Paulinho da Viola criou uma espécie de samba de câmara. Mas é um deus em qualquer lugar

No espetáculo da UFG, o cantor e músico brindou o público com uma espécie de história da música brasileira. Até quem “não” gostou achou excelente

Paulinho da Viola é um deus — não à toa seu pai é César. Sem descurar da tradição, renovou o samba e o choro. Ao mesmo tempo que ama o velho, onde bebe, cria o novo, que reformula aquele (sem a intenção de substitui-lo). No espetáculo de terça-feira, 17, na Universidade Federal de Goiás, em Goiânia, o rei dos reis, mesmo cantando para uma multidão, mostrou-se intimista, inclusive nas conversas com o público — quase inaudíveis, dada à qualidade apenas razoável do som e à própria fala do cantor-compositor-músico. Felizmente, canta muito melhor do que fala.

Paulinho da Viola: talento revelado na adolescência | Foto: Álbum de família

Locais amplos parecem não acolher bem Paulinho da Viola. Mas, pela motivação do público — que, claro, não dançou como se baila num show de Alceu Valença —, talvez não seja bem assim. Com sua voz que acaricia (lembra a voz de veludo de Mel Tormé) — quase ninando o público —, o cantor-músico (com seu violão e seu cavaquinho) abraça o ouvinte, que o aplaude contido, quase de joelhos, súdito que é, ante um deus-rei. Talvez seja possível sugerir, e sugerir é o termo, que Paulinho da Viola faz “samba de câmara”. Por isso, quem sabe, às vezes é melhor ouvi-lo em disco — na intimidade de uma sala relativamente silenciosa. Sua música, que celebra a alegria da solidão, encanta mais quando o ouvinte está atento exclusivamente à voz e aos acordes, e não também ao movimento das pessoas. A distração, a verdadeira “arte” moderna (diria Saul Bellow), se não trava, não permite a fruição ampla da musicalidade do artista carioca de 77 anos (em novembro), que, sim, parece ser muito mais jovem.

Quem vai a espetáculos sabe, de antemão, que assistirá um show e o movimento que o cerca. Ouvirá o artista, mas também todo o barulho circundante. Show é balbúrdia (gente andando pra lá e pra cá, gente ligando a lanterninha do celular para procurar não se sabe o quê), esta faz parte daquele. Com Paulinho da Viola, é claro, não foi diferente. Mas quem, de fato, se importa com isto, sobretudo por ouvir samba de primeira linha? Ninguém. Em sã consciência, fomos ao espetáculo para amá-lo mais uma vez, para vê-lo. Uma coisa meio sagrada — e, sim, estamos falando de um deus da música patropi. Um magic-Paulinho. Um cantor-compositor filósofo.

Paulinho da Viola: um mestre das cordas | Foto: Álbum de família

O artista sabe que o público vai ao espetáculo para ouvir e participar (João Gilberto não quis entender que nem público de música erudita fica mais quieto o tempo todo). Por isso, no lugar de apresentar seus novos trabalhos, exibem as músicas mais conhecidas. Porque as pessoas se empolgarão mais e poderão, eventualmente, cantar juntas. Show é interação — e todo artista sabe disso. Mas seria interessante a mistura de repertório antigo com repertório novo. A presença da cantora Beatriz Rabello e do violonista João Rabello — filhos de Paulinho da Viola — abrilhantaram o espetáculo. Beatriz canta bem, é afinada, e provoca certo estranhamento porque o que se espera, num primeiro momento, é que seja uma Paulinho da Viola de vestido. E ela é, sempre, Beatriz Rabello. A musicalidade da família, desde César, é extraordinária.

Por fim, não dá para reclamar quando se tem a possibilidade de ouvir um deus-rei da música universal (se fosse americano, Paulinho da Viola seria chamado de Cole Porter 1 e Cole Porter seria chamado de Paulinho da Viola 2). A seminal UFG nos deu o grande presente de 2019 — graças à competência habitual de Edward Madureira, o reitor (que merece o advérbio “grande” — e é um homem tão simples quanto o artista), e Flávia Cruvinel, que sabe tudo do mundo das artes. Os dois dirigentes dignificam a universidade pública, que há de resistir bravamente às incompreensões — político-ideológicas e administrativas — dos que governam o país.

Paulinho da Viola, Hermínio Bello de Carvalho e Elizeth Cardoso | Foto: Álbum de família

Nome “Paulinho da Viola” é criação de Zé Kéti e Sérgio Cabral

+ Paulinho da Viola nasceu Paulo César Baptista de Faria (a mãe, Paula-Paulina — que trabalhou como enfermeira em hospícios — mudou seu nome depois de uma briga com César).

+ O pai do artista, César, era um violonista exímio e acompanhava Jacob do Bandolim.

+ Quem ensinou as artes das cordas a Paulinho da Viola não foi seu pai — certamente, a figura inspiradora, porque era violonista—, e sim Zé Maria, que, segundo João Máximo, no livro “Paulinho da Viola — Sambista e Chorão” (Relume Dumará, 130 páginas), “conhecia música, lia partituras, fazia transcrições para o violão de Dilermando Reis e tocava ele próprio um pouco de tudo, de choro a Debussy”.

Élton Medeiros e Paulinho da Viola: amigos e parceiros | Foto: Álbum de família

+ João Máximo informa que “o primeiro método de violão em que Paulo César estudou foi o de Mateo Carcassi, da escola espanhola de Francisco Tárrega”.

+ A casa de César era uma universidade do samba, só com pós-doutores: Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Altamiro Carrilho, entre muitos outros.

+ As aulas de Zé Maria foram decisivas, dada a técnica apurada do mestre. Mas Paulinho da Viola aprendeu muito ouvindo o pai e Jacob do Bandolim tocar. As lições de choro na casa do mestre “fariam” Paulinho da Viola se “dedicar ao gênero um amor só comparado ao que teria pelo samba”. Mais tarde, estudou teoria e harmonia com Esther Scliar. Com Esther e Reginaldo Carvalho, “formou a base de que precisava para ler e escrever partituras, conhecer harmonia, ser realmente um músico”, registra João Máximo.

+ Paulinho da Viola é conhecido como sambista, mas é também chorão.

Em pé: Élton Medeiros, Turíbio Santos, Nélson Sargento, Paulinho da Viola, Jair do Cavaquinho e Anescarzinho do Salgueiro. Sentadas: as cantoras Clementina de Jesus, Aracy de Almeida e Aracy Cortes | Foto: Álbum de Família

+ Hermínio Bello de Carvalho, Zé Kéti e Élton Medeiros (que morreu recentemente e foi citado por Paulinho da Viola no centro de cultura e convenções da UFG) eram frequentadores do Zicartola, restaurante de Cartola e de sua mulher, Zica. Lá, enquanto comiam, as pessoas ouviam música de primeira, com, entre outros, Cartola, o rei. O príncipe, ainda sem saber que era príncipe, apareceu, um dia, escoltado por Hermínio. João Máximo historia o encontro dos deuses: “Desde sua estreia no primeiro show da noite, cantando sambas dos outros, [Paulinho da Viola] causou forte impressão. Inclusive em Cartola, de quem Paulo César se aproximou humilde, cheio de cerimônia. O encontro dos dois é historicamente significativo, verdadeira passagem de bastão. (…) Zé Kéti também se encantou com o som do violão de Paulo César, sua musicalidade, sua voz terna, afinada, que combinava o timbre de autêntico sambista de escola com a técnica precisa de crooner profissional”.

+ No Zicartola, o jornalista e crítico Sérgio Cabral — o “bom”, o que está velhinho e com Alzheimer — sugeriu que “Paulo César não era nome de sambista”, relata João Máximo. “Que tal Paulo da Viola?”, sugeriu Zé Kéti, que teria se inspirado em Mano Décio da Viola, compositor do Império Serrano. Sérgio Cabral refinou a sugestão: “Paulinho… Paulinho da Viola é melhor”. Era-é mesmo. Tanto que ficou e virou nome de deus-rei.

Paulinho da Viola e Beatriz Rabello, sua filha cantora | Foto: Reprodução

+ Ao perceber o imenso talento de Paulinho da Viola, “Zé Kéti tratou de incentivá-lo a cantar mais, em vez de só acompanhar. De preferência, composições suas”, conta João Máximo. Bebamos um cálice de vinho do Porto em homenagem a Zé Kéti — que estava certíssimo

+ Ah, como o Iúri Rincon Godinho, Paulinho da Viola é torcedor do Vasco. Ninguém é perfeito.

+ Paulinho da Viola adora marcenaria. Faz e conserta móveis. Também conserta, quanto necessário, seu velho — e sempre novo —  Karmann-Ghia.

+ Se disserem a você que o Brasil, na música, é uma monarquia não hesite nem duvide: Paulinho da Viola é nosso rei — ao lado de príncipes, como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento e Martinho da Vila (que ouço com imenso prazer), e princesas, como Gal Costa, Maria Bethânia, Elza Soares e Marisa Monte. Entre os duques como não incluir o fabuloso Jorge Ben Jor? E Hamilton de Holanda? Barão, por certo. E merecem citação os condes Alceu Valença e Zé Ramalho e o visconde Fagner. Ah, nem falei da monarquia dos mortos…

Música “Coração Leviano”

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