A pensão

Escrito em 1905 e publicado em 1914, no livro de contos “Dublinenses”, o texto narra a história de uma jovem apaixonada vivendo sob o olhar reprovador da mãe

James Joyce

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Foto: Giséle Freund

A senhora Mooney, filha de um açougueiro, era mulher decidida, capaz de resolver sozinha seus problemas. Desposara o empregado de confiança do pai e abrira um açougue próximo a Spring Gardens. Mas logo que o sogro morreu, o senhor Mooney começou a descambar. Bebia, furtava da caixa, enterrava-se em dívidas. Era inútil arrancar-lhe a promessa de não beber: dias depois recomeçava. Comprando carne de má qualidade e brigando com a mulher na presença dos fregueses, acabou por arruinar o negócio. Certa noite, perseguiu-a de machado na mão e ela teve de dormir na casa de um vizinho. Depois disso, viveram separados. Ela procurou o padre e conseguiu o desquite, ficando com a custódia das crianças. Não daria dinheiro, nem casa, nem comida ao marido. Isto obrigou-o a alistar-se entre os ajudantes do delegado. Era um bêbado baixote, esfarrapado e submisso, de rosto pálido, bigodes e sobrancelhas brancas, riscadas sobre dois olhinhos congestionados e grotescos. Passava o dia sentado na antessala do delegado, esperando que lhe dessem algum serviço. A senhora Mooney era mulher grande e imponente. Tendo ficado com o dinheiro salvo do negócio, instalou uma pensão na rua Hardwicke. A casa abrigava uma população flutuante, constituída de turistas vindos de Liverpool e de Isle of Man e, ocasionalmente, de artistas do teatro musicado. Os residentes fixos eram empregados do comércio, que trabalhavam na cidade. Dirigia a pensão com habilidade e firmeza. Sabia quando dar crédito, quando ser intransigente e quando deixar as coisas passarem. Os rapazes chamavam-na de A Madame. Os hóspedes da senhora Mooney pagavam quinze xelins semanais por quarto e comida (vinho e cerveja à parte). Tinham os mesmos gostos e ocupações e, por essa razão, viviam em grande camaradagem. Discu­tiam entre si a sorte dos hóspedes favoritos ou temporários. Jack Mooney, filho da Madame, era empregado de um corretor da rua Fleet e tinha a reputação de ser um caso perdido. Gostava de empregar a gíria obscena dos soldados e, geralmente, entrava em casa de madrugada. Quando encontrava os amigos, tinha sempre uma novidade para contar e pretendia estar informado de tudo que havia de bom pela cidade, isto é, qual era o cavalo favorito ou o artista de maior sucesso. Não hesitava em usar os punhos e cantava canções satíricas. Nas noites de domingo, costumava fazer reuniões na sala-de-visitas. Os artistas faziam questão de colaborar. Sheridan tocava valsas e polcas ou improvisava. Polly Mooney, filha da Madame, também cantava: Sou uma menina travessa Não precisas fingir: Sabes bem que sou. Era uma jovem esbelta de dezenove anos. Tinha cabelos finos e macios, boca delicada e sumarenta. Quando falava com alguém, seus olhos castanhos sombreados de verde tinham o hábito de olharem para o alto, o que lhe dava a aparência de uma pequena e perversa madona. A princípio, a senhora Mooney empregara-a como datilógrafa no escritório de um comerciante de cereais. Sucedendo, porém, que um desclassificado ajudante do delegado vinha quase todo dia ao escritório, pedir para conversar um pouco com a filha, ela retirou-a desse emprego e colocou-a novamente nos trabalhos domésticos. Como Polly era muito esperta, foi encarregada de atender a mesa dos rapazes, mesmo porque rapazes sempre gostam de sentir uma mulher jovem por perto. Polly, naturalmente, flertava com eles. A senhora Mooney, porém, era muito perspicaz e sabia que estavam apenas passando o tempo: nenhum deles tinha intenções sérias. As coisas continuaram assim por muito tempo e ela chegara a pensar em mandar Polly de volta à datilografia, quando notou que algo se passava entre a filha e um dos pensionistas. Sem nada dizer, passou a observá-los. Polly percebeu que estava sendo vigiada, mas isso não bastava: era preciso conhecer as verdadeiras intenções da mãe. Não havia qualquer cumplicidade, nenhum entendimento explícito entre elas. Contudo, apesar dos hóspedes terem começado a comentar, a senhora Mooney não intervinha. Polly tornara-se um pouco estranha em suas maneiras e o rapaz andava visivelmente perturbado. Por fim, quando julgou ser o momento exato, ela interferiu. Lidava com problemas morais, tal qual um açougueiro com carne. E neste caso, sua resolução estava tomada. Era uma bela manhã de domingo no princípio do verão prometendo calor, mas perpassada por suave brisa. As janelas estavam abertas e, por sob as vidraças, as cortinas de renda enfunavam-se brandamente em direção à rua. O campanário de George’s Church repicava com insistência e os fiéis, sozinhos ou em grupos, cruzavam a pequena praça, revelando para onde iam pelos pequenos livros que traziam nas mãos enluvadas e pela maneira recatada de andar. Terminara o café da ma­nhã e a mesa da sala de jantar estava coberta de pratos, nos quais se viam estrias amarelas de ovo, restos de toucinho e couro torrado. A senhora Mooney sentou-se na poltrona de palha e ficou vigiando Mary, a criada, tirar a mesa. Mandou-a recolher as cascas e pedaços de pão para serem utilizados no pudim da segunda-feira. Quando a mesa ficou limpa, recolhidos os restos de pão, o açúcar e a manteiga guardados a chave, começou a re­cons­tituir a conversa que tivera com Polly na noite anterior. As coisas andavam como suspeitara. Tinha sido franca nas perguntas e Polly não menos franca nas respostas. Ambas, é claro, sentiram-se um tanto embaraçadas. Ela, por não querer parecer conivente, recebendo a notícia com muita calma. Polly, não apenas pelo fato de insinuações desse gênero deixarem-na sempre embaraçada, mas também para que a mãe não pensasse que, em sua esperta inocência, adivinhara as intenções que a tolerância materna dissimulava. Ao perceber, em seu devaneio, que os sinos da igreja haviam silenciado, a senhora Mooney olhou instintivamente para o relógio dourado sobre a lareira. Onze e dezessete. Havia tempo de sobra para resolver o assunto com o senhor Doran e estar na rua Malborough ao meio-dia. Tinha certeza de que sairia vitoriosa. Para começar, contava com o peso da opinião pública a seu favor: era mãe ultrajada. Permitira a ele viver sob seu teto, supondo que fosse um homem honrado e ele simplesmente abusara de sua hospitalidade. Com trinta e quatro ou trinta e cinco anos de idade, não podia alegar juventude ou inexperiência como desculpa. Era um homem vivido. Apro­veitara-se, isto sim, da juventude e inexperiência de Polly. A questão, pois, era esta: de que modo repararia seu ato? Em casos como este, deve haver uma reparação. Para o homem nada se altera. Passado o momento de prazer, pode seguir caminho como se nada houvesse acontecido. A mulher, no entanto, tem de suportar as consequências. Certas mães de bom grado acomodariam o assunto por dinheiro. Conhecia alguns exemplos. Ela não faria isso. Só havia uma reparação para a honra da filha: o casamento. Pesou mais uma vez os trunfos, antes de mandar Mary ao quarto de Doran, avisá-lo de que desejava lhe falar. Tinha certeza de vencer. Era um rapaz comportado, nem um pouco libertino e espalhafatoso como os outros. Se fosse Sheridan, Meade ou Bantan Lyons, a tarefa seria mais difícil. Não considerava Doran capaz de enfrentar um escândalo. Todos os hóspedes sabiam mais ou menos do caso. Alguns haviam até inventado detalhes. Além disso, ele estava empregado, há mais de treze anos, no escritório de um grande comerciante de vinhos, muito católico e o escândalo poderia significar a perda do emprego. No entanto, se concordasse, tudo terminaria bem. cul9Quase onze e meia! Levan­tou-se e foi até o espelho. Ficou satisfeita com a expressão resoluta de seu rosto corado e pensou em certas mães, suas conhecidas, que não conseguiam de­sembaraçar-se das filhas. Doran estava verdadeiramente angustiado naquela manhã de domingo. Tentara duas vezes fazer a barba, mas a mão tremia tanto que fora obrigado a desistir. Uma barba ruiva, de três dias, orlava-lhe as faces e cada dois ou três minutos uma névoa cobria-lhe os óculos, obrigando-o a tirá-los e limpá-los com o lenço. A lembrança da confissão da noite anterior causava-lhe acerbo sofrimento. O padre extraíra-lhe os detalhes mais ridículos e de tal forma exagerara seu pecado, que sentia-se quase agradecido por lhe permitirem repará-lo de algum modo. O mal estava feito. Que poderia fazer agora, a não ser casar ou fugir? Não seria capaz de arriscar um escândalo. Cer­tamente o caso seria comentado e seu patrão acabaria sabendo. Sentiu o coração na garganta quando, na exaltação em que se encontrava, imaginou o velho Leonard gritar com sua voz estridente: “Mande-me o senhor Doran!” Longos anos de serviços desbaratados! Toda sua dedicação e assiduidade jogadas fora! Quando jovem, é claro, cometera extravagâncias: jactara-se de ser livre-pensador, negara a existência de Deus diante dos amigos nos bares. Tudo isto, porém, pertencia ao passado… ou quase. Ainda comprava um exemplar do Reynold’s Newspaper toda semana; mas não deixava de cumprir seus deveres religiosos e em nove décimos do ano levava uma vida metódica. Tinha dinheiro suficiente para se casar. O problema não era esse. Sua família desprezaria a moça. Em primeiro lugar, havia o pai desmoralizado e, depois, a pensão que começava a ter má fama. Teve a impressão de que jogavam com ele. Podia ver os amigos rindo ao comentarem o caso. Ela era um tanto vulgar: pronunciava errado as palavras, confundia o tempo dos verbos. Mas que importância teria a gramática se realmente a amasse? Não chegara a concluir se devia amá-la ou desprezá-la pelo que fizera. Ele também era responsável. O instinto incitava-o a permanecer livre: — quem se casa, perdido está. Estava sentado na beirada da cama, em mangas de camisa, desanimado, quando ela bateu de leve na porta e entrou. Contou-lhe que confessara tudo à mãe e que esta viria falar com ele. Chorando, enlaçou-lhe o pescoço e disse: — Ó Bob! Bob! Que devo fazer? Em seguida, afirmou que pretendia dar cabo de sua vida. Sem muito entusiasmo ele a consolou sentindo-lhe os seios palpitarem contra sua camisa. Tudo terminaria bem, assegurou. Não havia o que temer. Não era o único culpado do que acontecera. Lembrava-se perfeitamente, com a estranha e paciente memória dos celibatários, das primeiras carícias acidentais que o vestido, o hálito, os dedos dela lhe haviam feito. E de como, certa noite, quando já se despia para dormir, ela batera timidamente na porta do quarto. Queria reacender o castiçal que um sopro de vento apagara. Era sua noite de banho e ela vestia uma camisola solta e aberta, de flanela estampada. O dorso ní­veo de seus pés reluzia fora dos chinelos forrados e o sangue corava-lhe a pele perfumada. Suave perfume escapou de suas mãos, quando ela acendeu e procurou proteger a chama da vela. Nas noites em que voltava tarde, era Polly quem lhe es­quentava o jantar. Não sabia direito o que estava comendo, sentindo-se a sós com ela na casa adormecida. E que desvelos! Se a noite estava um pouco fria, úmida ou, então, se ventasse, havia sempre um trago de ponche à sua espera. Talvez pudessem ser felizes juntos… Subiam a escada na ponta dos pés, ambos de vela na mão e, no terceiro patamar, trocavam relutantes despedidas. Beijavam-se. Lembrava- se claramente dos seus olhos, do toque de sua mão e do delírio que ele próprio sentia… Mas o delírio passa. Que devo fazer? Repetiu a frase de Polly, aplicando-a a si mesmo. O instinto de celibatário exortava-o a não ceder. Mas o pecado consumara-se e sua própria honra dizia que era preciso repará-lo. Ainda estavam ali, sentados na cama, quando Mary chegou à porta e avisou que a patroa queria lhe falar. Mais desconsolado que nunca, levantou-se para vestir o colete e o paletó. Quando se aprontou, acercou-se dela para confortá-la. Tudo se arranjaria, não precisava se preocupar. Deixou-a na cama, a murmurar meigamente entre soluços: Ó meu Deus! Quando descia a escada, os óculos ficaram tão embaçados que teve de tirá-los para limpar. Gostaria de atravessar o teto e voar para um outro país, onde nunca mais ouvisse falar daquela enrascada, mas uma força em­purrava-o passo a passo para baixo. Os rostos implacáveis de seu patrão e da Madame pairavam sobre sua desgraça. No último lance da escada, cruzou com Jack Mooney que vinha da despensa sobraçando duas garrafas de cerveja. Cumprimentaram-se e os olhos do amante fixaram-se, por alguns segundos, no rosto gordo de buldogue e em dois braços curtos e potentes. Ao pé da sacada, voltou-se para cima e viu Jack olhando-o da porta do sótão. Subitamente, recordou-se da noite em que um dos artistas um loi­rinho de Londres, fizera certa alusão indiscreta a respeito de Polly. A reunião quase terminara devido a vio­lenta reação de Jack. Todos pro­cu­ravam acalmá-lo. O artista, um pou­co mais pálido que de costume, continuara a sorrir, afirmando que não tivera intenção de ofender. Contudo Jack não parava de gritar que se alguém mais ousasse falar naquele tom de sua irmã, ele o faria engolir os dentes; não duvidassem disso. Polly ficou sentada na cama, chorando. Passado algum tempo, enxugou os olhos e foi mirar-se no espelho. Molhou a ponta da toalha na jarra e refrescou os olhos. Contemplou-se de perfil e arrumou um grampo sobre a orelha. Voltou para a cama e sentou-se novamente. Ficou olhando os travesseiros que despertavam amáveis recordações. Recostou a nuca na grade fria da cama e caiu em devaneios. Já não havia em seu rosto a menor inquietação. Esperou pacientemente, qua­se feliz, passando, pouco a pouco, de recordações a esperanças e visões do futuro. Imagens tão complicadas que ela já não enxergava os travesseiros, nem se lembrava de estar aguardando alguma coisa. Finalmente, ouviu a mãe chamar. Levantou-se de um salto e correu para a escada. — Polly! Polly! — Sim, mamãe? — Desce, querida. O senhor Doran quer falar com você. Recordou-se então do que estava esperando. Publicado no livro “Dublinenses”. A tradução é de Hamilton Trevisan.  

via Revista Bula

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