Para sempre “Lúcia”: metalinguística e inverossimilhança no filme que é quase um thriller sobre o Alzheimer

Longa que deu Oscar a Julianne Moore é forte por valorizar a memória a partir de seu esvaziamento

O longa revela, com excesso de falta de cores, o não preenchimento de algo necessário a todos: a memória | Foto: Diamond Films

O longa revela, com excesso de falta de cores, o não preenchimento de algo necessário a todos: a memória | Foto: Diamond Films

Luiz Serenini Prado
Especial para o Jornal Opção

O nome pouco importa. Alice. Lúcia. Julianne. Talvez, no mais recôndito dos pensamentos, este lapso possa significar um pouco do que a fita demonstra tão bem: a sensação do desligamento. A figura cruelmente dura de um feixe de fios que, um a um, vão sendo desconectados temporariamente. Metáfora da vida? Aquela mesma que o poeta romano Marcus Manílio dizia que começa a acabar a partir do momento em que nascemos? Por que não?

Certo é que o filme “Para sempre Alice” (2014), mais claramente definido no título original “Still Alice”, com direção de Richard Glatzer e Wash Westmoreland, retrata mais do que aquilo que os críticos especializados estão apontando como um “filme de atriz”. Evidentemente que baseados na performance de Julianne Moore, fantástica na caracterização do olhar para o nada que ajuda a compensar até mesmo a overdose de canastrice do seu marido Alec Baldwin.

Muitos especialistas apontam o filme como “filme de atriz”, pela fantástica atução de  Julianne Moore | Foto: Diamond Films

Muitos especialistas apontam o filme como “filme de atriz”, pela fantástica atução de Julianne Moore | Foto: Diamond Films

O filme é mais do que isso: revela com excesso de falta de cores o esvaziamento de um recipiente que cada um de nós custamos a preencher no decorrer de toda uma trajetória de vida. O requinte de ironia está no fato de que ali a personagem é nada menos que uma professora de linguística, uma profissional de comunicação que, imagina-se aqui, tem motivos para achar que nada pode ser capaz de lhe tirar este domínio. Descobre-se que algo é capaz, além da morte. Como se percebe igualmente que, do ponto de vista de um leigo, todos nos comunicamos, e não apenas os especialistas em comunicação. Da mesma maneira percebemos que, portanto, só a ausência nos leva a ter a dimensão exata do valor da presença, de que já tratou Heráclito.

Por falar em presença, nota-se também a ausência da morte. Curiosamente, nem aqui nem no sul-coreano “Poesia” (2010), de Lee Chang-dong, outra bela fita que aborda os efeitos do Alzheimer, ela aparece. Talvez por ser desnecessária a menção. Notável que também em “Poesia”, até pelo título, os autores procuram estabelecer uma relação entre as palavras e o seu esvaecimento, a essência e a falência da comunicação. Quando a morte mais se anuncia em “Still Alice”, numa torrente ao mesmo tempo metalinguística e digna de um thriller de suspense, o que mais se revela é uma “meio inverossimilhança”. Alice/Lúcia não conseguiriam agir daquela maneira. O barulho na porta. O aparente despertar para a vida (que nunca se confirma). A nossa sensação de alívio ao perceber que Alice, Lúcia ou qualquer que seja o seu nome estancou ali o flerte com o desatino.

Tudo, enfim, nos encaminha para a maior das verdades expostas não pela tecnicidade da fita, não pelo talento deste ator ou daquela atriz. Qual a verdade? A verdade de que o filme trata, acima de tudo, não é a de Alice, Lúcia ou o nome que se queira dar. Trata, acima de tudo, da última palavra dita em cada uma de suas exibições. E que não precisa ser dita aqui. Todos sabemos qual, mas, justo de tanto saber, não deixaremos de nos emocionar.

Luiz Serenini Prado é publicitário e professor de comunicação.

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