Pandemia pode ser útil aos Estados para aumentar o controle sobre a vida do cidadão

Pandemia pode ser um divisor de águas na história da vigilância por implicar uma transição drástica do monitoramento sobre a pele para um monitoramento sob a pele

Fernando Bueno Oliveira
Especial para o Jornal Opção

Ao longo do ano de 2020 Yuval Noah Harari, um conhecido historiador israelense, escreveu e falou extensivamente sobre as possíveis implicações do atual momento de pandemia num futuro relativamente próximo. Professor do departamento de História na Universidade Hebraica de Jerusalém e autor dos best-sellers “Sapiens” (também em formato HQ) e “Homo Deus”, Harari acredita que ainda há um longo caminho até superarmos a crise global gerada pela pandemia. Contudo, postula, estamos em uma situação melhor do que em qualquer outro momento da história.

Tanto no artigo “Na batalha contra o coronavírus, faltam líderes à humanidade” (Breve Companhia, 24 páginas) quanto na coletânea “Notas Sobre a Pandemia — Breves Lições Para o Mundo Pós-Coronavírus” (Companhia das Letras, 128 páginas, tradução de Odorico Leal), Harari examina os dilemas da encruzilhada histórica provocada pela pandemia do novo coronavírus. Os textos exploram temas como o isolacionismo nacionalista e a cooperação global, o risco da ascensão de Estados totalitários, os possíveis impactos do vírus na concepção contemporânea sobre a morte e as consequências da falta de uma liderança global que coordene a atual situação.

Desde “Sapiens” até “21 Lições Para o Século XXI”, Harari segue a linha evolutiva dos seres humanos demonstrando que somos hoje muito mais poderosos que os nossos ancestrais, embora, talvez, não mais felizes que eles. Entretanto, os nossos superpoderes não garantiram que formássemos uma sociedade perfeita. Ainda não conseguimos resolver todos os problemas de ordem social, econômica, política, ambiental e sanitária. A grande vantagem em relação aos nossos antepassados é que interpretamos à luz da ciência os pandemônios que nos atormentam: somos cônscios de que não se trata de calamidade natural inevitável ou da fúria dos deuses, mas são o resultado da incompetência humana, de fracassos humanos indesculpáveis.

Apesar de tudo, somos nós que moldamos a história e não os seres minúsculos. Harari desenvolve seus argumentos com o estilo que o consagrou, entrelaçando os caminhos e descaminhos da humanidade entre passado, presente e futuro. A boa notícia, ressalta, é que a maior parte do planeta concorda em concentrar os esforços nos avanços científicos a fim de combater a propagação e a evolução do novo coronavírus.

Em seus escritos e entrevistas concedidas a diferentes espaços da mídia, o escritor é enfático na ideia de que o aspecto do mundo depois da Covid-19 dependerá das decisões que tomarmos hoje. Para ele, atitudes como a aversão aos estrangeiros, a impulsividade pelo lucro e a crença em teorias da conspiração, ao permearem as decisões e práticas humanas, produzem um terreno fértil para a propagação e evolução dos vírus. O ódio, a ganância e a ignorância são demônios interiores que só podem ser combatidos com altíssimas doses de compaixão, generosidade e sabedoria.

O antídoto para epidemias é a cooperação entre os governos e a solidariedade entre as nações. O autor aposta na ideia de que a proteção real vem da troca de informação científica confiável e da confiança das pessoas nos especialistas, dos cidadãos nos poderes públicos e dos países uns nos outros. Compartilhar informações globalmente, ter espírito de confiança e de cooperação internacional seriam ações indispensáveis para a derrota do vírus. Uma visão utópica? Bem, para o cineasta argentino Fernando Birri a utopia é o horizonte dos sonhos que nos fazem caminhar.

Yuval Noah Harari: historiador israelense | Foto: Reprodução

Entretanto, pensar o século 21 sem os sete pecados capitais é algo como imaginar a uma sociedade ideal, perfeita e inalcançável, assim como a musa requintada do poeta brasileiro Álvares de Azevedo. Apostar numa contemporaneidade com ações predominantes de cooperação solidária é quase ser admirador inconteste do discurso do ex-presidente uruguaio e ovelha negra José Mujica e das crônicas do jornalista uruguaio Eduardo Galeano. Um mundo do “paz e amor” talvez exista mesmo somente entre os persistentes adeptos do movimento hippie.

Perverso para uns ou generoso para outros, o contexto atual é marcado pela integração econômica e pelo ritmo frenético de migração mundial: num mundo globalizado as pessoas se movimentam com rapidez pelos países. Dessa forma, o novo coronavírus acabou viajando de ônibus, metrôs, cruzeiros, aviões e de trens-bala. Diante da disseminação do vírus, governos mundiais optaram pelo lockdown e por outros métodos que caracterizam o “novo normal”. Mas o passado também nos ensinou que o isolacionismo e a segregação não garantem que sociedades inteiras saiam ilesas. Mesmo sem a eficácia dos modernos sistemas de transportes de hoje, a peste negra no século 14 e a varíola no século 16 também se disseminaram.

Em março de 2020 Harari dizia que um dos piores problemas com esse tipo de pandemia seria uma rápida evolução do vírus. Alguns países já têm vivenciado essa desastrosa experiência. A mutação pode tornar o coronavírus mais infeccioso e mais resistente ao sistema imunológico humano: uma única mutação em um único gene de um único vírus que infecta um único ser humano em alguma parte do mundo já seria o suficiente para o apocalipse? Talvez não.

Enquanto os medievos nunca puderam descobrir a causa da peste negra, os cientistas levaram apenas duas semanas para identificar o novo coronavírus, sequenciar seu genoma e desenvolver um teste confiável para detectar pessoas infectadas. A rápida formulação da vacina contra a Covid-19 possibilitou que em menos de um ano, desde as primeiras notícias sobre a possibilidade de epidemia, parte da população mundial já recebesse as primeiras doses (o vírus Influenza causador da gripe espanhola foi identificado somente na década de 1930 possibilitando a produção da vacina somente 26 anos após o primeiro caso de contaminação).

Ainda assim há motivos para que estejamos inseguros e desconfiados. Basta lembrar de alguns laboratórios que chegaram a pedir isenção de responsabilidade contra possíveis processos judiciais por eventuais reações adversas com as vacinas; ou, ainda, das empresas farmacêuticas multinacionais que, correndo contra o tempo, encontraram na pandemia um terreno propício para o imediato faturamento. Somam-se a isso as teorias da conspiração do tipo “querem nos injetar nanochips” com o controle Illuminati de qualidade. Se bem que tal conjectura mereça um pouco de nossa atenção.

Numa conjuntura pandêmica, um leque de possibilidades se abre a governos (“mal” intencionados?) e instituições: o chamado “vírus chinês” tem consolidado a implementação das tecnologias de vigilância totalitária. A China já monitora de perto os smartphones da população permitindo as autoridades detectar rapidamente possíveis infectados. A Agência de Segurança Israelense consegue identificar pacientes com coronavírus. Para o autor, a pandemia pode vir a ser um divisor de águas na história da vigilância por implicar uma transição drástica de um monitoramento “sobre a pele” para um monitoramento “sob a pele”: o governo vai querer saber a temperatura do seu dedo e a pressão sanguínea sob a sua pele e, de quebra, saber tudo sobre você.

O novo coronavírus mudará as atitudes dos seres humanos diante da morte? Provavelmente não. Embora o escritor considere a ausência da religiosidade como um importante aspecto do século 21, dificilmente a humanidade deixará de venerar as suas divindades. Templos podem se tornar meros prédios não frequentados, mas as pessoas ainda buscarão o auxílio de seus entes sobrenaturais. Dizem os sociólogos que a tendência atual é a de crer sem pertencer a nenhuma religião, o que acaba sendo ponto positivo para o atual momento, visto que quando as pessoas se unem para rezar, multidões, ao invés da proteção divina, podem receber a maldição do contágio viral.

Por enquanto a morte é algo ainda inevitável, mas ainda assim já conseguimos avançar: em 2021 a ciência continuará a aumentar o poder humano. Contudo procedem daí certos equívocos, sobretudo a concepção de que a ciência é sempre uniforme e única. Na verdade debates, discussões e contestações são inevitáveis até que os pares cheguem a um consenso.

Harari enfatiza que a pandemia se torna ainda pior quando reina a deterioração das relações internacionais. Os Estados Unidos atuaram em 2014 contra o vírus Ebola e em 2018 contra o colapso econômico e, agora, no atual contexto, renunciou ao seu papel de líder mundial, frisa o historiador. Assiste-se a uma ausência de liderança e cooperação e estamos sem os adultos mundiais que geralmente assumem a direção, arregimentam o mundo e impedem a concretização dos piores cenários.

“Divirjo mestre!”. Essa liderança não cabe a Organização Mundial da Saúde (OMS)? Faz sentido culpar os Estados Unidos? Já que acabamos de nos lembrar do famoso Seu Ptolomeu ao discordar das respostas de Marina da Glória, nas cômicas aulas da inesquecível “Escolinha do Professor Raimundo”, nada melhor que darmos asas à imaginação.

Se pudéssemos direcionar tais questionamentos à personagem Marina da Glória correríamos o sério risco de ter as suas respostas validadas pelo “bondoso” professor Raimundo, fossem elas quais fossem. Talvez dissesse que a OMS, desde o início, tomou as decisões certas e em tempo hábil e que os Estados Unidos são os responsáveis pela falta de liderança mundial no atual momento, diria ela, não com esses termos. O professor, mais levado pelo seu “ângulo de visão”, concordaria integralmente (mesmo discordando).

Por ser um aluno aplicado e bem informado, fiquemos com Seu Ptolomeu. Talvez as suas respostas às indagações acima levariam em conta que todos erraram, mas as mancadas da OMS foram as piores. Os erros mais gritantes ficaram com diferentes modelagens matemáticas, vendendo certezas e entregando incertezas, projetaram números assustadores. Muitos se esqueceram de ler as letras pequenininhas, onde se fazia a ressalva de que as projeções virariam realidade se nada fosse feito para conter o vírus, diria o xará do grande cientista de Alexandria.

Não custa nada lembrar que o novo coronavírus é proveniente do Oriente. Depositar na conta dos Estados Unidos o rearranjo provocado pela atual pandemia é no mínimo reafirmar o seu poderio. É quase uma mensagem literal de que somente o Tio Sam tem os superpoderes na tomada de decisões globais, ideia que chega a ir contra a agenda globalista (no mundo do Twitter esse termo parece perfeito) da qual Harari é comprometido. A luta pela igualdade, pela união e cooperação dos povos em prol de uma sociedade do tipo “vamos todos de mãos dadas” tem o seu preço: afinal, não somos todos responsáveis? Não basta delegar a responsabilidade a um país somente, por sinal, já tão criticado pelos “socialistas” de iPhone e amantes do “Che”.

O atual momento nos tem ensinado, sem dúvida, algo sobre o valor da boa saúde, dos contatos sociais, da liberdade de circulação e das possibilidades da internet. Coletivamente a nossa batalha contra a Covid-19 tem sido até agora um triunfo científico. A tecnologia aplicada à ciência proporcionou a identificação do novo vírus, a contenção de sua propagação e o desenvolvimento da vacina. Hoje a humanidade tem melhores ferramentas para lidar com a Covid-19 do que com qualquer outra pandemia já vivenciada na história.

Desde que as primeiras notícias sobre o coronavírus foram veiculadas pela mídia, os países têm direcionado ações a fim de amenizar um caos vindouro. Os governos, cada qual em seu contexto, assumem a responsabilidade de imunizar as suas populações e se tornam mais preparados para enfrentar outras ameaças futuras que talvez sejam ainda mais complexas. Essa tempestade passará. Quem viver, verá.

Fernando Bueno Oliveira é doutorando em Geografia pela Universidade Federal de Goiás.

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