Pier Paolo Pasolini articula contradições de si e o Novo Poder

Livro derradeiro organizado pelo cineasta italiano consiste em oportunidade de acompanhar sua produção jornalística

Pier Paolo Pasolini | Foto: Reprodução

Por Diogo Mendes*, especial para o Jornal Opção, de São Paulo

Elaboração de um artigo no jornalismo suporta emergência. De vencer aquele presente, pensando na escala industrial que à informação foi ganhando até ir de encontro com as interações das redes sociais. Em meio ao jornalismo desenvolvido por Jean-Paul Marat da Revolução Francesa, até dos anos setenta do século passado de Pier Paolo Pasolini, ser articulista mudou pouco, em todo caso continua sendo um território de intervenções de ideias.

O lado ensaístico, dos veículos de comunicação resiste, desde a Itália contemporânea de Pier Paolo Pasolini, que encabeçou outros nomes como Italo Calvino, apenas citando os mais conhecidos nos outros continentes. O ensaio, através do arcabouço do artigo, amplia debates, assim servindo como “campo de batalha ou Coliseu” da classe literária daquela época, afinal as publicações jornalísticas queriam a presença desses pensantes em seus expedientes.

No livro, Escritos Corsários (2020) de Pier Paolo Pasolini com tradução de Maria Betânia Amoroso, salta à veia do articulista que produz híbridos de ensaios-artigos abastecidos de controvérsias. Em gerações posteriores, esse poeta e ficcionista, tornou-se também tarimbado cineasta através de filmes, que de certa maneira dialogam com esses textos traduzidos, como Salò ou os 120 Dias de Sodoma (1975)Pocilga (1969), Os Contos de Canterbury (1972) O Evangelho Segundo São Mateus (1964).  

 “ […] Eu sei porque sou um intelectual, um escritor que procura acompanhar tudo o que acontece, procura conhecer tudo o que se escreve a respeito, procura imaginar tudo o que não se sabe ou o que se cala; que relaciona fatos ainda que distantes, que aproxima as peças desorganizadas e fragmentárias de todo um quadro político coerente, que restabelece a lógica ali onde parece reinar a arbitrariedade, a loucura e o mistério […] ”, página 122, do artigo O romance dos massacres, em título original O que é este golpe?, o autor antepõe a razão que embuti sua escrita.

Dividido em duas partes, Escritos Corsários apresenta a primeira com seleção do próprio autor, e a segunda, trazendo outra faceta jornalística de Pier Paolo Pasolini, dessa vez concentrando na resenha literária, além de outras opiniões em texto, como entrevistas e demais redações. Por fim, ganharam luzes agora, há no livro prefácio de Alfonso Berardinelli e orelha de Davi Pessoa, além de notas detalhadas da própria tradução.

Títulos que suavizam

Ao que tange estudos, o nome de Maria Betânia Amoroso está acompanhando a divulgação de Pier Paolo Pasolini desde os anos noventa, a tradutora já trabalhou em obras como A paixão real: Pasolini e a crítica literária (Edusp, 1997) e Pier Paolo Pasolini (Cosac Naify, 2002), fez o posfácio de Poemas, volume organizado por Alfonso Berardinelli e Maurício Santana Dias (Cosac Naify, 2015) e Pier Paolo Pasolini Os jovens infelizes: antologia de escritos corsários (Brasiliense, 1990) com organização de Michel Lahud e tradução idem.

Da parceria noventista com Michel Lahud, acarretou essa edição, que busca um apanhando do pensamento de um dos principais cineastas italianos, à medida que o estreito relacionamento da autoria/ tradução ocasione títulos variantes dos originais, decerto priorizam o caráter esquemático, igual muitos dos próprios textos de Pier Paolo Pasolini. A originalidade é afastada da figura do articulista – que já queria causar polêmica, sobretudo através dos títulos.

Os títulos escolhidos diminuem essa atitude que faz o corso, aliás a edição tenta suavizar às controversas de Pier Paolo Pasolini. Não condizendo com os artigos do artista, inclusive em inúmeras partes dessas redações, encarna o timão desse corsário, toda a pilhagem está no campo das ideias, antagoniza a imaginação criativa do escritor, desafia o foco do cineasta e permuta o alcance do articulista de vários preconceitos sociais e comportamentais.  

Marcando sua produção jornalística interrompida, apenas traduzida no português-brasileiro em abrangência quatro décadas depois. Presencia o auge da técnica de confissão pública, em que o autor traz alguns dados carregados de sua vida pessoal, mediante desses ensaios-artigos, nos quais vários momentos beiram ao sensacional da mídia italiana. Trajeto, ademais, que Pier Paolo Pasolini selecionou em parcela grande dos textos para proporcionar leituras.

Observado: “ […] Que eu tenha o não saudades desse universo camponês é problema meu. Mas isso absolutamente não me impede de exercer sobre o mundo atual, tal como ele é, a minha crítica: pelo contrário, tanto maior a lucidez quando maior o meu desprendimento desse mundo, no qual aceito viver apenas por estoicismo […] ”, subscreve na página 87, do artigo Exiguidade da história e imensidão do mundo camponês, do título original Carta aberta a Italo Calvino: do que tenho saudade.

Malgrado corrente, a opinião desenvolvida na mídia italiana difere da brasileira, que assimilou o protótipo americano. Utilizando um jargão da imprensa de Johannes Gutenberg, percebe-se que nos textos pasolinianos, seu “nariz de cera” (parágrafo introdutório que adia o assunto central) recorre um bombardeio de inúmeras temáticas, até chegar a tônica, outrossim importando mais com a navegação do corsário do que a estilística dos 46 textos do livro.

Os temas levantados por Pier Paolo Pasolini em Escritos Corsários gravitam em suas máximas contradições, da teoria política, homossexualidade e religiosidade. O articulista testifica o Novo Poder, que têm mecanismos semelhantes ao fascismo arcaico, a homossexualidade do autor aparece em inúmeras linhas, e a religiosidade do artista também, sendo um voraz crítico à Igreja Católica Apostólica Romana.

Da Praça de São Pedro, a prosa jornalística de Pier Paolo Pasolini afirma há décadas anteriores, a necessidade da Igreja Católica se aproximar de uma corrente reformista. Do mesmo modo, distanciando do Novo Poder (dentro de definição pasoliniana, que americaniza todas as culturas), ao passo que acolhendo outras sexualidades que não seja apenas a heterossexual.

Polêmica como escudo

Os textos reunidos em Escritos Corsários, são dos anos 1973 até 1975, em que o autor é assassinado, sem uma contundente resolução de sua morte, tornando aqueles parágrafos graves e indiciosos. As relações turbulentas, dos setores retratados nesses ensaios-artigos de Pier Paolo Pasolini, mostram a necessidade “pirata”, apesar de muitos dos casos não se concordar com a postura preterida, é engenhosa a retórica.

Centralizando nos últimos textos da primeira parte se chega ao de maior polêmica, de título da tradução, O coito, o aborto, a falsa tolerância do poder, o conformismo dos progressistas, de título autoral, Sou contra o aborto. Embora Pier Paolo Pasolini não veja, e até em outras ocasiões admita, que não buscou entender a perspectiva da mulher perante o assunto, continuam mordazes, os artigos SacerThalassa e Cães, de modo inclusivo à intelectualidade italiana, mais exercia a homofobia do que argumentação contra a ideia do articulista.

O tema aborto dentro da visão de Pier Paolo Pasolini é mote – equivocado – que tangencia questões políticas do Novo Poder. Talvez, nesses textos selecionados, o assunto de relevância, não recebendo o jugo moral das edições dos veículos ao passo que do articulista; ou seja consumismo está enfraquecendo há décadas a mentalidade da população italiana, naquele período entrava na globalização.

Jornada de Escritos Corsários, Pier Paolo Pasolini faz quem lê, acompanhar seu Marxismo, na segunda parte, que resenha o livreto de título da tradução, M. Daniel e A. Baudry: Os Homossexuais, nome autoral, Discurso sobre os tabus que é preciso enfrentar a qualquer custo, concorda com a maioria dos posicionamentos dos redatores sobre a homossexualidade. Questiona, no arremate corsário, uma prática alinhada a ideia combativa ao consumismo.

Inúmeros momentos, Pier Paolo Pasolini revela o sumiço do dialeto friulano, que inclusive originou vários de seus poemas. Outros dialetos camponeses, em função do Novo Poder, esvanecem pelo mundo, página 219, do artigo Ignazio Buttita: Eu sou poeta, no original, Lembranças de um mundo que falava em dialeto“ […] O poeta dialetal e popular (no sentido de gramsciano) recolhe os sentimentos dos pobres, seu “rancor”, sua raiva, suas explosões de ódio: se constitui, em suma, em seu intérprete intermediário, em seu mensageiro, mas o poeta, ele próprio, é um burguês […] ”.

O aparato de batalha, em suas argumentações abre para várias prerrogativas, espécie de armadura corsária do jornalismo exercido por Pier Paolo Pasolini. Logo, o torna sendo uma das primeiras representatividades afirmativas da mídia italiana em aspecto do homossexual, do religioso, do marxista – de todas as facetas contestáveis, necessita problematizar, o que não concordava.

Tantas vezes demonstra desgosto em Escritos Corsários, Pier Paolo Pasolini em contradições articula um mundo do Novo Poder, recebeu e recebe domínio. A internet anseia nas pessoas consumo exacerbado, sendo o legado do articulista, ver no que passou, pedaços do futuro, agora vivaz, como ele fraseia, cabe como um verso da página 129, polêmica como escudo: “ […] Quem pensa é réu […] ”

Serviço:

Livro: Escritos Corsários

Autor: Pier Paolo Pasolini

Editora: 34

Páginas: 293

Preço: R$ 68

Diogo Mendes* é poeta, escritor, jornalista. Atualiza toda a semana o blog de cultura e arte, Pontofervura.

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