Carlos Russo Jr.

O romance “Pais e Filhos” (Companhia das Letras, 344 páginas, tradução de Rubens Figueiredo), do russo Ivan Turguêniev (1818-1883) é, antes de tudo, um clássico e, como tal, um divisor de água, abridor de sendas. Ademais, um dos mais belos romances intimista e de cunho social já escritos.

Pode-se a ele, sem margem a dúvidas, aplicar o adjetivo delicado, suave e eterno, tal quais serão as florezinhas que brotarão na tumba onde jaz o jovem estudante de Medicina Bazárov, o personagem niilista e revoltado da trama.

As forças da natureza, o tempo, as relações humanas, as diferenças sociais. Todos esses fatores incomodam o pensar, geram angústias existenciais e ações dos seres efêmeros, nós os humanos, esses filhos de Prometeu, que devem continuamente optar pela negação ou pela afirmação em suas curtas existências, sem nem ao menos pensar que dentro de cinco, dez, trinta anos cada opção, ação, afirmação ou negação, o que importará?

Nada. Nihil

Turguêniev destacou-se por ter dado ampla circulação ao termo niilismo (embora não o tenha inventado). O niilista, explica Turguêniev por intermédio de um de seus personagens, “é uma pessoa que não se curva diante de nenhuma autoridade, que não admite nenhum princípio sem provas”.

Ao descrevermos “Pais e Filhos” temos o dever de esclarecer que tudo no romance está profundamente calcado na realidade russa. Uma Rússia que vivia no atraso de uma economia agrária e feudal, sob a autocracia czarista.

Entretanto, pela primeira vez na história russa, um grande clamor por reformas se fazia ouvir, sobretudo nas camadas intelectuais aristocráticas, às quais Ivan Turguêniev pertencia por nascença. Essa foi, aliás, uma das grandes virtudes do escritor: analisar um quadro político e social de mudanças no momento mesmo em que estas começavam a tomar forma.

Turguêniev buscava inspirações para as mudanças sociais em seu país no Ocidente, especificamente na França, onde viveu a maior parte de sua vida adulta. Seu pai falecera prematuramente e sua mãe, senhora feudal, cruel para com seus servos, era extremamente autoritária com seus dois filhos. Quando a mãe morreu, Ivan e seu irmão libertaram mais de 5 mil servos de suas propriedades.

O jovem Ivan estudou filosofia na Universidade de São Petersburgo, na época a mais conceituada do império russo. Aluno prodígio, bacharelou-se aos 20 anos. Partiu para a Alemanha, prosseguindo seus estudos na Universidade de Berlim, tornando-se um dos mais brilhantes hegelianos.

Ivan Turguêniev e Liev Tolstói eram amigos e admiravam a obra um do outro | Fotos: Reproduções

Mas foi em Paris que Ivan conheceu o amor de sua vida. A mais célebre cantora soprano da época: Pauline Viadot. Acontece que Pauline era casada com um rico aristocrata, trinta anos mais velho. Apaixonado e correspondido, Turguêniev mudou-se para a França e o relacionamento a três, absolutamente consentido e assumido, perdurou até sua morte.

Ivan tornou-se o preceptor dos quatro filhos de Pauline, aos quais muito amou. Isto tudo encontra reflexos em “Pais e Filhos”. Pois os pais e os filhos refletem o sempre renovado conflito de gerações; para alguns sem resolução no decorrer da própria existência, para a maioria revificado ao se tornarem, por sua vez, pais.

De todo modo, tornou-se o primeiro escritor russo a celebrizar-se na Europa Ocidental.

Turguêniev, Flaubert, Dostoiévski e Tolstói

Seu amigo literário mais próximo era Gustave Flaubert, com quem compartilhava ideias sociais e estéticas similares. Ambos rejeitaram as visões políticas de direita e de anarquistas radicais; na verdade, tinham uma visão de mundo bastante pessimista.

Ivan Turguêniev e um camponês numa caçada | Foto: Reprodução

Já as relações com Tolstói e Dostoiévski foram muitas vezes tensas, embora a amizade te Pusnha se mantido por toda a vida. Acontece que a preferência de Turguêniev pela cultura europeia os irritava. Um outro aspecto os separava: enquanto os primeiros eram cristãos, Turguêniev era absolutamente agnóstico, a la Flaubert.

Dostoiévski apreciou tanto “Pais e Filhos” que se inspirou nele ao estruturar alguns dos personagens centrais em seus romances como Raskólnikov, Ivan Karamázov e Smierdiakov.

Em 1880, o discurso de Dostoiévski na inauguração do monumento a Púchkin provocou lágrimas em Turguêniev, pelo eloquente tributo de seu rival ao espírito russo.

Quando pior fora a situação financeira de Dostoiévski com ameaça de prisão por dívidas, foi Turguêniev quem lhe emprestou o dinheiro, permitindo seu segundo casamento como Anna. Anos após, quando Dostoiévski prosperou, Ivan lembrou ao amigo o esquecimento do pagamento devido…

E, quando um câncer o consumia em seu leito de morte, Turguêniev teve forças para escrever ao amigo Tolstói para que este regressasse à pena, para que não renegasse seus escritos, “pois o mundo não poderia prescindir de sua capacidade criativa”. Logo após a morte do amigo, Tolstói retomou a pena e escreveu: “A Morte de Ivan Ilitch”.

Ilustração do romance “Pais e Filhos” | Imagem: David Borovsky

A história de “Pais e filhos”

Vamos a uma rápida resenha sobre a história narrada. Arkádi Kirsánov, um estudante, retorna à casa do pai, Nikolai Petróvitch, em companhia de seu amigo Bazárov, estudante de medicina de origem plebeia, que associa a crença no progresso científico a um profundo pessimismo em relação à cultura e à sociedade.

Turguêniev falava de uma situação concreta: eram comuns à época, sobretudo na universidade, jovens para os quais um bom sapateiro seria mais útil que um Goethe — “pois a humanidade precisa mais de sapatos do que de poesia”.

Bazárov para o amigo Arkádi: “Examinei todas as instalações da fazenda de seu pai. O gado é péssimo e os animais de trabalho fraquíssimos. As edificações também não prestam. Os trabalhadores parecem indolentes e relaxados. Quanto ao administrador, ou é idiota ou um finório. Ainda não cheguei a uma conclusão definitiva… A própria natureza nada tem de interessante no sentido em que a concebe. Não é um templo e sim, uma oficina onde o homem trabalha”.

“Quem é Bazárov? Quer que lhe diga quem é de fato? Ele é um niilista”, diz Arkádi ao tio Pável. Niilista vem do latim, retruca-lhe o pai, nihil significa “nada”… quer dizer que esta palavra se refere ao homem que em nada crê ou nada reconhece?

Alphonse Daudet, Gustave Flaubert, Émile Zola e Ivan Turguêniev | Foto: Reprodução

Pode dizer: “O homem que nada respeita”, atalha o tio. “Aquele que tudo examina do ponto de vista crítico”, sugeriu Arkádi… “niilista é o homem que não se curva perante nenhuma autoridade e que não admite como artigo de fé nenhum princípio, por maior respeito que mereça”.

Na visão desses estudantes, a religião seria substituída pela ciência, o casamento pelo amor livre, a propriedade privada pelo coletivismo, a administração central por comunas independentes.

O niilismo à moda russa acabaria evoluindo para um movimento revolucionário de cunho anarquista e resultou num dos fundamentos do terrorismo. No romance, Bazárov não chega a tais extremos. Seus conflitos são sobretudo de natureza emocional. Ele não tarda a entrar em choque com o gentil e romântico Nikolai e, de maneira mais acentuada, com seu irmão, o aristocrático Pável.

Bazárov: “O aristocratismo, o liberalismo, o progresso, os princípios! O homem russo não precisa dessas palavras estranhas e inúteis…nós não reconhecemos nenhuma autoridade, agimos baseados na força do que reconhecemos útil…negamos tudo”. “Numa sociedade bem-organizada será indiferente que o homem seja idiota ou sábio, mau ou bom”.

Nikolai: “Vocês negam tudo, ou por outra, destroem tudo…mas é necessário também construir”.

Bazárov: “Não nos compete, queremos primeiro desimpedir o local… se preciso pretendemos lutar até contra o próprio povo…o povo quando ouve trovoada acha que o profeta Elias está passeando pelo céu. Devo, neste caso, concordar com o povo? …somos uma força que age livremente”.

Ivan Turguêniev: autor de romances e contos | Foto: Reprodução

Pável: “O senhor fala com o mujique e despreza-o ao mesmo tempo”.

Arkádi e Bazárov prosseguem viagem, e hospedam-se na casa da bela e sedutora viúva Anna Odíntsova, por quem este desenvolverá uma paixão não correspondida, justamente o jovem estudante de medicina que considerava um absurdo o amor ideal ou romântico, justamente ele, que da vida vivida tão pouco conhecia.

Anna: “Sou muito orgulhosa para permitir que os mexericos me incomodem. Sou infeliz porque não tenho vontade de viver. Gosto de todo o conforto mesmo assim. Tenho tantas recordações e nada quero recordar…diante de mim vejo um longo caminho e não tenho vontade de trilhá-lo… já fui pobre e egoísta como o senhor, Bazárov”.

Seguem, então, para a casa dos pais de Bazárov, e depois de volta à casa de Arkádi, onde o atrito entre Bazárov e Pável termina num duelo bizarro — uma das grandes cenas do livro.

Alguns diálogos entre o pai de Arkádi e seu irmão, Pavel, são emblemáticos do conflito entre gerações, tão fortes no alvorecer do homem moderno. Pável: “A gente se esforça para não esquecer o que aprendeu e eis que se verifica que tudo nada vale, porque lhe dizem que os homens de responsabilidade não tratam de ninharias. Só falta nos acusarem de sermos homens acabados. O que se pode fazer? Parece que a juventude é mais inteligente que nós”.

Nikolai: “Herdeiros, repetiu tristemente, com um suspiro. Sabe do que me lembrei, mano? Uma vez discuti com minha mãe. Ela, zangada, não me queria ouvir…finalmente eu lhe disse que não podia compreender-me porque pertencíamos a gerações diversas…chegou agora a nossa vez. Os nossos herdeiros ou descendentes poderão dizer: Vocês não são de nossa geração”.

“Mas como é presunçosa a mocidade de hoje em dia!” Pela primeira vez ele media a distância que o separava do filho e sabia que ela aumentaria cada vez mais.

Bazárov mais uma vez retorna à casa dos pais. “Já disse que não acredito em coisa alguma…Um químico é vinte vezes mais útil que um poeta…A ciência, que é a ciência em geral? Existem ciências como existe arte e profissões. A ciência de um modo geral não existe”. Nesse retorno, realizando uma necropsia, Bazárov fere-se e contrai uma infecção mortal: ironicamente, a paixão pela ciência irá custar-lhe a vida.

Em seu delírio, na escuridão, ele não tinha muito sono; de olhos arregalados fitava com ódio o escuro. As reminiscências da infância não tinham poder sobre sua pessoa. “Eu só sinto aborrecimento e ódio… a formiga na qualidade de irracional tem o direito de desprezar quaisquer sentimentos de compaixão e amor ao próximo…nós homens somos tão diferentes…Quando encontrar um homem que seja igual ou superior a mim, mudarei de opinião a meu respeito. Odiar! … Princípios não existem, apenas sensações. Sou negativista por força da sensação. É-me agradável negar. Todo o meu eu sente o prazer de negar e basta… A honra também é uma simples sensação.”

Quando Arkádi vem visitar o amigo mortalmente enfermo este lhe diz: “Você, Arkádi, não nasceu para a nossa amarga e áspera vida de solteirão. Não tem nem a necessária ousadia, nem o ódio. Para a nossa atividade não basta ter a coragem e o atrevimento do moço. Vocês, nobres ou burgueses não vão além da generosa submissão ou generoso entusiasmo…é um bom rapaz mas não passa de um sentimentalista e liberalóide”. Arkádi: “Creio que toda obrigação de um homem honrado é ser sincero com seus amigos”.

Em contraste com seus também geniais contemporâneos, Tolstói e Dostoiévski, cujas obras são cheias de som e fúria, Turguêniev foi antes de tudo um escritor amável.

Sua obra revela um profundo conhecimento da natureza humana, examinada em estilo elegante. A narrativa se desdobra em sucessivos diálogos, por meio dos quais os personagens ganham voz e também, aos poucos, uma existência concreta. Esses personagens se erguem diante do leitor e suscitam, de forma vívida, questões que em boa parte continuam atuais.

Mas o livro tem final feliz, na reconciliação com a Natureza.

“Seja qual for o coração apaixonado, pecador e revoltado que se esconda em um túmulo, as flores que crescem sobre ele nos fitam tranquilas, com seus olhos inocentes. Elas não falam apenas da calma eterna, da grande, da infinita calma da natureza ‘indiferente’. Falam também da paz e da reconciliação eterna…”.

Carlos Russo é escritor e crítico literário.