Pacto com a memória

“As Fantasias Eletivas”, de Carlos Henrique Schroeder, faz uma ode à literatura, ao mostrar o encontro de dois solitários que buscam reinventar o mundo através do olhar sobre a ficção

Carlos Henrique Schroeder mostra que a grandeza de um livro não necessita estar em sua estrutura, mas em suas nuances

Carlos Henrique Schroeder mostra que a grandeza de um livro não necessita estar em sua estrutura, mas em suas nuances

Sérgio Tavares
Especial para o Jornal Opção

Dois homens encarcerados em si buscam, da corrupção da realidade inimiga, um liame quimérico para empreender uma fuga, amarrarem-se ao tecido da imaginação a fim de sufocarem-se até o fino de ar converter-se em memórias, devaneios, um filme. Assim está a trama de “O Beijo da Mulher-Aranha”, do argentino Manuel Puig. Valentin, um preso político, partilha a cela com Molina, homossexual acusado de defloração de menores. Enquanto um tenta, de entreouvidos, atualizar-se sobre a situação corrente do país, o outro passa os dias confabulando histórias de amor e de mistério. O confinamento e a convivência produzirá um efeito retardado em ambas as ambições e, face a face sob essa linha que conserva suas diferenças, encontrarão um amizade nutrida pelo intangível. Em certo momento, quando Valetin delira, febril, por conta de sentimentos penosos, Molina o acalenta: “Deixa eu lhe contar uma história. Assim você se distrai um pouco e não pensa na dor”. E confiar no pacto com a ficção para mutuamente reparar feridas, é o que também une os personagens do excelente “As Fantasias Eletivas”, de Carlos Henrique Schroeder.

Renê é um sujeito desqualificado para as relações pessoais. Não consegue se deter a nenhum mulher em razão de ciúmes, sua família quer de si distância, é impedido de ver o filho, cuja ausência compensa cheirando o sabonete que este usava quando bebê. Desde criança nunca exerceu o ímpeto da reação: apanhava calado, ficava, aterrorizado, inerte. A única coisa que faz bem é ser recepcionista de hotel. Atrás do balcão, que higieniza com tal destreza que lhe valeu a alcunha super-heróica de Mister Álcool, ele é o “verdadeiro dono da cidade turística” de Bal­ne­ário Camboriú. Nada escapa do controle dele. “Sabe exatamente o que você vai fazer, que tipo de turismo você veio fazer, pois todo turismo tem um fim”. Passeios turísticos, drogas, prostituição.

Renê trabalha no turno da noite. E está acostumado a receber books para serviços sexuais. Uma dessas profissionais é Copi (referência direta ao escritor portenho Raúl Taborda Damonte), travesti “magra, bonita e bem-vestida”, que se passaria por mulher caso não tivesse “uma cenoura entre as pernas”. Copi cobra de Renê que lhe indique aos hóspedes, ele mente que não faz isso, os dois brigam feio. Porém o processo de reatamento tem o mesmo impacto e, daí, nasce uma ligação que irá colocá-los numa mesma condição de degredo. Copi nasceu em Las Heras, cursou jornalismo e fez estágio no “El Clarín”, até ter “coragem de fazer o que achava que devia fazer”. Tal como Renê, apelidado agora de Ratón, não tem família. “Travesti não tem família”, diz. “Ao menos, de onde venho”.

Schroeder expõe um veio latente no qual é possível encarar as mágoas, as desilusões e os autoenganos de seus personagens, do mesmo modo que derruba o cenário pintado à guache que cortina a verdadeira cidade onde estes habitam; um balneário vendido como paraíso para o lazer e o descanso, mas que concentra gente com intenções vis, grosseiras, com péssimos gostos; “Bregário Camboriú”, ironiza Copi. A vida é real demais para se imaginar que existe algo de mágico nela, o autor parece nos alertar. Por isso mesmo, a única saída é o plano subjetivo, “as fantasias eletivas que chamamos de lembranças”.

cul9Copi notou isso antes. Amante das artes plásticas, da fotografia e, sobretudo, da literatura, utiliza-se das palavras para fazer com que Renê também enxergue esse mundo. Escreve poesia, tira fotos de anônimos e de lugares por onde passa numa forma de compensar a própria solidão. Um desses registros é a polaroid de uma menina sentada na linha do trem. E contextualizar todos os elementos que compõem e se enfeixam daquele instante congelado, muda radicalmente o gênero do livro para um magnífico ensaio sobre a condição humana, a maneira com que o passado e, por conseguinte, a memória são ressignificados por meio da contemplação das fotografias.

“As fotografias são uma espécie de segunda memória, é para lá que você corre quando quer lembrar os melhores momentos de uma viagem, de seu casamento, de sua família, do fim de semana. (…) O que me move para a fotografia são as similaridades com a literatura. A fotografia quer congelar um instante, e a literatura, recriá-lo, e ambas têm essa capacidade de permitir uma outra visão das coisas. Meu interesse pela fotografia começou justamente para tentar entender justamente os processos literários; afinal, criar e contar histórias é desvelar imagens”, reflete Copi.

Schroeder mostra que a grandeza de um livro não necessita estar em sua estrutura, mas em suas nuances. Que a linguagem pode ser mais relevante que a costura da trama. Há, de fato, numa camada implícita, uma ode à literatura, uma reverência aos autores hispano-americanos, em especial os argentinos. Nos capítulos finais, poemas e uma série de fotografias de Copi serão apresentadas, sobpostas por legendas, vinhetas que trazem à memória os breves contos cronopianos de Julio Cortázar, o poder do olhar de transformar o físico em ficção, de encontrar no banal propriedades extraordinárias.

Com uma narrativa ágil e fragmentada, com leves toques de hu­mor e de melancolia, “As Fantasias Eletivas” oferece ao leitor um dos mais bem-construídos personagens da literatura contemporânea brasileira, com sedução proporcional ao do também homossexual Molina, de Puig. Ao lado de Renê, serão dois tentando sobreviver ao próprio mundo até quando os pilares erguidos pelas palavras suportarem a realidade dura do fim. Pois como diz um dos poemas de Copi: “No fim, é só o fim”. As fotografias se apagam.

Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Queda da Própria Altura” e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc.

via Revista Bula

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