Pedro Salinas, o “poeta do amor” do mundo hispânico

Parte da geração de García Lorca, o autor ganha tradução de José Jeronymo Rivera, que será publicada pela goiana Editora Kelps. Trata-se de “Razão de Amor & Longo Lamento”

Além do ofício de escritor, o autor de “A Voz a Ti Devida” e também graduado em Direito, Letras e Filosofia, Pedro Salinas, dedicou-se ainda à docência universitária

Além do ofício de escritor, o autor de “A Voz a Ti Devida” e também graduado em Direito, Letras e Filosofia, Pedro Salinas, dedicou-se ainda à docência universitária

“Não podem
viver assim, não mais; estão à beira
do desmaiar das sombras, que é o nada.
Acode, vem comigo.
Estende as mãos, estende-lhes teu corpo.

(…)
E seu sono afanoso
de sombras, outra vez, será o retorno
a esta rósea e mortal corporeidade
onde inventa o amor seu infinito”

Pedro Salinas

Adelto Gonçalves
Especial para o Jornal Opção

Depois de lançar em 2012 a tradução de “A Voz a Ti Devida” (Brasília, Thesaurus Editora), de Pedro Salinas (1891-1951), o tradutor José Jeronymo Rivera (1933) coloca no mercado “Razão de Amor & Longo La­mento”, do mesmo autor, pela Editora Kelps, de Goiânia, contribuindo para que o poeta espanhol seja um pouco mais conhecido no Brasil. Trata-se de dois livros em um só volume, que compõem com “A Voz a Ti Devida” uma trilogia daquele que é conhecido no mundo hispânico como “o poeta do amor”.

Salinas fez parte da Geração de 1927, que inclui, entre outros, Rafael Alberti (1902-1999), Jorge Guillén (1893-1984), Luis Cernuda (1902-1963), Vicente Aleixandre (1898-1984) e, o mais famoso deles, Fe­derico García Lorca (1898-1936). É verdade que “A Voz a Ti Devida” é o seu título mais conhecido, justamente considerado o melhor livro de poesia amorosa do século 20 da Literatura Espanhola, mas os que compõem a trilogia não ficam nada a dever.

Esta trilogia faz parte da segunda etapa da vida de Salinas como poeta, que é marcada por uma lírica em segunda pessoa, dirigida à mulher amiga e amada, mas evocada no ambiente da época, a conturbada década de 1930 na Espanha, que fez Salinas mudar-se compulsoriamente para os Estados Unidos, onde a partir de 1936 passou a atuar como professor universitário. Os poemas, especialmente os dos dois últimos livros da trilogia, seriam inspirados pela professora norte-americana Katherine Whitmore, com quem o poeta viveu um romance naquele país.

Na poesia dessa fase, são comuns metáforas de muita intensidade, dentro de longas estrofes que se valem de elementos métricos curtos, com assonâncias, que estabelecem um ritmo inconfundível. Desse período são “La Voz a ti Debida” (1933); “Razón de Amor” (1936) e “Largo Lamento” (1939).

Lecionador

De assinalar é que a primeira fase da poesia de Salinas vai até o começo da década de 1930, influenciada por Juan Ramón Jiménez (1881-1958), período em que publicou “Presagios” (1924), “Seguro azar” (1929) e “Fabula y signo” (1931). A terceira etapa vai de 1939 até a sua morte, em 1951, período em que publicou mais dois livros — os intitulados “El contemplado” (1946) e “Todo más claro y otros poemas” (1949). Em 1955, em edição póstuma, saiu “Confianza”, que reúne poemas do período de 1942 a 1944.

Graduado em Direito, Letras e Filosofia, Salinas dedicou-se sempre à docência universitária. De 1914 a 1917, atuou como leitor de Espanhol na Sorbonne, em Paris, onde se doutorou em Letras. De sua afinidade com a cultura francesa resultou a vontade de traduzir para o espanhol “Em busca do tempo perdido”, de Marcel Proust (1871-1922), tarefa que não chegou a concluir, tendo vertido alguns volumes.

Depois, Salinas ensinou na Universidade de Sevilha e, em 1922-23, em Cambridge. Passou para a Universidade de Múrcia e, em seguida, para a de Madri. As circunstâncias da guerra civil espanhola (1936-1939) o obrigaram a mudar-se para os Estados Unidos, onde passou a lecionar na Universidade Johns Hopkins, em Baltimore. Em 1943, transferiu-se para a Universidade de Porto Rico, mas reassumiu mais tarde a cátedra na Johns Hopkins. Morreu em Boston, mas está sepultado em San Juan de Puerto Rico.

Singeleza

Quem compulsar o original e ler os dois livros de Salinas que saíram agora em português há de constatar que o poeta teve a sorte de encontrar o seu tradutor ideal. Salinas não é um poeta rebuscado — pelo contrário, busca a singeleza como ideal —, mas, por isso mesmo, é de difícil tradução, ou seja, é fundamental que seu tradutor seja também poeta, pois, muitas vezes, a singeleza de seus versos exige a recriação.

Por isso, encontrou em Rivera um “poeta disfrazado de traductor”, na perfeita definição que consta do estudo introdutório que José Antonio Pérez-Montoro escreveu para “A Voz a ti Devida”. Em outras palavras, Rivera seria o interlocutor certo não só pelo conhecimento que tem da língua espanhola como pelo respeito que devota à sintaxe original. Vejamos como exemplo estes versos de “Razão de Amor”:

Serás, amor,
um grande adeus que não se acaba?
Viver, desde o princípio, é separar-se.
Já no primeiro encontro,
com a luz e com os lábios,
o coração percebe essa aflição
de ter que cego estar e só um dia.
Amor é demora milagrosa
de seu próprio acabar:
é prolongar o feito mágico
de que um e um sejam dois, ao contrário
de uma primeira pena desta vida. (…)

(…) Se se estreitam as mãos, e se se abraça,
nunca é para afastar-se,
é porque a alma cegamente sente
que a forma permissível de estar juntos
é uma despedida grande, clara.
É que o que é mais seguro é sempre o adeus.

No estudo introdutório que escreveu para “Razão de Amor & Longo Lamento”, o poeta Ander­son Braga Horta reconhece que a tradução perfeita é impossível, mas observa que, no caso, “a perfeição da tradução está em reproduzir, recompor, recriar em vernáculo um artefato com o máximo das qualidades do original”. É, de fato, o que faz Rivera, “poeta experimentado na arte de traduzir”, segundo a definição de Braga Horta.

Tradutor

Engenheiro civil, economista e administrador, Rivera, que reside em Brasília desde 1961, foi professor universitário e de ensino médio. É membro da Academia de Letras do Brasil, da Academia Brasiliense de Letras, da As­sociação Nacional de Escritores (ANE) e da Academia Leo­pol­­dinense de Le­tras e Artes.

Leitor compulsivo em espanhol, francês, inglês e italiano, Ri­vera tem dado uma contribuição inestimável ao enriquecimento das letras nacionais com criações originais de outras línguas, como é bom exemplo a tradução que fez de “Gaspard de la Nuit”, de Aloysius Bertrand (1807-1841).

Produziu ainda numerosas versões do português para o castelhano, algumas já publicadas em “Poetas Portugueses y Brasileños de los Simbolistas a los Modernistas”, obra organizada pelo professor José Augusto Seabra (1937-2004), ao tempo em que era embaixador de Portugal em Buenos Aires, publicada pelo Instituto Camões. Traduziu também “Cidades Tentaculares”, poemas do belga Émile Verhaeren (1855-1916), de quem tem pronta para ao prelo a versão de “Les Heurs”. Traduziu ainda o clássico “Rimas”, de Gustavo Adol­fo Bécquer (1836-1870).

De sua produção poética, publicou “Aprendizado de poesia: 1951-1953” (The­­saurus Edi­tora, 2004). Pu­bli­cou ainda “Hum­berto de Cam­pos: Poesia; Xavier Plac­er: Poemas”; “Mi­­­guel Torga: Con­tos”; e “Almeida Gar­rett: Poesias”, também pela Thesaurus E­ditora. Cola­borou, em parceria, na tradução de “Poetas do Sé­culo de Ouro Es­panhol”; “Victor Hu­go: Dois Séculos de Poesia”; “Sá­tiro e Outros Poemas”; “An­to­logia Poética Ibero-Americana”; e “Rodolfo Alonso: Antologia Pes­soal”, entre outros. É detentor dos prê­mios de tradução Joaquim Nor­berto e Cecília Meireles, da União Brasileira de Escritores (UBE), do Rio de Janeiro.

Adelto Gonçalves é autor de “Os vira-latas da madrugada” (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981; Taubaté, Letra Selvagem, 2015), entre outros.

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