Pau que bate em Chico também bate em eu-lírico?

Será possível, ainda hoje, seguir romanceando o abandono do lar como bela figura poética? Longe de ser uma ironia, essa pergunta é um desafio a ser tomado a sério

“Tua cantiga”, nova canção de Chico Buarque, tornou-se objeto de polêmica

Thiago Cazarim
Especial para o Jornal Opção

É realmente tocante a comoção em torno da possível desarticulação entre as “personæ” (“iden­tidades”, no jar­gão militante) poética e “real” do poeta, este último sendo aquele que indubitavelmente escreveria, mas ficando a dúvida sobre haver ou não correspondência entre as vozes dele e do eu-lírico do poema. Uma divisão, aliás, meio escolar e careta, mas que ainda revela um pouco de como funciona nossa relação com a poesia (além, claro, do funcionamento da poesia em si mesma, algo nem de longe desprezível).

Pois bem. “Largo mulher e filhos” é um dos jargões, clichês, lugares-comuns, em suma, textos compartilhados ao longo de décadas. Afinal, quem acredita que foi o Chico Buarque ou seu eu-lírico que inventaram essa expressão, posta na canção “Tua cantiga”? Chico e seu eu-lírico repetem algo batido, pisado e repisado, dito à exaustão. Para os apreciadores de sua obra que a acharam genial, seria bom admitir isso para não recaírem no ufanismo típico as torcidas de futebol. Originalidade, em definitivo, não é um critério relevante nesse caso.

O problema, convenhamos, não é a falta de originalidade ou a distinção de direito entre poeta, persona poética e texto. Isso é algo compartilhado entre todos nós que lidamos alguma vez na vida com criação. O imbróglio é que, mesmo tendo em vista fins poéticos, Chico optou por se apropriar de textos que pertencem a domínios delicados da vida comum. Textos que estabelecem mais referências do que simples metáforas. Textos que seguem, sem necessariamente a ironia que lhe é cara, a lógica da paródia de repetirem outros textos, fazendo nesse movimento uma referência a estes por meio de um deslizamento de sentido que não os apaga completamente.

Chico não “errou” simplesmente ao usar um clichê como o do homem que abandona seu lar. Erro é uma categoria insuficiente para pensar o que ocorreu aí. O que ele, seu eu-lírico e/ou seu poema fizeram foi despertar vários outros textos existentes. Textos que proferimos toda vez que o texto do abandono masculino do lar se afirma como poético. Eles mesmos instauram um campo referencial e um circuito de implicações entre poesia pura e realidade cotidiana.

É certo que essas implicações entre o literal e o ficcional sempre estão sujeitas a serem desfeitas e refeitas. Mas talvez seja apressado tributar a um literalismo raivoso militante (que de fato abunda em nosso tempo) um sistema de referências que só se tornou possível pela recuperação de um significante que extrapola enormemente o campo literário. “Largo mulher e filhos”, se causa a reação literalista, não o faz por incompetência interpretativa, falta de imaginação ou de repertório poético. O problema reside justamente no oposto: é um significante sobressignificado, com sentidos em excesso, um texto já infinitamente escrito e reescrito – e tanto, e tantas vezes, que a cada nova inscrição que fazemos sobre esse texto alguns de seus sentidos parecem se apagam enquanto outros vão se saturando e formando novas cristalizações, novas figuras de sentido mais pertinentes ou determinantes.

O problema, no geral, não consiste somente na necessidade de apontar a ocorrência do literalismo, a grita militante que raramente faz um empenho em desenvolver uma cultura poética. O problema está também na crença do literarismo, como se o apelo a uma tradição poética ou a percepção de que a persona literária não corresponde à pessoa real pudessem eximir o escritor de seguir na difícil tarefa de produzir sentidos a partir do incansável trabalho de inscrição que se realiza sobre os textos e significantes já proferidos. Precisamente neste ponto, a crítica do literalismo encontra seu algoz. Não nas pessoas que se erguem contra a licença poética de Chico Buarque, mas no próprio trabalho de significação. Se não é possível recomeçar do zero a escrita e o mundo do sentido, se é sempre partindo do já dito que se pode dizer algo diverso, será possível, ainda hoje, seguir romanceando o abandono do lar como bela figura poética? Longe de ser uma ironia, essa pergunta é um desafio a ser tomado a sério. Somente a partir dela se pode dar uma resposta efetivamente literária – e não meramente política – à falta de sensibilidade poética alegada pelos críticos especializados.

Thiago Cazarim é professor do Instituto Federal de Goiás, Bacharel em Música e doutorando em Performances Culturais.

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Patrícia Chanely Silva Ricarte

Drummond deixara seu contributo para a questão: “Caso do Vestido” Carlos Drummond de Andrade Nossa mãe, o que é aquele vestido, naquele prego? Minhas filhas, é o vestido de uma dona que passou. Passou quando, nossa mãe? Era nossa conhecida? Minhas filhas, boca presa. Vosso pai evém chegando. Nossa mãe, dizei depressa que vestido é esse vestido. Minhas filhas, mas o corpo ficou frio e não o veste. O vestido, nesse prego, está morto, sossegado. Nossa mãe, esse vestido tanta renda, esse segredo! Minhas filhas, escutai palavras de minha boca. Era uma dona de longe, vosso pai enamorou-se. E ficou… Leia mais