Pandemia da Covid-19 encontra semelhanças no filme “Clube de Compras Dallas”

História contada pelo longa-metragem retrata busca de pessoas infectadas pelo HIV por tratamento mais eficaz do que medicamento com forte lobby farmacêutico

Clube de Compras Dallas - Foto Divulgação

“Clube de Compras Dallas”, premiado filme no Oscar e no Globo de Ouro nas categorias melhor ator e melhor ator coadjuvante, mostra a corrida por um tratamento diante da descoberta de uma nova doença causada por um vírus acompanhada pelo preconceito | Foto: Reprodução

A vida do eletricista Ron Woodroof, protagonista do filme “Clube de Compras Dallas”, não é um exemplo para ninguém. Machista e homofóbico, o caubói foi diagnosticado com HIV, o vírus da aids, em 1985. Há 35 anos, o preconceito levou o personagem de Matthew McConaughey a ser tratado como homossexual de forma pejorativa, porque era assim que a sociedade norte-americana encarava os pacientes da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida. A doença era popularmente conhecida nos anos 1980 como o “câncer gay”.

Descoberta em 1981, o HIV levou aquele caubói ao isolamento quatro anos depois. Perdeu o emprego e viu os amigos se afastarem. Ninguém queria nem tocar na mão de Ron Woodroof. No hospital, o tratamento experimental com AZT gerava diversos efeitos colaterais. O medicamento prolongava a vida do paciente, mas não controlava o vírus no organismo.

O filme rendeu o Oscar de melhor ator a McCounaghey, que desbancou a bela atuação de Leonardo DiCaprio em “O Lobo de Wall Street”. Duas interpretações impecáveis. Não só “Clube de Compras Dallas” rendeu a estatueta ao protagonista, mas o ator coadjuvante premiado foi Jared Leto, que viveu o papel de Rayon. A amizade entre Woodroof e Rayon faz o preconceito do caubói machão texano ir ao pó em busca de medicamentos não autorizados nos Estados Unidos para oferecer um tratamento alternativo no lugar do agressivo AZT.

Associados e contrabando

A ideia de um clube de associados que pagavam assinatura para receber remédios não autorizados pelo FDA (Food and Drug Administration – equivalente à Anvisa no Brasil), como o fluconazol, contrabandeados do México não agradou as autoridades norte-americanas, os médicos e o lobby farmacêutico pelo uso do AZT como única droga possível de ser prescrita para o tratamento da aids nos Estados Unidos.

O remédio utilizado no hospital onde o protagonista recebeu o primeiro tratamento seguiu como única droga aplicada em pacientes com HIV até 1995. A aids criou um novo hábito nas relações sexuais: o uso da camisinha. O preservativo masculino só era utilizado para evitar uma gravidez indesejada. Não existia na população a preocupação em ter na camisinha uma arma contra infecções sexualmente transmissíveis.

Até 1986, só 8% dos jovens no Brasil usaram preservativo na primeira transa. Em 2005, o percentual já era de 65,8%. Mais de 32 milhões de pessoas morreram em decorrência do HIV no mundo desde os primeiros casos há 39 anos. Somente em 1996, os pacientes da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida passaram a receber o tratamento por meio do Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil. O acesso ao coquetel foi unversalizado no País em 2013.

E o AZT?

AZT? Que nada! Como no filme, o tratamento é feito por meio de um coquetel de medicamentos. Pelos dados do Ministério da Saúde, existem mais de 36 combinações de drogas oferecidas a pacientes do HIV. A partir de 2017, 87% dos tratamentos passaram a utilizar três antirretrovirais no Brasil: dolutegravir, tenofovir e lamivudini.

Depois de muita luta na Justiça, o protagonista de “Clube de Compras Dallas” conseguiu a autorização para uso pessoal dos medicamentos que contrabandeava do México. Woodroof morreu em 1992 por causa de uma pneumonia em decorrência da aids. A luta com o FDA pela autorização de outros medicamentos e tratamentos que não fossem o AZT marcou a luta de pacientes do HIV contra um suposto lobby farmacêutico.

E é justamente aqui que a cloroquina e a hidroxicloroquina entram em jogo. Se em “Clube de Compras Dallas” o AZT era a droga preferida dos hospitais e alguns médicos, em três países a hidroxicloroquina se tornou a salvação não comprovada da Covid-19. A diferença entre o HIV e o Sars-CoV-2 é a forma de contágio. Enquanto o novo coronavírus é transmitido por vias respiratórias, o vírus causador da aids passa de uma pessoa infectada para outra por meio de relação sexual sem proteção ou compartilhamento de seringas.

Pregadores da hidroxicloroquina

Regina Duarte Jair Bolsonaro - Foto Antonio Cruz Agência Brasil

Ao lado da secretária especial de Cultura, Regina Duarte, o presidente Jair Bolsonaro viu três ministros considerados técnicos saírem do governo em menos de 30 dias | Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

O primeiro defensor da hidroxicloroquina, quando apenas um artigo francês – já bastante criticado e contestado – falava em “cura 100% da Covid-19 em pacientes”, foi o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O republicano apostou no medicamento usado no tratamento de lúpus, artrite reumatoide e malária como a salvação dos nortes-americanos no combate à pandemia.

Começou-se a verificar indícios de que Trump teria interesse em uma indústria farmacêutica que começou a fabricar a hidroxicloroquina com a queda da patente do medicamento. Assim que outros estudos começaram a mostrar uma tendência de ineficácia da droga no tratamento de pacientes da Covid-19, além do risco de efeitos colaterais graves, como arritmia cardíaca, o presidente norte-americano parou de tocar no assunto.

Garoto-propaganda

No Brasil, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) defendeu a hidroxicloroquina e a cloroquina como medicamentos comprovadamente eficazes na cura da doença causada pelo novo coronavírus. Ninguém sabe onde Bolsonaro encontrou tais evidências, porque nem nas pesquisas científicas ao redor do mundo essas provas existem. O chefe do Executivo brasileiro determinou que o Exército fabricasse mais de 1 milhão de comprimidos, que agora não tem mercado comprador.

A principal fabricante no País da hidroxicloroquina, a EMS, tem dificuldade em produzir o remédio pelo encarecimento dos insumos, que são encontrados na China e Índia. Além disso, a EMS alega que não consegue comprar a matéria-prima dos dois países e está impedida de subir o preço do medicamento nas prateleiras, o que torna a comercialização financeiramente inviável.

Parecia que o assunto tinha morrido, mas na semana passada a hidroxicloroquina foi responsável pela queda do segundo ministro da Saúde em 29 dias – de 16 de abril a 15 de maio. Bolsonaro quer obrigar o titular da pasta a mudar o protocolo de autorização de uso do medicamento no País e liberar a prescrição desde o surgimento de sintomas leves da Covid-19. Até aqui, os médicos que ocuparam o cargo não toparam ir contra o conhecimento científico e as recomendações das autoridades de saúde internacionais.

Até o preconceito presente em “Clube de Compras Dallas”, quando os pacientes do HIV são tratados como diferentes, se reproduz contra chineses, país onde os primeiros casos da Covid-19 foram verificados. No governo Bolsonaro, dois ministros – Relações Exteriores e Educação – tratam o Sars-CoV-2 como “vírus chinês” e “comunavírus”. O que não sabemos é onde vamos parar com tanta teoria da conspiração olavista.

Companheiro venezuelano

Maradona e Nicolás Maduro - Foto Twitter - editada

Sobrou ao presidente Jair Bolsonaro um líder sul-americano que imagino que o brasileiro não pretende dar as mãos na batalha pró-hidroxicloroquina: o venezuelano Nicolás Maduro | Foto: Reprodução/Twitter

Mas Bolsonaro encontrou agora um parceiro na luta pela hidroxicloroquina. Melhor ainda, um vizinho na América do Sul. O problema é que o presidente brasileiro passou a campanha em repetidas críticas à Venezuela. Bolsonaro só tem hoje no mundo para reforçar a defesa da droga no combate ao novo coronavírus o presidente venezuelano Nicolás Maduro, que também autorizou a produção em larga escala do medicamento em seu país.

Até o momento, as pesquisas apontam para possíveis bons resultados com outro medicamento. O remdesivir parece promissor nos primeiros testes em laboratório, muito mais do que a hidroxicloroquina, que se mostrou ineficaz no tratamento da Covid-19. Ao contrário da hidroxicloroquina, o remdesivir não recebe a mesma atenção de líderes mundiais, segue o protocolo e o tempo dos testes científicos, e nem parece despertar uma corrida dos laboratórios farmacêuticos por uma fabricação em massa da droga.

Seria a hidroxicloroquina de hoje o AZT de ontem? Só o tempo dirá. Enquanto isso, veja – ou reveja – “Clube de Compras de Dallas”. Que filmaço!

 

 

 

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