A poesia como viagem do digno sucessor de Pessoa, o poeta Albano Martins

A obra “Livro de Viagens” traz pequenos flagrantes da natureza, que revelam a maturidade poética do escritor

O português Albano Martins é autor de 33 livros de poesia, desde que em 1950 estreou com “Secura Verde” | Foto: Jacqueline Alencar

O português Albano Martins é autor de 33 livros de poesia, desde que em 1950 estreou com “Secura Verde” | Foto: Jacqueline Alencar

Adelto Gonçalves
Especial para o Jornal Opção

Tudo, afinal, é viagem, inclusive a nossa vida. Se assim é, tudo o que o nosso olhar vê faz parte de nossa viagem por este mundo. Por isso, viajar, conhecendo outros lugares e mundos, sempre vale a pena, especialmente se a paisagem é vista por quem tem alma de poeta e consegue traduzir o sentimento produzido pelo que se vê. É o que se pode constatar na última obra vinda à luz do poeta português Albano Martins (1930), “Livro de Viagens”, publicada por Edições Afronta­mento, do Porto, em março de 2015.

Como sempre, os poemas de Albano Martins são instantâneos do olhar, pequenos flagrantes da natureza; às vezes, concisos hai kais, que revelam a sua maturidade poética bem como sua fidelidade a um tipo de poesia na Língua Portuguesa que busca explicações para a vida, mesmo sabendo que essa é uma missão impossível. Nesta altura de sua trajetória poética, o apuramento verbal de Albano Martins é tão refinado que, com certeza, ele é hoje o grande poeta português contemporâneo do começo de século XXI; digno sucessor de Fernando Pessoa (1888-1935), a figura central da poesia portuguesa do século XX.

Viagem Poética

Dividido em cinco capítulos, este livro traz produções recentes, suscitadas por viagens a cidades encantadas como Barcelona, Roma e Turim ou por lugares e marcos do Porto e ainda homenagens a amigos, companheiros de “viagem poética”. De Roma, há um em que reverencia a “Fontana di Trevi” e pergunta: “Uma moeda/ por um desejo. Desde quando/ os sonhos são vendidos/ a preço de saldo?”. E este em que questiona o “Foro Romano” e faz uma viagem no tempo: “Por aqui passou/ a lâmina do tempo. O que resta/ de pompílios e césares são estes/ pinheiros imperiais a cuja sombra/ o passado dorme/ desenterrado./ Vivo”. De Turim, rememora a viagem pelo rio Pó: “Por este rio/ navegam dois barcos, um/ feito das asas de Ícaro, o outro/ da sombra de Pavese./ O timoneiro/ de ambos é a morte, deitada/ na cama das águas”.

No capítulo “Outras viagens”, estão poemas que reverenciam o seu cotidiano na cidade do Porto, como este em que se coloca diante da Torre dos Clérigos, vista de Gaia, do outro lado do rio Douro: “Com este mastro/ de navio/ apontado ao céu, dir-se-ia/ que estão ali de joelhos,/ em oração,/ as casas todas e o rio”. Quase ao final deste capítulo e do livro, o poeta, profundo conhecedor da poesia italiana e de outras tantas línguas, surpreende o leitor com um solitário soneto que diz ter sido imitado de “Cieli, glorie, suoni: anse scure del tempo”, de Giancarlo Pontiggia (1952), poeta, escritor e crítico literário italiano, mas que, se não o dissesse, quem seria capaz de sabê-lo?:

A gloria, a loucura, o tempo dedicado
aos devaneios, aos anseios, a tentação
do poder, do mando, a ocasião
propícia ao enlevo – tudo o que

perto de nós, ao nosso lado, configura
as novas catedrais, as novas sinfonias
do desejo e da posse, a turbulência
das vozes recolhidas nas dobras

do tecido que o outono vai urdindo
com fervor à nossa volta, à custa
do orvalho das manhãs e da espuma

das marés – tudo, acredita, amigo,
se esvai num lance apenas, no salto
duma lebre ou no voo da perdiz.

No capítulo “Viagem com os amigos e outras circunstâncias”, é de se destacar a homenagem que presta a Miguel de Unamuno (1864-1936): “Em ti a Ibéria/ se fez pensamento/ – se fez cátedra./ À tua mesa/ tiveste sempre/ por companheira/ a poesia./ Aos abutres/ deixaste/ esta mensagem:/ a liberdade/ não se vende – não tem preço”. Ou ainda ao pintor Ar­mando Alves (1935): “Encontrei ontem,/ nas tuas telas, Armando,/ algumas árvores. Os frutos/ eram as tintas, carregadas/ de perfume e sabor. Levei-as/ para casa e ofereci-as/ às paredes/ do meu quarto. Estão agora azuis/ e vermelhas como os campos/ do teu Alentejo”.

Sem segredo

Como observou o poeta Álvaro Alves de Faria na recensão que fez para “Anto­logia Poética” (São Paulo, Unimarco, 2000), publicada no jornal O Estado de S. Paulo, Caderno 2, em 8 de julho do ano 2000, o que chama a atenção na poesia de Alba­no Mar­tins é o que ela tem de íntimo em relação à vida e à própria poesia. “Coisa sem mistérios e sem segredos para quem detém no olhar a paisagem nítida nem sempre observada pelos comuns”. Segundo ele, Albano Martins é capaz de, em poucas palavras, “construir pequenos retratos de palavras comoventes”. Para tanto, cita poemas como “Circuito”, do livro “Coração de Bússola”, de 1967: “Eis a nossa vida de enterro/ a nossa vida de operários fúnebres/ conduzindo a morte como um veículo/ através de labirintos de gestos/ precipícios de palavras”.

De acordo com Álvaro Alves de Faria, a obra albaniana é também feita de constatações poéticas que soam como pensamentos ou palavras ditas a um amigo, caso, por exemplo, deste pequeno poe­ma de “Com as Flores do Salguei­ro”, de 1995: “Quando o verão/ morre, as amoras/ se vestem de luto”. Como nada melhor que um fino poeta para dizer da poesia de outro, se há algo a acrescentar às palavras de Álvaro Alves de Faria, assumido poeta luso-brasileiro, o que se pode dizer é que, em “Livro de Viagens”, Albano Martins continua igualmente a encantar seus leitores com pequenas obras-primas, que luzem por sua rara condensação e beleza poética.

Perfil

Nascido na aldeia do Telhado, concelho do Fundão, distrito de Castelo Branco, na província da Beira Baixa, em Portugal, Albano Martins foi professor do ensino secundário de 1956 a 1976 e é licenciado em Filologia Clássica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, exercendo desde 1994 funções docentes na Universidade Fernando Pessoa, do Porto. De 1980 a 1993, quando se aposentou, foi funcionário da Inspeção-Geral do Ensino. Foi um dos fundadores da revista “Árvore” e é colaborador assíduo das revistas “Colóquio/Letras”, da Fundação Calouste Gulbenkian, de Lisboa, e “Nova Renascença”, do Porto, da qual foi secretário de redação.

É autor de 33 livros de poesia, desde que em 1950 estreou com “Secura Verde”, que recebeu segunda edição em 2000. São tantos os livros, que seus títulos ocupam quatro páginas. Basta ver que sua vasta obra foi três vezes reunida em volume; a primeira com o título “Vocação do Silêncio” (Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1990), com prefácio de Eduardo Lourenço; a segunda em “Assim São as Algas” (Porto, Campo das Letras, 2000); e a terceira em “As Escarpas do Dia” (Porto, Edições Afrontamento, 2010), com prefácio de Vitor Manuel de Aguiar e Silva. Seus poemas estão traduzidos em espanhol, inglês, chinês (cantonense) e japonês.

Livro de Viagens Autor: Albano Martins Pre­ço: 20 euros Afrontamento Site: www.edicoesafrontamento.pt E-mail: comercial@edicoesafrontamento.pt

Livro de Viagens
Autor: Albano Martins
Pre­ço: 20 euros
Afrontamento
Site: www.edicoesafrontamento.pt
E-mail: [email protected]dicoesafrontamento.pt

De prosa, foram cinco livros, dos quais se destacam aqueles dedicados ao estudo das obras de Raul Brandão (1867-1930) e Cesário Verde (1855-1886). Além de três livros na área da literatura infanto-juvenil, organizou sete outros, inclusive antologias de poetas como Eugênio de Castro (1869-1944), David Mourão-Ferreira (1927-1996) e o brasileiro Lêdo Ivo (1924-2012).

Nas traduções, está o seu trabalho mais intenso, com 24 livros publicados. É tradutor de poetas latinos, gregos do período clássico, espanhóis, italianos e sul-americanos. Entre eles, salientam-se Giacomo Leopardi (1798-1837), Rafael Alberti (1902-1999), Nicolas Guillén (1902-1989), Roberto Juarroz (1925-1995) e Pablo Neruda (1904-1973). A tradução de “Canto General”, de Neruda, valeu-lhe, em 1999, o Grande Prêmio de Tra­dução APT/Pen Clube Português. Por sua tradução de sete obras de Neruda, recebeu do governo chileno a medalha da Ordem de Mérito Docente e Cultural Gabriela Mistral, no grau de grande oficial.

Ainda pouco estudada em universidades (não são muitas as dissertações de mestrado ou teses de doutoramento que lhe têm sido dedicadas nos dois lados do Atlântico), sua obra, no entanto, tem merecido a atenção de alguns dos mais importantes críticos e ensaístas contemporâneos, como os portugueses António Cândido Franco, António Ramos Rosa (1924-2013), Eduardo Lourenço, Eduardo Prado Coelho (1944-2007), Fernando Guimarães, Fernando J. B. Martinho, Fernando Pinto do Amaral, Maria Lúcia Lepecki (1940-2011), Ramiro Teixeira e Vítor Manuel de Aguiar e Silva, e os brasileiros Leodegário A. de Azevedo Filho (1927-2011) e Nelly Novaes Coelho.

Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de “Os vira-latas da madrugada” (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981), “Gonzaga, um poeta do Iluminismo” (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), “Barcelona brasileira” (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), “Bocage – o perfil perdido” (Lisboa, Caminho, 2003) e “Tomás Antônio Gonzaga” (Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012), entre outros.

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