Pérsio Forzani e José Luiz Benício: astros do pincel no voo eterno

Pérsio tem mais de três mil telas espalhadas pelo mundo. Benício fez capas dos livros “Giselle, a espiã nua que abalou Paris” e “Brigitte Montfort, a filha de Giselle”

Luiz de Aquino

Especial para o Jornal Opção

Fim da manhã de 6 de dezembro neste (ainda) fatídico 2021, recebo a notícia: Pérsio Forzani, artista plástico e excelsa figura humana, da histórica e festejada Pirenópolis, despediu-se da matéria. Menos de 24 horas depois, os filhos de José Luiz Benício enviam nota do mesmo tom: o pai, talvez cansado da ausência de sua Lourdes, assinou o conjunto pleno de sua imensa obra. Conto, a seguir, um pouco do que vivi com esses seres especiais.

Pérsio Forzani, em encantamento

Pérsio Forzani, o mais expressivo e decantado artista plástico de Pirenópolis, despediu-se da matéria no dia 6 de dezembro, de 2021. A notícia bateu como um murro de baixo pra cima, feito um murro no queixo para arrancar a cabeça; lembrei-me de um dos nossos últimos encontros. Aqui está a crônica, enfeixada por um poema especial para a festa aí narrada e que, caso eu me disponha a produzir um novo livro de poemas, este não será olvidado.

Pérsio Forzani: artista plástico| Foto: Reprodução

Pérsio, o de Pirenópolis

Imagino que quase todos os jornalistas tiveram, ao escolher o ofício, o mesmo estímulo que eu: a curiosidade ante o fato e o desejo de contá-lo. Mas isso, feito sem o efeito da boa escrita, é coisa de fofoqueiros. A diferença está justamente no amor ao texto.

Desculpem-me os leitores por essas costumeiras divagações quando me ponho a escrever. Produzir uma crônica é um dos meus grandes prazeres e não posso simplesmente imaginar que um gol é apenas um pênalti, sempre o concebo como uma articulação demorada, ziguezague que começa lá na área de defesa, evolui-se no meio do campo e se conclui na área adversária, no excitante desafio a zagueiros e goleiro, no balé de corpos e pernas, no malabarismo improvisado em frações de segundo para ver balançar a rede e erguer-se a torcida… (Poxa! Até para pedir desculpas eu divago; tudo bem, a culpa é da Copa do Mundo!).

O que me motiva, hoje, é Pérsio Forzani, artista plástico com documentos que nos mostram um homem de 79 anos. Na sexta-feira, dia 4 deste junho de 2010, Pérsio foi homenageado em Pirenópolis, sua cidade de nascer e viver sempre. Não se tratou, porém, de uma festa antecipada das oito décadas, mas dos setenta anos em que Pérsio se dedica à arte de desenhar e pintar. Luiz Antônio Godinho, ao telefone, passa-me um recado:

— Você também está escalado para saudar Pérsio…

Quem exigia? José Nominato Veiga, idealizador da festa que envolveu desde este poetinha até o prefeito Nivaldo Melo, passando por pessoas de destaque na cidade, como o artista Elder Rocha Lima e o desembargador Joaquim Henrique de Sá.

Arte de Pérsio Forzani | Foto: Reprodução

Pois é. Pérsio, de tanta vivência, tem no olhar um brilho instigante: é a luz da juventude. As pernas, imobilizadas e contidas pela pólio na tenra infância, não o impediram de jogar futebol quando menino, como contaram os amigos e o vice-prefeito Tassiano Brandão, companheiros naquela infância. Falou-se lá em outros números: são mais de três mil telas espalhadas pelo mundo, a maior parte mostrando Pirenópolis. Num só projeto, há cerca de vinte anos, Pérsio reproduziu quatrocentas casas históricas da cidade. A encomenda foi do saudoso professor José Sizenando Jaime para sua obra em dois volumes sobre as vetustas construções da antiga Meia-Ponte do Rosário.

E eu, movido pela emoção ao ser convocado, juntei camisa, calça e outras peças numa maleta, convidei a cantora Regina Jardim a acompanhar-me à terra de seu tataravô Veiga Vale e, antes de sair, concebi um poema em homenagem ao amigo e ídolo, assim:

Pérsio Forzani (o homem que pinta poesia)

Espalho-me ao tempo

ao sol que define os dias,

à Lua que benze as noites.

 

Nos anos mais verdes,

colhi serenatas plantadas nas ruas

de pedras, sem régua ou compasso.

 

Ouvi versos cantantes

e acordes dolentes; vi moças bonitas

nas janelas, silentes…

 

Era um tempo de estrelas

e risos sem censura. A gente vivia

vertigens, e era feliz.

 

Sol, luar, orvalho!

No verde, mais luz; mais vida

sob os astros.

 

Meus olhos desenham os morros,

perfis sob azul infinito, moldados

aos traços das línguas dos rios.

 

A ponte, o amor clandestino.

Carmo, Bonfim, Matriz do Rosário,

Lembranças de eu-menino…

 

Meus olhos colheram paisagens,

Memória transforma em saudade,

Pincel faz arte e riqueza.

 

Terra e gente meia-pontense:

Hino e presépio, história em imagem:

Obras de Pérsio, joias da terra.
Benício, o dos cartazes de cinema, das capas de livros, das pinups…

Benício: artista

José Luiz Benício, outro artista que se despede. Recebi a notícia por seus filhos, assim: “Nós, Bia, Béu, André, Renato e netos, com o coração doído, mas sereno, comunicamos o falecimento de nosso amado pai e avô, que se eternizou através do seu jeito ímpar de ser, do amor que sempre espalhou por onde passava e da arte que o tornou mundialmente reconhecido”.

Benício, artista múltiplo, notabilizou-se por seu trabalho em publicidade, como capas de livros semanais, pôsteres (que chamávamos de cartazes) de cinema e incontáveis peças que o tornaram conhecido em todo o mundo.

Arte de Benício

Conheci-o na minha infância; ele e meu tio Ângelo namoravam duas irmãs, com quem se casaram. Meu tio deixou a tia Marly viúva; e Zé Luiz (como o chamávamos) perdeu a Lourdes há alguns anos, mas confortou-se nas atenções dos filhos. Tive, pois, a alegria de curtir sua arte nos cartazes de cinema e nas capas de livros de bancas, como “Giselle, a espiã nua que abalou Paris” e “Brigitte Montfort, a filha de Giselle” — obras assinadas por um tal Lou Carrigan (que depois se soube tratar-se do famoso jornalista David Nasser), pela Editora Monterrey. O último encontro foi há mais de dez anos, em seu apartamento no Leblon, onde pude, em vez derradeira, ouvi-lo ao piano e descobrir seu novo hobby — estatuetas “de massinha”, como ele chamava a técnica a que se dedicava na ocasião.

Ique Woitschach diz que Benício era um mestre

Sobre ele, no calor da notícia, escreveu o exímio cartunista, ilustrador e caricaturista Ique Woitschach: “No momento dessa postagem, está sendo sepultado o meu querido amigo e mestre Jose Luiz Benício. Peço à família, muito querida, que me desculpe por não estar aí nesse momento. Me perdoem, meu coração, minha energia estão aí com vocês em oração por ele. Estou num momento de vida muito sensível, um momento emocional muito instável, e imobilizante muitas vezes, como hoje, paralisado, desconfortável com esse choque da realidade. E a sensibilidade que já estava a flor da pele, me trouxe hoje um mal-estar físico, e uma enxaqueca terrível. Me perdoem.

Arte popular de Benício

“E minha despedida, minha homenagem particular ao amigo, aqui do meu retiro emocional, é da lembrança da alegria desta foto. Esse registro foi na festa de seu aniversário de 80 anos. Benício tinha um hábito muito carinhoso de beijar no rosto os amigos, quando nos cumprimentava. Demonstração de afeto de amor que ele sentia pelos que dividiam seus momentos na vida. E nesse dia da comemoração de seus 80 anos fizemos uma chuva de beijos dos amigos, retribuindo todo o carinho que ele sempre distribuía. Foram várias fotos, até porque os amigos todos não cabiam numa única foto. E o sorriso contagiante que ele estampava era sempre esse. O homem do sorriso permanente. Do amor intenso. Do respeito ao próximo. Da retidão. Do profissionalismo. Do talento infindável, e da alma de artista que o fazia brilhar e contagiar a todos.

“Minha tristeza é maior por ter falado com ele há muito pouco tempo, combinando de nos revermos depois desse caos, assim que eu tivesse tomado minha dose de reforço da vacina da Covid. E eu já tinha me programado pra fazer uma visita surpresa pra ele em seu aniversário de 85 anos, que será na semana que vem (14/12). A vida é um sopro e essa finitude repentina dói muito, mas nos lembra de que viver o presente intensamente é a única coisa que podemos fazer.

Carmen Miranda por Benício

“Que a família querida tenha conforto nessa hora difícil, e que meu mestre e amigo descanse em paz. Na mesma paz que ele sempre buscou em vida.

Benício, você foi um gênio da raça humana, e vai viver para sempre em sua arte, seu legado e em nossos corações. #benicioparasempre #beniciovive #arte #iquecartoonist

Sites sobre a obra de Benício

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2021/12/morre-benicio-que-fez-rotulo-da-selvagem-e-cartazes-da-pornochanchada-aos-84.shtml

https://pt.wikipedia.org/wiki/Benicio

Faleceu o ilustrador Benício

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