“A Piada Mortal” mostra o lado machista da cultura pop

Longe do padrão DC de desenhos, a animação tem um prólogo demasiadamente estereotipado, com polêmicas desnecessárias e uma Batgirl que não condiz com a que conhecemos das HQs

“A Piada Mortal” retrata uma Batgirl que não condiz com a das HQs: submissa e usada apenas como motivo para o fortalecimento do herói masculino | Foto: Reprodução

“A Piada Mortal” retrata uma Batgirl que não condiz com a das HQs: submissa e usada apenas como motivo para o fortalecimento do herói masculino | Foto: Reprodução

Ana Amélia Ribeiro
Especial para o Jornal Opção

“Este não é o começo que você es­pe­rava”, essa é a melhor frase (e a mais verdadeira) dita por Barbara Gordon, a Batgirl, no início da animação “Batman: A Piada Mortal”. Não é o começo, e não é o meio que você esperava, mas é o fim que se espera. Se fizessem uma lambança no final como fizeram no restante da animação, esse filme seria um completo desastre.

O prólogo é ruim e a segunda parte parece que foi remendada — por mais que seja fiel, quadro a quadro, à HQ original (com algumas raras exceções), é malfeita. O que tem de bom na animação “A Piada Mortal”? Mark Hamill, que está ótimo na dublagem do Coringa, e a cena pós-créditos. Só. Precisamos concordar que fazer uma animação de “A Piada Mortal” não é uma missão fácil, mas temos que dizer: existem várias questões a serem discutidas sobre a adaptação de Bruce Timm e Brian Azzarello.

A HQ escrita por Alan Moore e desenhada por Brian Bolland teve sua primeira publicação em março de 1988, vindo na “sequência” de dois quadrinhos históricos do Homem Morcego: “Cavaleiro das Trevas” (1986) e “Ano 1” (1987). Porém, a “Piada Mortal” começou a ser escrita por Moore bem antes disso — aliás, ele a escreveu durante a produção de Watchmen, provavelmente em 1986 —, mas só foi lançada em 1988 porque Bolland é famoso por extrapolar prazos e demorou dois anos para desenhar a HQ. “A Piada Mortal” foi o “encerramento” da tríade dos quadrinhos da Batmania dos anos 1980 e tornou-se, então, canônica.

O bastidor da produção gera polêmica até hoje. Em entrevista recente ao site Goodreads, Alan Moore comentou sobre o lançamento da animação e disse que pediu para o seu nome ser retirado dos créditos e orientou que a renda dos direitos, por menor que fossem, deveria ser enviada a Bolland. Explicou o motivo: “Esta é a minha posição de sempre com relação a este tipo de material. Sobre ‘A Piada Mortal’, em particular, eu nunca gostei muito dela como trabalho — embora, claro, eu me lembre da arte de Bolland como sendo algo absolutamente incrível. Mas achei um tratamento violento e sexualizado demais para um personagem simplista como o Batman e um erro da minha parte, do qual me arrependo”.

O prólogo

“Sexualizado demais” é uma expressão que define bem a animação da “A Piada Mortal”. Bruce Timm “força” o romance entre Batman e Batgirl desde as animações “The New Batman Adven­tu­res” e em “Batman Beyond”, sen­do que nesse último há uma menção de que Barbara Gordon chegou a engravidar do Homem Mor­ce­go, mas acabou perdendo o be­bê. Assim, em “A Piada Mortal”, Timm e Brian Azzarello colocaram nas telonas uma das cenas mais polemicas do filme: Batsy e Barbs transando no terraço depois de uma briga, sendo vigiados por uma gárgula voyeur.

Contudo, essa é a menor das polêmicas que envolve a animação. O grande problema do filme é a narrativa do prólogo, bastante arrastada e mal construída. O início da animação apresenta uma Barbara Gordon que não tem nada a ver com a “Barbs” conhecida por quem acompanha as histórias em quadrinhos. Além disso, todo o discurso de personagem feminina forte de Timm e Azzarello foi por água abaixo, quando acontecem as cenas em que Barbara está trabalhando na biblioteca. É um show de estereotipização.

As conversas de Barbs com o “amigo gay” se resumem a como o Batman — para o amigo, ela se refere ao Homem Morcego como seu instrutor de yoga — não admite que ela é a melhor aluna que ele já teve e também sobre como ele não pode dizer o que ela pode ou não fazer. As conversas também são sobre os sentimentos que ela tem por Batman e os sentimentos que ele talvez tenha por ela, sobre como ele não pode impedi-la de ir atrás desse vilão em específico, que, aliás, a usa como objeto o tempo todo. Outro ponto de discussão de Barbara durante a animação é a forma como ela corre atrás do Batman depois de terem transado. Batsy começa a evitar sua sidekick, não retornando e nem atendendo suas ligações, deixando-a visivelmente perturbada e confusa com toda a história.

Em meio a essa confusão toda, eis que tem mais uma cena desnecessária: Barbs está em um café e assiste na TV que as buscas ao vilão que a persegue, Parry Francesco, foram intensificadas, ficando visivelmente com raiva, pois se sente usada por Parry e também acredita que o vilão é o principal responsável pelo afastamento entre ela e Batman. Quando Barbara sai do café, ela vê um casal brigando e, quando o homem começa a gritar que ele precisa de mais espaço, BANG, Barbs o ataca com um golpe e o joga longe, deixando ali bem claro que ela não tem mais equilíbrio emocional nenhum.

Depois dessa cena lamentável, Barbs decide entrar em contato com Batman de novo — depois de pedir conselhos para um pombo — para saber como vai o andamento das investigações. Ele finalmente atende ao telefonema, diz que está próximo de solucionar o caso, e quando ela pergunta sobre “eles”, Batman responde “conversamos depois”. Então, em mais um momento de fúria, Barbs grita ao telefone. Essa sequência ainda piora de maneira absurda, pois Batman é emboscado por Parry, fazendo com que Batgirl precise ir correndo para ajudar o parceiro.

Mesmo ferido, Batman consegue nocautear alguns dos capangas de Parry e, quando menos se espera, Batgirl surge atacando os vilões, mas seu alvo é Parry. Ela vai com tudo para cima dele e, mesmo já tendo dominado o bandido, ela continua o agredindo e começa a gritar “egoísta, imundo, lixo!” para então ela dizer: “Você estragou tudo!”. Quando termina de falar, o que Parry diz a ela? “Deve ser aquela época do mês”, o que a faz se enfurecer ainda mais e o atacar com mais intensidade, até perceber que chegou ao “abismo”. Batman está lá apenas observando a situação.

Após essa confusão toda, o prólogo se encerra com Barbs entregando o posto de Batgirl. Ora, cadê a construção de personagem feminina forte que Timm e Azzarello prometeram? Quem é essa Barbara Gordon e de onde eles a tiraram? “A Piada Mortal” já é uma HQ polêmica, eles conseguiram deixá-la ainda mais e fizeram tudo isso de forma intencional. Durante o lançamento da animação na San Diego Comic Con, mais polêmicas surgiram: alguns fãs questionaram porque eles acabaram diminuindo ainda mais a personagem de Barbara Gordon, fazendo com que a história girasse ainda mais em torno dos homens ao invés de dar destaque a ela como deveriam. Então, Azzarello, até tentou defender dizendo que “ela continua sendo uma personagem forte”, mas foi aí que uma pessoa da plateia gritou: “Sim, usando sexo e depois implorando pela atenção do Bruce”. Então, o circo foi armado e Azzarello respondeu com a pérola: “Fala isso de novo, seu bundão (em inglês, ele usou ‘pussy’, o que deixa a situação mais problemática)”.

O que aprendemos com toda essa situação? Que “A Piada Mortal” é polêmica demais, e difícil de ser adaptada. Ainda mais quando envolve Bruce Timm, que já tinha dado uma entrevista falando que “A Piada Mortal” é a HQ que ele menos gosta, e Brian Azzarello, com sua visível dificuldade de escrever um roteiro sobre uma personagem feminina. Sinceramente, faltou um toque da Lauren Montgomery, que trabalhou ao lado de Bruce Timm na animação “A Morte do Superman”, e dirigiu a animação da “Mulher Maravilha”. Ela saberia construir uma personagem feminina forte.

Filme que tem o Coringa como vilão principal teve uma única sessão nos cinemas brasileiros, no dia 25 de julho | Foto: Reprodução

Filme que tem o Coringa como vilão principal teve uma única sessão nos cinemas brasileiros, no dia 25 de julho | Foto: Reprodução

A Piada Mortal

A segunda parte da animação é boa, pois não precisaram mexer no roteiro de Alan Moore. Trata-se de uma releitura fiel à HQ clássica, com raras exceções. O que incomoda na segunda parte são os traços do desenho. A animação foi feita de uma maneira simples demais e muitas vezes a entonação e emoção das vozes dos dubladores não entravam em sincronia com as feições apresentadas na tela. Ouve-se Mark Hamill dublando o Coringa, dando toda dramaticidade, mas o desenho não acompanha toda a intensidade que deveria ter durante as cenas. Além disso, os traços de Brian Bolland fazem falta nesses momentos. Mas como o enredo dessa segunda parte é fiel à HQ, é possível relevar os traços ruins, pois meio que cria uma sensação de nostalgia dos desenhos dos anos 90.

O filme termina com um epílogo que deixa subentendido que Bárbara Gordon assumiu seu papel como Oráculo. Se Bruce Timm e Brian Azzarello tivessem optado por deixar apenas essa cena e excluíssem o prólogo, essa sequência sozinha já ajudaria a apaziguar o problema em torno de “A Piada Mortal”. Na HQ de Moore e Bolland, eles nunca tiveram a intenção de interferir no arco da super-heroína e nunca quiseram criar a Oráculo. Mas, após o lançamento, os editores da DC da época incorporaram na publicação original da Batgirl toda a história que ela sofreu nas mãos do Coringa, colocando a personagem na geladeira e sendo trazida de volta anos mais tarde por John Ostrandre e Kim Yale, na revista do “Esquadrão Suicida”, em que reapresentaram Barbara como uma hacker que ajudava a equipe e criando um plot para a personagem que mostrava que deficientes físicos podem ser super-heróis, que não são incapazes e que não são descartáveis. Tempos depois, ela passa por uma cirurgia onde recupera os movimentos, e volta a ser a Batgirl, apesar dos traumas deixados pelo Coringa.

“A Piada Mortal” é uma animação que está longe do padrão DC de desenhos: roteiro fraco demais, traços desproporcionais, qualidade ruim e muita polêmica. O filme poderia ter sido melhor trabalhado e lançado em 2018 quando a obra comemora seus 30 anos de publicação. Se isso acontecesse, provavelmente teríamos uma animação melhor elaborada no estilo em que vemos na construção do enredo de “Justice League: War”. O próximo longa-metragem de animação da DC é “Justice League Dark”, que deve sair entre outubro e novembro. Tomara que não siga os mesmos moldes de “A Piada Mortal”.

Ana Amélia Ribeiro é jornalista e fã incondicional de quadrinhos. DCnauta, Marvete e muito apaixonada pela Turma da Mônica

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