Roberson Guimaraes

No filme “Poor Things” (“Pobres Criaturas”) — de Yorgos Lanthimos —, Bella Baxter (Emma Stone) é uma mulher que mora na casa do cirurgião/cientista Godwin Baxter (Willem Dafoe). Situada em uma visão lisérgica da Londres vitoriana, circulam pela casa bizarros gansos-ovelhas e cães-patos. Como descobrimos mais tarde, Bella é o resultado de uma intervenção de Godwin, que tendo recuperado o corpo de uma jovem grávida que tirou a própria vida, implantou nela o cérebro de seu filho não nascido, criando assim uma criatura híbrida.

Emma Stone e Mark Ruffalo: atuação estupenda | Foto: Divulgação

Quando conhecemos Bella, nos deparamos com uma mulher sem memória e sem nenhuma impressão sócio-cultural — fisicamente uma mulher adulta, mas em desenvolvimento uma criança. Ela aprende sobre o mundo como uma criança, através da experiência sensorial, bem como de suas relações com os arquétipos masculinos que orbitam em torno dela. Bella parte para uma odisseia existencial enquanto abre os olhos para o sentido da vida e do significado de ser mulher no mundo real. Se para a maior parte de nós a vida é um amontoado de experiências e circunstâncias que se acumulam por décadas, para Bella o processo acontece de modo rápido e abrupto. No rito de passagem que marca a saída de casa, o filme muda do preto e branco gótico para as cores vivas exuberantes e é como se estivéssemos diante da Dorothy de Lewis Carrol entrando no mundo de Oz.

Yorgos Lanthimos com Emma Stone: diretor de “Pobres Criaturas” | Foto: Divulgação

Ela viaja pela Europa enquanto atravessa os estágios freudianos do desenvolvimento psicossexual. A curiosidade infantil em sua busca pelo prazer, conhecimento e independência. O prazer aparece na masturbação, no sexo, na comida: orgasmos, êxtase e ostras.

Freud, Rembrandt e Salvador Dalí

Enquanto persegue sua autonomia, Bella Baxter enfrenta a repressão e o controle castrador representados pelas figuras masculinas. Curiosamente o homem libertário e transgressor Duncan Wedderburn (Mark Ruffalo, ótimo!) revela-se quando diz a Bella que gostava mais dela quando era burrinha, não lia e falava como uma criança. Lanthimos não alivia para os homens e talvez por isso o filme esteja sendo tachado como um libelo feminista.

Emma Stone/Bella Baxter: cena de “Pobres Criaturas” | Foto: Divulgação

O conto de fadas sobre Bella Baxter é uma viagem freudiana alimentada por ácido. Afinal, ela é sua própria mãe e também sua própria filha. Ela teve duas existências e foi criada por um cientista movido por seu próprio trauma, aludindo repetidamente aos experimentos realizados por seu pai contra ele. A estranheza dessa paisagem onírica freudiana é sempre acentuada pelas entonações cruas e espalhafatosas da trilha sonora de Jerskin Fendriks.

Há um sem-número de referências além das já citadas: obviamente o Frankenstein de Mary Shelley; Camus e o suicídio como única questão filosófica realmente séria; A lição de anatomia do Dr. Tulp de Rembrandt e a pungente cena Hieronymus-Boschiana de corpos espalhados na base de um penhasco. O surrealismo de Dalí e o expressionismo alemão, a Ilha do Dr. Moreau… O figurino e a direção de arte são maravilhosos.

É um filme estranho e engraçado, bizarro e imoral às vezes mas também provocativo e corajoso por suas múltiplas possibilidades de interpretação. Para terminar: Emma Stone tem uma atuação soberba. Que atriz!

Roberson Guimarães é médico e crítico.