Valéria V. Valle

Especial para o Jornal Opção

Em “Literatura Portátil”, de Solemar Oliveira (Revista Bula, 2022), um criar contístico condensado e elíptico surge de uma forma que faça emergir o amadurecimento do leitor, dispensando a fôrma consagrada dos textos do século XIX e XX. Cada um dos contos é uma minificção recheada de epifanias do não dito provocando uma tentação de reler o texto incessantemente para rever sempre algo novo. As águas desses minicontos cifrados são iscas que, com fisga na primeira puxada, convoca o mergulho intelectual de seu leitor.

Cada viés encontra seu lugar exato na trama nas sete partes de mini-histórias da obra de Solemar Oliveira: de Guerra, de Horror, de um Futuro Possível, de Fúria, Minipacotes de Humor e Sarcasmo, Máximas Cômicas Diminutas e uma Gota de Política e Brutas como uma Pena, todas redigidas em mínimas linhas com impacto máximo revirando os avessos para encontrar vários sentidos. Esses tipos de contos, exemplares singulares da literatura goiana, desafiam conceber a narrativa em espaço tão exíguo e tão intenso a fim de explorar nossos atos de leitura. Essas releituras nos permitem um delicioso tripé: juntar os antagônicos, questionar os equilíbrios e delirar com as descobertas.

Solemar Oliveira desencadeia uma investigação e percurso minimalista em suas narrativas por sua concisão, completude e efeito. Vejamos os textos publicados no livro utilizando a divisão do autor. No segmento de “Mini-histórias de Guerras”, observa-se uma passagem insólita para o ópio, dúbia de negritude e vermelhidão, onde o último clique foi engatilhado para o morteiro da vida. Lá, os lobos com seus fuzis dormem sob um céu de fogo, cavoucados numa terra de lama vermelha, usam sabres, correntes, gravatas, canetas e papéis em busca da dor e da vingança carregando consigo as tralhas do Nada.  São ombros pesados, cérebros cozidos, ossos fregenerados que, de mãos dadas, vivenciam o algoz caos no horizonte da inóspita certeza.

Solemar Oliveira: escritor | Foto: Divulgação

Carregados pelo Colosso de Ferro e pelo Cavalo de Tróia, seguem os vultos embacados rumo as “Mini-histórias de Horror” sempre incrustradas as margens da solidão e do desolamento. Esse organismo da estranheza usa o bote do desespero para chegar ao fosso do enigma do Cthulhu. E nessa travessia das chamas, queimam pessoas bizarras e famintas, como mortos-vivos fraturados e dilacerados pela lâmina de sangue. Entre espasmos incontroláveis e gritos lancinantes, explodem as palavras do contista Solemar, encenados no teatro uivante e macabro dessa face literária reinventada do nunca contado.

Os microrrelatos, rápidos e sintéticos, enxugam de modo ofegante e arritmada as mini-histórias de um “Futuro Possível” na gargalhada oca do Viajante do Tempo. Um holograma severo translucida víveres destroçados nas ruínas de androides e Jedis. Um futuro paisagístico de matéria mitigada e sucumbida reflete e refrata o paradoxo homem/máquina em sua multiplicidade exótica do Eu-robô.

Não bastasse esses artefatos de extermínio, de forma puída e rouca, lemos as Mini-histórias de Fúria que, assim como o poder nocauteador da construção teórica das micronarrativas, observamos nas histórias, a explosão do soco e o impacto do porrete na vermelhidão do enlouquecer. Não basta ter o riste da arma, ser o bastardo bruto, as unhas e dentes cravados na carne podre, é imperioso esquartejar o antigo e frankstanear o novo.

Nos vários pacotes fragmentados de desgraça registrados também nas mini-histórias da “Literatura Quântica ou Minipacotes de Humor e Sarcasmo”, verifica-se vários saltos quânticos a fim de atravessar uma nuvem fantástica de desintegração. Vestido de uma cautela oscilante, segue o leitor, mas não há onda de homeostase, só há uma única constatação: “Você é meio lento!”. A maciez do “algodão doce” metaforiza e eufemiza o sarcasmo de cada dia.

Digo que, nessas pequenas histórias aqui lidas, os contos que sempre amei se transformaram em diminutas pedras de teimosia. Basta ler o próximo segmento “Máximas Cômicas Diminutas e uma Gota de Política”. Sou quase uma taioba. A aparência de facilidade ao escrever um miniconto torna-se decrépita ao observarmos que cada história possui uma tese, bifurcada de forma visível e oculta, e nos lembra a “teoria do iceberg” de Hemingway que parafraseio aqui: um escritor sabe bem o que deseja escrever e escolhe o que quer ou não quer revelar. Assim, Solemar em sua brevidade linguística, nos arremessa para a fissura do segredo a ser revelado.

E não seria diferente em “Máximas Cômicas Diminutas e uma Gota de Política”. Na incúria dos incautos, registra-se um triedo sem contorno: a ciranda ofensiva, a pulverização poética, uma base pontiaguda da ignorância e do ódio. Mas o povo sofrido ainda recebe o abraço do Chico e o discurso do contista Solemar: “Taioba eliminando taiobas”.

No confinamento das teias gigantescas, surgem as mini-histórias “Brutas como uma Pena” e encerram essa pequena/grande obra de Solemar Oliveira. Na trajetória da escrita do autor o que está desvelado é menos importante do que está oculto porque os contos são mais do que uma redução de palavras, mais do que uma leitura fotográfica de determinada realidade, pois transcendem a história que contam e se revelam. Nesse último segmento, Solemar aponta a vigilância do devaneio e o julgamento cego no calabouço dos medos. Sentimos a presença das aberrações do umbral, reduto da solidão e do cansaço, que nos atiram as eternas migalhas rejeitadas. A morte nos espreita…

Nesses contos enxutos de cortar, cortar e cortar de Solemar, observa-se que a ruminação literária chega ao roer dos ossos: um certame de sentir, pensar e suscitar de vários efeitos. O autor vai direto ao essencial, dispensa as passagens pressentidas ou entediantes do texto e, reinventa, por uma nova perspectiva, histórias construídas dentro dos leitores e não para determinados leitores. Uma literatura não apenas portátil, mas portadora de elipses epifânicas e críticas.

Valéria V. Valle é presidente da Academia Anapolina de Letras.