidas de Edival Lourenço, não falta tal habilidade jocosa e leve. O imortal menino de Iporá garante.

Ademir Luiz é doutor em História pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e professor na Universidade Estadual de Goiás (UEG), nos cursos de História e Arquitetura e Urbanismo. Também é docente do programa de mestrado interdisciplinar Territórios e Expressões Culturais no Cerrado (TECCER). Realizou pós-doutorado em Poéticas Visuais e Processos de Criação pela Faculdade de Artes Visuais (FAV/UFG). Email: ademir.hist@bol.com.br.

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