Pio Vargas: um beat no Olimpo 

O poeta, que morreu aos 26, em 1991, teve sua obra (quase) completa reunida em livro

Ademir Luiz

É uma grande tentação comparar Pio Vargas com Rimbaud. Parece fácil e natural, quase uma obviedade. Os dois poetas foram garotos-prodígio, produzindo poesia de inegável qualidade, mesmo sendo muito jovens. A obra oficial de Rimbaud foi escrita, aproximadamente, entre seus 15 e 20 anos, a de Pio Vargas entre 15 e 25. Ambos saíram de cidades pequenas para se destacar na vida cultural de suas respectivas capitais. Os dois eram gregários, falastrões, iconoclastas e carismáticos. Compartilhavam o desprezo pelos medalhões da cultura. Foram ao mesmo tempo mestre e discípulo de poetas mais velhos, Verlaine para um e Edval Lourenço para outro. Finalmente, ambos tiveram mortes precoces em função da vida de excessos. Os dois publicaram a obra-prima em vida e, de figuras incômodas, tornaram-se mitos literários póstumos.

É mesmo uma tentação. Mas é um equívoco. Um equívoco e uma injustiça.

É certo que ser comparado a Rimbaud nunca será um demérito, pelo contrário. É bem mais do que boa parte de nossa numerosa fauna poética poderia almejar. Porém, se Pio Vargas for apenas e insistentemente comparado com Rimbaud, ele nunca poderá ser mais do que um “Rimbaud do cerrado”, um curioso genérico patropi. Sua personalidade individual jamais poderá ultrapassar a aparente boa intenção da comparação. Rimbaud é um monstro sagrado da literatura universal. Pio Vargas precisa ser recuperado. Já se tornou piada corrente o fato que na biblioteca pública que leva seu nome em Goiânia, capital de seu Estado natal, não há livros de sua autoria. Triste ironia essa do poeta estadual com estatura de poeta federal, não conseguir ser um poeta municipal.

Diagnóstico que se confirma quando lembramos que Paulo Leminski apontou Pio Vargas para sua sucessão. Morreu menos de dois anos antes dele. Houve sucessão ou vacância” Mais do que discutir o sexo dos anjos, esse tipo de questão é um verdadeiro “ofício de afagar efêmeros”. Portanto, deixemos as facilidades ensaísticas de lado. Pio Vargas, que escreveu os versos “nenhum compêndio / me compreende”, não é um problema solucionado. Não foi o Rimbaud brasileiro, tampouco o Leminski goiano, nem mesmo o Bukowski de Iporá.

Pio Vargas, Iúri Rincon e Ubirajara Galli

Sua biografia é vaga. São poucas as informações disponíveis. Apenas alguns dados civis e uma coleção de histórias dispersas, contadas em diferentes ocasiões por seus amigos, sempre enfocando seu senso de humor demolidor, raciocínio rápido e língua ferina. O anedotário varguiano é vasto, mas precisa de um biógrafo para organizá-lo, dar-lhe forma orgânica e cronológica. Preencher as lacunas.

O que se sabe com certeza é que Pio Vargas Abadio Rodrigues nasceu no município de Iporá, Goiás, Brasil, no dia 7 de setembro de 1964. Dia da Independência do Brasil. Consta que tinha pais severos. Recebeu pouca educação formal, tendo estudado apenas até o antigo primeiro grau na Escola Elias de Araújo Rocha. Não gostava de estudar, gostava de ler. Para isso recebeu o incentivo de dois professores e um amigo. Sua “Dona-mãe-conselheira-e-confidente” Laurinda Barbalho, responsável pela educação de várias gerações de iporaenses, Lázaro Faleiro, conhecido pelo gosto pela literatura beat, e o escritor Edival Lourenço. Por intervenção deles foi apresentado a poetas que carregaria consigo vida afora, como Drummond, Manuel Bandeira, Ferreira Gullar, T. S. Eliot, Maiakóvski e, é claro, Rimbaud; além da Geração Beat.

Tinha 19 anos quando lançou seu primeiro livro, “Janelas do Espontâneo”, em 1983. Considerado uma promessa, sua estreia chamou atenção. Abriu portas. Mudou-se para Goiânia, para trabalhar na extinta Caixego (Caixa Econômica do Estado de Goiás). Logo foi empossado como assessor geral da Secretaria de Cultura do Estado. Paralelamente, assumiu cargo na diretoria da União Brasileira de Escritores (UBE), seção Goiás. Casou-se cedo, com Edilene Naves, que chamava de uma das “naves” de sua vida.

Na UBE promovia os mais diversos eventos, desde concursos e recitais de poesia até festivais de música. Colaborou no periódico “Espaço Livre”, coordenou o “Varal de Poesia”. Em parceria com o artista plástico Edney Antunes, criou o “Projeto Graffiti-Poemas”, espalhando murais multicoloridos, salpicados com versos, pela cidade. Além de produzir e participar como jurado, frequentemente concorria em concursos de poesia falada. Era conhecido como um ótimo recitador, sabendo dosar muito bem a entonação da voz e o ritmo dos versos. Seu principal projeto foi a criação das Edições Divagar e Sempre, também chamadas de PN, Porranenhuma, feitas em fotocopias preto e branco, com o objetivo principal de divulgar novos valores nas letras do Estado. Eventualmente, publicava textos de sua lavra. Muitas vezes dividindo autoria.

A despeito da reputação de inconsequente, Pio Vargas era cuidadoso com sua obra. Alimentava planos de estabelecer um projeto poético sólido, construído passo a passo. Sabia que precisava se preparar, lapidar o próprio talento. Consta que escreveu em alguns exemplares de “Janelas do Espontâneo” que o livro “não merece ser lido”. Autocomplacência não combinava com seu caráter ironista. Portanto, descontando a possibilidade bastante concreta de que o poeta fazia charme, essa explosão de autocrítica só pode ser interpretada como perfeccionismo.

Em 1989 publicaria o livro que marcaria sua maturidade artística: “Anatomia do Gesto”. Tinha 25 anos. A obra foi vencedora da edição de 1988 do Prêmio Bolsa de Publicações José Décio Filho, promovido pela UBE-GO em parceira com o Consórcio de Empresas de Radiodifusão e Notícias do Estado (Cerne). Foi sua obra-prima.

Obviamente é impossível saber se permaneceria sendo sua obra-prima. Artistas que morrem jovens tornam-se eternas incógnitas. Ficamos imaginando o que poderiam ter realizado se vivessem mais. O que escreveria Rimbaud se não tivesse abandonado tudo para ir traficar armas na África? Lorca se tornaria um poeta do/no exílio se não tivesse se tornado um mártir político? Se Marlowe não brigasse naquele bar poderia ser um rival à altura de Shakespeare? O que mais poderia ter feito a soberba poetisa Sylvia Plath se a artista tivesse sobrevivido à histérica clássica freudiana?

Apesar de tentadoras, essas especulações são intelectualmente desonestas, além de inúteis. Na prática, a obra de um artista fica completa no momento em que ele não pode ou não deseja mais acrescentar. O tempo de vida nem sempre é determinante nessa equação, vide o fator Salinger. A expectativa do público é sempre alta e, realmente, não sei se “O Castelo” teria ficado melhor se Kafka tivesse completado a frase.

O fato é que com “Anatomia do Gesto”, Pio Vargas deu seu primeiro passo para romper seu Rubicão, o Paranaíba, rio que separa Goiás do sul maravilha, Rio de Janeiro e São Paulo. Na quarta capa do livro, Paulo Leminski escreveu que: “Pio Vargas tem um ‘eu’ coletivo tão forte que chego a vê-lo muitos. De sua poesia consigo extrair a certeza do que digo, insistente: há uma geração recente que usa e abusa da modernidade, fazendo dela o principal elemento a interferir na criação. Este Pio Vargas me trouxe uma poesia fascinante que não se atrela a falsos modelos de invenção, mas flutua, inventiva, com os mais amplos e possíveis signos do fazer poético”. Descontadas as naturais e quase obrigatórias amabilidades típicas de prefaciadores, o texto de Leminski deixava entrever que Pio Vargas despontava como algo novo no cenário brasileiro. Alguém que estava sendo observado de perto.

Justamente por isso, seu falecimento foi notícia de destaque na imprensa. Morreu em um quarto de hotel na cidade de Turvelândia, a 218 km de Goiânia, no dia 8 de março de 1991, aos 26 anos, vitimado por um ataque cardíaco. Uma meia verdade. Pudicos, os jornais da época omitiram o fato da falência do coração ter sido provocada por uma overdose de cocaína injetada direto na veia. Talvez tenha sido venerável respeito ao luto da família. Talvez tenha sido uma operação abafa. Não importa mais. O fato é que a figura de Pio Vargas era demasiadamente conhecida nos círculos letrados para passar incólume, sem julgamento público. As reações foram as mais diversas. Crônica de uma morte anunciada, diriam os moralistas: encontrou o que procurava. Quase um clichê beat, sugeriram os mais cínicos: pé na estrada, droga pesada, quarto de hotel barato.

Pio Vargas fechou “Anatomia do Gesto” com os versos: “deve haver uma forma / de concluir sem finalizar”. Sem planejar, foi o que fez. Deixou um livro no prelo: “Os Novelos do Acaso & O Ofício de Afagar Efêmeros”, vencedor do Prêmio Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos, de 1990, promovido pela Prefeitura de Goiânia. A edição póstuma saiu no ano seguinte. Em meio ao laborioso processo de composição dessa obra, pela primeira vez, Pio Vargas recebeu visitas da musa de Homero. São visitas tímidas, é verdade, mas significativas. Indicavam uma tendência que, talvez, fosse seguida dali em diante. Começou a fazer citações de elementos da cultura clássica em seus poemas: Hades, Narciso e, principalmente, Dédalo; citado duas vezes. O beat chegou ao Olimpo.

Escreveu: “Quando eu morrer / escrevam em meu túmulo: /aqui dorme pio/ que era poeta nas horas vagas”. O que se torna um poeta no pós-morte” Virgílio tornou-se mensageiro, do latim angelus, e guia para Dante. Justiça poética na acepção da palavra. Irrequieto como era, Pio Vargas não ficaria estacionado no inferno, no purgatório ou no paraíso. Se precisasse pularia muros no além. Teria que fazer um tour. Talvez guiado por Rimbaud em pessoa, especialista que é em estadias no inferno. Verlaine definiu-o como “ange et démon”, anjo e demônio. Dividindo uma garrafa de fada verde, os dois eternamente jovens poetas teriam muito o quê conversar.

Ademir Luiz é doutor em história. O artigo saiu na edição do Jornal Opção de 15 a 21 de agosto de 2010.

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ADALBERTO DE QUEIROZ

Vale a republicação, sete anos depois…